23
Fev 14

Plural de «notitia criminis»

Só falta de latim?

 

      Se no original se lê que «toda notitia criminis se debe canalizar a través del Ministerio Público», na tradução não pode estar (mas está, garanto) «todas as notitia criminis devem passar pelo Ministério Público». O itálico não assinala ali que se trata de uma expressão latina? Então, temos de respeitar as regras desta língua. Será «todas as notitiae criminis». Isto traz-me à mente, era inevitável, o plural da expressão latina persona non grata, de que já tratei mais de uma vez. Raramente acertam.

 

[Texto 4113]

Helder Guégués às 13:53 | comentar | ver comentários (8) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «tourinha»

Nada de paródias

 

      «Pedro Noronha levanta os quadris, põe uma expressão de desafio no rosto. Altivo, interage com o colega que está com a tourinha, objecto com uma roda e uns cornos que faz de touro» («Um matador de touros está sempre “no fio da navalha”», Maria João Lopes, Público, 23.02.2014, p. 18). O mais próximo a que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora chega é dizer que é a «paródia a uma destas corridas [com novilhas mansas] com touros fingidos». Nada disso. Podem ver aqui uma («the ultimate bullfighting training gadget»), que custa 375 euros.

 

[Texto 4112]

Helder Guégués às 12:26 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas:

Tradução: «dettato»

Passemos a outro

 

      «O Helder vai gostar de o ler», é o que me garantiu quem me ofereceu, vai para dois anos, o livro. Bem, ninguém pode honestamente dizer que não me esforcei. Não sou capaz; desisto.

      «O método de transcrição dos contos de fadas “da boca do povo” ganhou forma a partir da obra dos irmãs [sic] Grimm e foi-se codificando na segunda metade do século em cânones “científicos”, de escrupulosa fidelidade estenográfica ao ditado dialectal do narrador oral» (Sobre o Conto de Fadas, Italo Calvino. Tradução de José Colaço Barreiros. Lisboa: Editorial Teorema, 2010, 2.ª ed., p. 22). É o que também se lê na tradução brasileira, mas dettato não é também «modo di scrivere, di esprimersi», logo, «estilo»?

 

[Texto 4111]

Helder Guégués às 10:54 | comentar | ver comentários (5) | favorito
Etiquetas:

Um «ignaro» que não o é

Ainda menos

 

      «Até o próprio Benedetto Croce aos dezassete anos, ignaro ainda de que corria atrás de um pseudo-conceito [sic], pedia às lavadeiras do Vomero que lhe ditassem cantos e lenga-lengas [sic] para o “Basile” de Del Chiaro» (Sobre o Conto de Fadas, Italo Calvino. Tradução de José Colaço Barreiros. Lisboa: Editorial Teorema, 2010, 2.ª ed., p. 17).

      E desde quando é que nós dizemos desta maneira? Isso é em italiano: ignaro ancora di correr, etc. Copiar por copiar, antes a ausência de hífen em pseudoconcetto.

 

[Texto 4110]

 

Helder Guégués às 09:35 | comentar | ver comentários (1) | favorito

«Vulgos»?

Menos à letra

 

      «Difundiu-se o culto patriótico da poesia dos vulgos entre os literatos da Europa; Tommaseo procurou os cantos toscanos, corsos, gregos e ilíricos; mas as “novelline” (como em Oitocentos se chamaram os contos populares entre nós) esperaram em vão que do meio dos nossos româticos surgisse o seu escritor» (Sobre o Conto de Fadas, Italo Calvino. Tradução de José Colaço Barreiros. Lisboa: Editorial Teorema, 2010, 2.ª ed., p. 16).

    Mas vulgo não é um colectivo? Então, não tem plural. Em português, evidentemente, pois em italiano é volgo/volghi. Na tradução brasileira: «O culto patriótico da poesia popular difundiu-se entre os literatos da Europa; Tommaseo pesquisou os cantos toscanos, corsos, gregos e ilíricos; porém, as novelline (como eram chamadas as fábulas entre nós no século XIX) aguardaram em vão que surgisse entre nossos românticos seu descobridor» (Fábulas Italianas, Italo Calvino. Tradução de Nilson Moulin. São Paulo: Companhia de Bolso, 2006, 3.ª reimpressão).

 

[Texto 4109]

Helder Guégués às 09:12 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas:

Dez milhões de tradutores

Ruins defuntos

 

      E o autor escrevia então que «procederé a realizar, en primer lugar, un análisis orgánico de la institución, y, posteriormente, un estudio funcional de las principales actividades que se le encomiendan en el ámbito del proceso penal». O tradutor achou que seria «das principais actividades que se encomendam no âmbito do processo penal». Cera com ruins defuntos, é verdade. Vamos passar, brevemente, ao Ortega y Gasset de La caza y los toros. Que acha, Montexto?

 

[Texto 4108]

Helder Guégués às 08:23 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas:

Ortografia: «partenopeu»

Já temos, e melhor

 

      «No século XVII, em Nápoles, Giambattista Basile escolhe para as suas acrobacias de estilista barroco-dialectal os “cunti”, as histórias “de’ peccerille”, de pequeninos, e dá-nos um livro, o Pentameron restituído às nossas leituras pela versão de Benedetto Croce) [sic] que é como que o sonho de um disforme Shakespeare partenópeo, obcecado por um fascínio do horrível para o qual não há ogres nem bruxas que bastem, por um gosto da imaginação alambicada e grotesca em que o sublime se mistura com o vulgar e o obsceno» (Sobre o Conto de Fadas, Italo Calvino. Tradução de José Colaço Barreiros. Lisboa: Editorial Teorema, 2010, 2.ª ed., p. 15).

      É partenopeu — natural ou habitante de Nápoles. «Partenópeo» é uma tentativa de aportuguesar o italiano partenopeo. O que é desnecessário.

 

[Texto 4107]

Helder Guégués às 08:21 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Tradução: «incrinatura dialettale»

Fábulas

 

      «Os grandes livros de contos populares italianos, como se sabe, nasceram antes dos outros. Já em meados do século XVI, em Veneza, nas Piacevoli Notti de Straparola, a novela cede o lugar à sua irmã mais velha e rústica, a história de maravilhas e de encantos, com o retorno a uma imaginação entre gótica e oriental à maneira de Carpaccio, e uma pecha dialectal nos moldes da prosa boccaccesca» (Sobre o Conto de Fadas, Italo Calvino. Tradução de José Colaço Barreiros. Lisboa: Editorial Teorema, 2010, 2.ª ed., p. 15).

      «Pecha dialectal»? Hum, parece-me que não faz nenhum sentido. No original, está incrinatura dialettale. O termo aqui só pode estar a ser usado em sentido figurado. Na tradução brasileira, de Nilson Moulin (Fábulas Italianas, Italo Calvino. São Paulo: Companhia de Bolso, 2006, 3.ª reimpressão), lê-se isto: «É sabido que os grandes livros de fábulas italianas nasceram antes dos outros. Já em meados do século XVI, em Veneza, nas Piacevoli notti  de Straparola, a novela cede espaço à sua mais antiga e rústica irmã, a fábula de maravilhas e de encantos, com um retorno de imaginação entre gótico e oriental, à maneira de Carpaccio, e uma pequena contribuição dialetal na linha da prosa boccaciana.» E «boccaccesca» é italiano; em português diz-se «boccacciana».

 

[Texto 4106]

Helder Guégués às 08:17 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas:
23
Fev 14

«Passar juízo»?

Passar do juízo

 

      «O Sr. Peabody sorriu e disse: — Realmente tens. Para a próxima, não sejas tão rápido a passar juízo sobre as pessoas. E lembra-te do poder que têm as tuas palavras» (As Maçãs do Sr. Peabody, Madonna. Tradução de Miguel e Susana Serras Pereira. Lisboa: Dom Quixote, 2007, 2.ª ed., p. 28). Ué (diria um brasileiro), «passar juízo»? E, no entanto, no original está algo tão simples e claro como isto: «Next time, don’t be so quick to judge a person. And remember the power of your words.» 

 

[Texto 4105]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: