24
Fev 14

«Querigma» e «catecumenado»

Tomem lá mais dois

 

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora — o patriota, como lhe chama Montexto — não regista «catecumenado», apenas «catecumenato». Porque mais próximo do francês — catéchuménat —, será? Claro que não, estou a brincar. E também não regista «querigma», e por isso estou sempre a ler «kerigma».

 

[Texto 4122]

Helder Guégués às 19:49 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Tradução: «compartir»

Eu sei que parece mentira

 

      Agora podia dar trezentos exemplos seguidos, o que certamente faria, porque não me poupo a esforços, se tivesse a certeza de que serviam para alguma coisa. O magistrado informa então o tribunal «de las instrucciones que ha recibido, pero explica que personalmente no las comparte». Demasiado simples para o tradutor, pois cheira-lhe (é só intuição...) a armadilha ou falsos amigos: «mas explica que não as distribui pessoalmente». Apetece gritar em itálico.

 

[Texto 4121]

Helder Guégués às 16:21 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Tradução: «requerimiento»

E uma prova de avaliação para estes?

 

      Chegaram a perguntar-me, ainda no Assim Mesmo, se eu inventava os exemplos de más traduções do castelhano. Ingenuidade. Eu preciso acaso de inventar erros? Lembram-se de uma vez ter tratado da tradução da locução inglesa technical requirement, traduzida por «requerimento técnico»? Algo parecido desta vez, mas ao contrário e em castelhano: «la obediencia», lê-se no original, «se limita a los actos o requerimientos escritos». Clarinho como água que o seja. O tradutor achou que tinha de eludir um suposto falso cognato, e então vá de verter para «a obediência é limitada a actos ou requisitos escritos». Dez milhões.

 

[Texto 4120]

Helder Guégués às 15:39 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Tradução: «sin perjuicio»

Temos aqui um problema

 

      Há pessoas que estão sempre do lado errado. Este, por exemplo, sempre que aparece a expressão «sin perjuicio» disto ou daquilo, traduz para «sem afectar» isto ou aquilo. Que acha, Montexto, isto é vocação ou azar destes tipos? Azar nosso é de certeza, mas eles, qual é o problema deles?

 

[Texto 4119]

Helder Guégués às 15:04 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Tradução: «ordonnance»

Repito: dez milhões de tradutores

 

      Tinha de descambar em confusão: o autor, espanhol, está a analisar o ordenamento jurídico francês. Concretamente, a organização do parquet, o Ministério Público. Afirma então que «la responsabilidad disciplinaria de los miembros del Ministerio Público» está prevista «específicamente en los arts. 58 a 66 de la Ordenanza» número tal. O tradutor português diz que é nos «artigos 58 a 66 da Ordenança» número tal. Creio que não interessa tanto se o autor traduziu bem ordonnance para castelhano quanto saber se estamos a fazer a correspondência correcta para a realidade portuguesa. No contexto, verter para «ordenança» está, obviamente, errado. Pelo que vi, à ordonnance corresponde o nosso decreto-lei. É assim?

 

[Texto 4118]

Helder Guégués às 13:57 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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«Ter que/ter de»

Ora, nem de propósito

 

      «Quer queiramos quer não, temos que [tenemos que] preenchê-la por nossa conta: isto é, temos de [tenemos que] ocupá-la, de um ou de outro modo» (Sobre a Caça e os Touros, José Ortega y Gasset. Tradução de José Bento. Lisboa: Edições Cotovia, 2004, 2.ª ed., p. 18).

      Nada, a meu ver, justifica esta variação e o uso indiferente das duas construções. (Mas, nem de propósito, acabei de receber este recado, o que demonstra até que ponto é matéria a que a maioria é já indiferente: «Apenas uma nota: tanto quanto sei, as formas “ter de” e “ter que” são ambas correctas. Por isso, vou manter como o autor escreveu.») Resta agora comprovar se José Bento se deixou ir mais ou menos ao sabor do original, como estoutro passo me faz suspeitar: «Com a vida, é claro, é-nos imposta uma longa série de necessidades a que não é possível fugir, que temos de [hemos de] enfrentar sob pena de sucumbir» (idem, ibidem, p. 19).

 

[Texto 4117]

Helder Guégués às 10:27 | comentar | ver comentários (12) | favorito

Erros e crimes antigos

Regresso à terra

 

      «Com uma enxada portátil com uma lâmina de dez centímetros, José Fernandes empurra a terra das laterais dos alhos para os cobrir. “Cresceram bem e já estavam de orelhas de fora”, diz, fixando o chão. Tem a horta na Quinta dos Lombos, na freguesia de Carcavelos, desde finais de Setembro. A plantação de José está um pouco atrasada. Nem todas as sementes plantadas dão frutos e legumes, justifica» («Crescem couves e plantas medicinais entre prédios e estradas», Alexandra Guerreiro, Público, 24.02.2014, p. 14).

      Com enxadas destas, que se podem comprar por escassos euros numa loja de chineses ou no eBay, e a multiplicação das hortas urbanas, estão criadas as condições para voltarmos a ter daqueles crimes másculos em que, com um só golpe de enxada, metade da calota craniana desaparece.

      Agora quanto à língua, que para isso aqui estamos: pelo menos aquela repetição com/comcom uma enxada portátil com uma lâmina») devia ser evitada. As «laterais dos alhos» parece linguagem do fabuloso mundo do futebol.

 

[Texto 4116] 

Helder Guégués às 10:10 | comentar | favorito
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Uma certa forma de discutir o AO90

Situações frustracionais

 

      «Não disponho nem de espaço nem de tempo para aqui e agora fundamentar a minha posição. De modos [sic] que me fico por isto: tal como Fernando Pessoa dizia recusar-se a cortar o pescoço ao “cysne” (que então se grafava com y), também eu gostaria que a “acta dos factos de um cágado espectador” não passasse a “ata dos fatos de um espetador” (quanto ao “cágado” ainda se discute se leva acento)» («A petição e o cágado», Paulo Teixeira Pinto, Público, 24.02.2014, p. 47).

    Também eu sou contra, mas não contribuo desta maneira para a desinformação completa, como contributo máximo para o debate de ideias. Tanto que se podia dizer — de bem ou de mal, sobretudo de mal —, e sai isto. Ao contrário da correligionária Assunção Esteves (ver aqui), parece não temer o «inconseguimento».

 

[Texto 4115]

Helder Guégués às 09:56 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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24
Fev 14

Tradução: «voicemail»

Não admira

 

      «O seu telemóvel tocou; no ecrã, viu o número do seu escritório. Com certeza era Robin a dizer-lhe que Peter Gillespie andava atrás do dinheiro. Deixou ir directamente para o correio de voz, acabou de beber a cerveja e saiu do pub» (Quando o Cuco Chama, Robert Galbraith. Tradução de Ana Saldanha, Maria Georgina Segurado e Rita Figueiredo. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2013, 2.ª ed., p. 57).

      O que eu sei é que voice mail está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que não apresenta nenhuma alternativa em português. É triste.

      «His mobile rang; glancing at the screen, he saw his office number. No doubt Robin was trying to tell him that Peter Gillespie was after money. He let her go straight to voicemail, drained his glass and left.»

 

[Texto 4114]

Helder Guégués às 07:07 | comentar | ver comentários (10) | favorito