25
Fev 14

Tradução: «flat rate»

Duas soluções

 

      Recentemente, revi um livro em que o autor optara, vá-se lá saber porquê, por escrever flat rate, como se fosse algo transcendental, só passível de ser designado em inglês. Sugeri «taxa fixa» e o autor aceitou. Agora, acabei de ouvir outra forma de traduzir a locução: «Mariano Rajoy [...] anunciou também uma tarifa estável, uma tarifa plana, de contribuição para a Segurança Social de apenas 100 euros» (Rosa Veloso, no noticiário da 1 da tarde na Antena 1).

 

[Texto 4130]

Helder Guégués às 14:42 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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O AO90 visto da academia

Ficámos (mais) aleijados

 

      «Ficámos aleijados a escrever em português. Por determinação da lei que impôs o Acordo Ortográfico como medida política de aproximação com os países de língua oficial portuguesa. Os quais, afinal, enjeitam tal medida, pois não o adoptaram! E aleijados também porque ninguém entre nós sabe escrever segundo o Acordo, tão impossível de fixar ele é, ilógico nas suas regras, infinidade de excepções e hipóteses de escrita múltipla. Não se consegue fixá-las, é preciso decorar o que está correcto e o que não está! Não há hoje quem saiba escrever em Portugal segundo o Acordo: escrevem os correctores automáticos (ditadores mecânicos da linguagem que “faz” cultura: como Deus a fazer um “pato” com o Diabo, num livro de Saramago; como a locutora da TV que lança um “réto” (“repto” quis ela dizer, e não “recto”) ou como o aluno que, lendo sobre “a Imaculada Conceção”, passa a escrito como “Imaculada Concessão” — exemplos sem fim, que parecem anedota, se é que tudo isto o não é» («Língua Portuguesa: a hora da esperança», Maria Alzira Seixo, Público, 25.02.2014, p. 43).

      Um pouco repetitivo, trapalhada com os parênteses, alguma caricatura e anedota, mas fica a opinião.

 

[Texto 4129]

Helder Guégués às 13:25 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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«Parlapié/parlapiê»

Conversa fiada

 

      «O facilitador Relvas partiu para tomar posse como alto-comissário da Casa Olímpica da Língua Portuguesa no Brasil, um daqueles títulos ridículos que servem de penacho aos lobistas profissionais, para continuar a olear relações dentro do seu triângulo favorito — Portugal-Angola-Brasil. Muita saúde e água de coco para ele. E nós por cá fomos passando excelentemente sem a sua pessoa, com um novo ministro que tinha um pouco mais do que parlapiê, e tentando não pensar demasiado no passado em comum de Miguel Relvas com Pedro Passos Coelho e em todas as Tecnoformas desta vida» («O mistério Relvas», João Miguel Tavares, Público, 25.02.2014, p. 44).

    Não está, pelo que vi, em nenhum dicionário, nem nos mais conspícuos nem nos outros. Vê-se das duas formas — parlapié e parlapiê —, mas talvez mais a primeira. Parece ser termo com poucas décadas.

 

[Texto 4128]

Helder Guégués às 11:11 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Tradução: «por lo visto»

A julgar pelo que se vê

 

   «O jovem, pelo visto [por lo visto], tinha-se afeiçoado à literatura e não tinha remédio» (Sobre a Caça e os Touros, José Ortega y Gasset. Tradução de José Bento. Lisboa: Edições Cotovia, 2004, 2.ª ed., p. 26).

     Mera adesão ao original, como em tantos outros casos, ou arreigada convicção? Montexto escreve sempre «pelo visto» e não, como se vê em todos os dicionários, «pelos vistos».

 

[Texto 4127]

Helder Guégués às 09:47 | comentar | ver comentários (8) | favorito
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Tradução: «hay que»

Ca vós diredes

 

      «Por otro lado, hay que destacar que, etc.», lia-se na mísera tradução de ontem. O tradutor vertera assim: «Por outro lado, há que destacar que, etc.» Há que. Haque. Aqui-d’el-rei. Os grandes também traduzem desta maneira: «Caçar é assim um mester duro, que exige muito do homem: há que estar treinado [hay que mantenerse entrenado], enfrentar cansaços extremos, aceitar o perigo» (Sobre a Caça e os Touros, José Ortega y Gasset. Tradução de José Bento. Lisboa: Edições Cotovia, 2004, 2.ª ed., p. 27). Não sei, cá para mim isto são sonoridades das cantigas medievais. Ca vós diredes: o moço ensandeceu. Mas nom.

 

[Texto 4126]

Helder Guégués às 09:04 | comentar | ver comentários (12) | favorito
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Tradução: «Escipión Emiliano»

Mas não é agora

 

     «Refiro-me ao facto de que uma das mais ilustres amizades que existiram no planeta Terra — amizade entre o grego Políbio e Escipião Emiliano [Escipión Emiliano] — fosse ocasionada e urdida no seu comum entusiasmo pelas caçadas» (Sobre a Caça e os Touros, José Ortega y Gasset. Tradução de José Bento. Lisboa: Edições Cotovia, 2004, 2.ª ed., p. 28).

   «“Português Cipião” chamar-se deve», lê-se nos Lusíadas. Com a lição de José Bento, devia ser «“Português Escipião” chamar-se deve». Assim terá sido alguma vez, com epêntese de e na palavra Scipião>Escipião. Mas não é assim agora.

 

[Texto 4125]

Helder Guégués às 08:46 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Tradução: «suntuaria»

Nem é preciso pensar

 

      «Não; pouco adiante, vamos ver por que a caça — não só a desportiva e suntuária [suntuaria], mas toda a caça, seja ela qual for — exige essencialmente limitação e privilégio» (Sobre a Caça e os Touros, José Ortega y Gasset. Tradução de José Bento. Lisboa: Edições Cotovia, 2004, 2.ª ed., p. 26).

   O tradutor viu suntuaria e nem pensou duas vezes: «Eu também quero!» «Suntuário» é agora com a dupla grafia do Acordo Ortográfico; em 2004, era uma visão, uma avantesma. É como diz Montexto: «Encostam-se tão dóceis ao que lhe põem diante ou debaixo! Gente tão dengosa, gente que tem um requebrado para o lado...»    

 

[Texto 4124]

Helder Guégués às 08:20 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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25
Fev 14

Além da obra

Voltemos aos grandes

 

      «Um dos poucos textos sobre a arte da caça que da Antiguidade nos restam é o Cynegetikós [Cynegeticus], de Arriano, o grande historiador de Alexandre, grego que escrevia nos tempos de António Pio [Antonino Pío] e Marco Aurélio» (Sobre a Caça e os Touros, José Ortega y Gasset. Tradução de José Bento. Lisboa: Edições Cotovia, 2004, 2.ª ed., p. 24).

      No fundo, é como se o tradutor quisesse corrigir o autor. Arriano, romano, quando foi arconte em Atenas, escreveu a obra Κυνηγετικός, que Gasset cita pelo título latino, Cynegeticus. Três perguntas me ocorrem: está um tradutor autorizado a fazer tal? Não induz em erro o leitor? Não devia ser Kynegetikos em vez de Cynegetikós?

      Como podem ver, Gasset escreveu «Antonino Pío» (estou a citar a edição de 1962 de La Caza y los Toros da Espasa-Calpe, p. 18), e José Bento optou (?) por verter para «António Pio». Contudo, Titus Aurelius Fulvus Boionius Antoninus é conhecido entre nós por Antonino Pio.

 

[Texto 4123] 

Helder Guégués às 08:05 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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