26
Fev 14

Léxico: «decôvile»

Desaparecida em combate

 

      Não sabia que nas trincheiras (nas trinchas, como diziam os soldados) da I Guerra Mundial havia comboios de via ultra-estreita, o chamado sistema décauville, do nome do seu inventor, Paul-Armand Décauville. No Brasil, e acho muito bem, afeiçoaram a palavra à nossa língua, decôvile. Não aparece, porém, nos dicionários.

 

[Texto 4137]

Helder Guégués às 14:35 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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«Razão por que»

Agora os multipremiados

 

      «Este texto exigiria um escrupuloso comentário, porque nele transparece um dos segredos da razão porque [de por qué] Roma chegou a ser Roma» (Sobre a Caça e os Touros, José Ortega y Gasset. Tradução de José Bento. Lisboa: Edições Cotovia, 2004, 2.ª ed., p. 31). Nesta, mesmo os novatos já vão acertando, pelo menos intermitentemente: razão por que, por que razão. Chegou a hora de falharem os multipremiados.

 

[Texto 4136]

Helder Guégués às 10:22 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Uma ideia perigosa

Já que aqui estamos

 

  «Os aspectos do léxico (por exemplo, “pastelaria” (Portugal) — “lanchonete” (Brasil)), da sintaxe (por ex., a utilização reiterada do “você”, em lugar do “tu”), da morfossintaxe e da semântica (palavras que têm significados distintos) mantêm-se diversos, em ambas as variantes do Português (de Portugal e do Brasil))» («Acordo Ortográfico: nunca é tarde para corrigir um erro», Ivo Miguel Barroso, Público, 26.02.2014, p. 46).

      É, segundo o autor, uma das «razões linguísticas e filológicas» por que temos de discutir agora o AO90. Fica-se com a ideia (ideia perigosa, aliás, prenhe de ameaças) de que o Acordo Ortográfico de 1990 também é mau por este motivo, por não «unificar» a sintaxe e o léxico. Francamente. E será que a utilização de «você» é do puro domínio da sintaxe?

 

[Texto 4135] 

Helder Guégués às 07:02 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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Ortografia: «idiossincrasia»

Não é bem assim

 

      «A língua artificial que resulta do AO90 não é linear, permitindo várias interpretações, dado que está a ser transplantada para Portugal uma cultura (: a brasileira) e uma vertente ortográfica concebida num determinado País (: o Brasil), com as suas especificidades e idiossincracias» («Acordo Ortográfico: nunca é tarde para corrigir um erro», Ivo Miguel Barroso, Público, 26.02.2014, p. 46).

   Desculpe, Ivo Miguel Barroso, mas não é bem assim: já não vai a tempo de corrigir «idiossincracias». Corrijo eu: «idiossincrasias». E os dois pontos a seguir ao parêntese de abertura é de uma grande originalidade.

 

[Texto 4134]

Helder Guégués às 06:49 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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«Cobrar», uma acepção

E outro perdido

 

      «Pelo contrário, os actos da caçada vão todos informados pelo propósito e fim de ter a peça, de a “cobrar”. Se o caçador desportivo mata a rês, não é para a matar, não é um assassino; mas a morte do animal é a forma mais natural de o ter e cobrá-lo» (Sobre a Caça e os Touros, José Ortega y Gasset. Tradução de José Bento. Lisboa: Edições Cotovia, 2004, 2.ª ed., p. 39).

    Cobrar também no original: «obtener o recoger una pieza de caza abatida». Cobrar a caça, isto é, ir buscá-la. Também é acepção nossa, mas, infelizmente, não a vejo dicionarizada.

 

[Texto 4133]

Helder Guégués às 06:31 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «poliorcético»

Verbete perdido

 

   «No acampamento de Renieblas, junto dele [Cipião Emiliano], estava Políbio, como técnico de estratégia e engenheiro, inventor de artefactos poliorcéticos, aperfeiçoador do sistema de sinais militares, do que hoje se chama “transmissões”» (Sobre a Caça e os Touros, José Ortega y Gasset. Tradução de José Bento. Lisboa: Edições Cotovia, 2004, 2.ª ed., p. 31).

     É o relativo à poliorcética, que é a arte de fazer cercos. O Departamento de Dicionários da Porto Editora perdeu o verbete. No entanto, aparece no Dicionário de Francês-Português.

 

[Texto 4132]

Helder Guégués às 06:12 | comentar | favorito
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26
Fev 14

Tradução: «sillería»

Inacreditável

 

      «Não levemos a mal a violência [barrabasada] que [os Romanos] cometeram contra os nossos antepassados. Sem ela e outras parecidas a alma peninsular não teria esse pétreo alicerce de cadeiral romano [pétreo cimiento de sillería romana], sempre presente no espanhol e que, por muito que o tempo avance, faz dele perenemente um “antigo”» (Sobre a Caça e os Touros, José Ortega y Gasset. Tradução de José Bento. Lisboa: Edições Cotovia, 2004, 2.ª ed., p. 31).

      Violência é traduzir barrabasada por «violência», isso sim. E «pétreo cimiento de sillería romana» vertido como o foi é o cúmulo da ineptidão. Na tradução de línguas próximas da nossa, fugir do literal tanto pode conduzir ao erro mais absurdo como ao maior dos acertos. «Pétreo alicerce de silhar romano», «pétrea fundação de silhar romano», «pétrea fundação de alvenaria romana».

   Já não foi mau ter chegado ao «pétreo alicerce», outros diriam «cimento», que só foi descoberto no século XIX. É do domínio da cultura geral. Recomendo a leitura das principais obras de Jorge de Alarcão.

 

[Texto 4131] 

Helder Guégués às 06:09 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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