27
Fev 14

Nem «flirt» nem «flirtar»

Mas Garrett não lhe resistiu

 

      «No entanto, ficou satisfeita ao poder ilibar Strike de qualquer intenção de a namoriscar» (Quando o Cuco Chama, Robert Galbraith. Tradução de Ana Saldanha, Maria Georgina Segurado e Rita Figueiredo. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2013, 2.ª ed., p. 80). No original: «She was pleased, however, to acquit Strike of any flirtatious intent.» Nada de especial, certamente, mas não poucos tradutores não prescindiriam do termo inglês.

 

[Texto 4141]

Helder Guégués às 22:09 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Tradução: «hueco»

Cayó al vacío por el hueco

 

      «Impelido pela razão, que é um vento formidável — “espírito” quer dizer vento —, o homem está condenado a progredir e isto significa que está condenado a afastar-se cada vez mais da Natureza, a construir no seu oco [hueco] uma sobrenatureza» (Sobre a Caça e os Touros, José Ortega y Gasset. Tradução de José Bento. Lisboa: Edições Cotovia, 2004, 2.ª ed., p. 55). «Pela sua parte, a razão que veio preencher o oco [hueco] deixado pelos instintos evanescentes fracassa na tarefa de levantar a peça receosa» (idem, ibidem, p. 59).

   Pode ser mais do domínio da subjectividade, mas creio que não traduziria por «oco» em nenhuma das ocorrências. Nem talvez por «vazio» (e Ortega y Gasset também usa vacío nesta obra).

 

 [Texto 4140]

Helder Guégués às 10:33 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Tradução: «convicción tópica»

Qual baldio

 

      «Deste modo, [sic] se constituiu nas cabeças, de forma automática, o lugar comum [convicción tópica] de que “antes havia muito mais caça”, no sentido de que “havia caça de sobra”» (Sobre a Caça e os Touros, José Ortega y Gasset. Tradução de José Bento. Lisboa: Edições Cotovia, 2004, 2.ª ed., p. 44).

    Tópico, só por si, já significa lugar-comum. Mas desta forma, com hífen, ou parece um baldio. Podíamos ir muito mais para trás, mas está assim, por exemplo, no Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves.

 

[Texto 4139]

Helder Guégués às 09:08 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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27
Fev 14

«Glaciar/glacial»

Quase igual

 

    «Até ao ponto de que, a parte a preparação mágica usada pelos primitivos da época glaciar [época glaciar] e seus similares que vivem ainda hoje, o acto inicial de toda a caçada consiste em conseguir descobrir a peça e “levantá-la”» (Sobre a Caça e os Touros, José Ortega y Gasset. Tradução de José Bento. Lisboa: Edições Cotovia, 2004, 2.ª ed., p. 52).

    Erraram ambos, Ortega y Gasset e Bento, pois o adjectivo, tanto em castelhano como em português, neste contexto é «glacial» (como já vimos aqui e aqui). A obrigação do tradutor, se o soubesse por se entregar a tais minudências, era corrigir. Mas tem falhas, já o vimos, nos pormenores e nos pormaiores.

 

[Texto 4138]

Helder Guégués às 08:59 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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26
Fev 14

Léxico: «decôvile»

Desaparecida em combate

 

      Não sabia que nas trincheiras (nas trinchas, como diziam os soldados) da I Guerra Mundial havia comboios de via ultra-estreita, o chamado sistema décauville, do nome do seu inventor, Paul-Armand Décauville. No Brasil, e acho muito bem, afeiçoaram a palavra à nossa língua, decôvile. Não aparece, porém, nos dicionários.

 

[Texto 4137]

Helder Guégués às 14:35 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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«Razão por que»

Agora os multipremiados

 

      «Este texto exigiria um escrupuloso comentário, porque nele transparece um dos segredos da razão porque [de por qué] Roma chegou a ser Roma» (Sobre a Caça e os Touros, José Ortega y Gasset. Tradução de José Bento. Lisboa: Edições Cotovia, 2004, 2.ª ed., p. 31). Nesta, mesmo os novatos já vão acertando, pelo menos intermitentemente: razão por que, por que razão. Chegou a hora de falharem os multipremiados.

 

[Texto 4136]

Helder Guégués às 10:22 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Uma ideia perigosa

Já que aqui estamos

 

  «Os aspectos do léxico (por exemplo, “pastelaria” (Portugal) — “lanchonete” (Brasil)), da sintaxe (por ex., a utilização reiterada do “você”, em lugar do “tu”), da morfossintaxe e da semântica (palavras que têm significados distintos) mantêm-se diversos, em ambas as variantes do Português (de Portugal e do Brasil))» («Acordo Ortográfico: nunca é tarde para corrigir um erro», Ivo Miguel Barroso, Público, 26.02.2014, p. 46).

      É, segundo o autor, uma das «razões linguísticas e filológicas» por que temos de discutir agora o AO90. Fica-se com a ideia (ideia perigosa, aliás, prenhe de ameaças) de que o Acordo Ortográfico de 1990 também é mau por este motivo, por não «unificar» a sintaxe e o léxico. Francamente. E será que a utilização de «você» é do puro domínio da sintaxe?

 

[Texto 4135] 

Helder Guégués às 07:02 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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Ortografia: «idiossincrasia»

Não é bem assim

 

      «A língua artificial que resulta do AO90 não é linear, permitindo várias interpretações, dado que está a ser transplantada para Portugal uma cultura (: a brasileira) e uma vertente ortográfica concebida num determinado País (: o Brasil), com as suas especificidades e idiossincracias» («Acordo Ortográfico: nunca é tarde para corrigir um erro», Ivo Miguel Barroso, Público, 26.02.2014, p. 46).

   Desculpe, Ivo Miguel Barroso, mas não é bem assim: já não vai a tempo de corrigir «idiossincracias». Corrijo eu: «idiossincrasias». E os dois pontos a seguir ao parêntese de abertura é de uma grande originalidade.

 

[Texto 4134]

Helder Guégués às 06:49 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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26
Fev 14

«Cobrar», uma acepção

E outro perdido

 

      «Pelo contrário, os actos da caçada vão todos informados pelo propósito e fim de ter a peça, de a “cobrar”. Se o caçador desportivo mata a rês, não é para a matar, não é um assassino; mas a morte do animal é a forma mais natural de o ter e cobrá-lo» (Sobre a Caça e os Touros, José Ortega y Gasset. Tradução de José Bento. Lisboa: Edições Cotovia, 2004, 2.ª ed., p. 39).

    Cobrar também no original: «obtener o recoger una pieza de caza abatida». Cobrar a caça, isto é, ir buscá-la. Também é acepção nossa, mas, infelizmente, não a vejo dicionarizada.

 

[Texto 4133]

Helder Guégués às 06:31 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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