02
Mar 14

A doença dos jornais

Desaforismos

 

      Há uma doença de que só os jornais sofrem — na verdade, sofrem-na os leitores (pacientes) dos jornais — que é a angina spatii. Faz desaparecer preposições, artigos e outros elementos necessários para a compreensão dos títulos. Já temos visto.

 

[Texto 4163]

Helder Guégués às 15:08 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Humor na língua

Também temos

 

      «Durante muchos años, en Jaca (calle Ramón y Cajal) una pescadería exhibía un letrero divertido en el que podía leerse «pesk 2» (pescados)» (El humor en el español formal, Jacques De Bruyne. Cáceres: Universidad de Extremadura, 2009, p. 42).

   Na semana passada, vi na Duque de Loulé (em lisboetês, Duclolé) uma carrinha de uma empresa de «transportes personalizados» chamada 20 buscar.

 

[Texto 4162]

Helder Guégués às 14:49 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Tradução: «unconscionable»

Há melhor

 

      «Os chineses, juntamente com os indianos, consideram que os países industrialmente avançados do Ocidente, tendo atingido os seus actuais padrões elevados depois de décadas a poluírem o ar e a emitirem níveis inescrupulosos [unconscionable] de gases com efeito de estufa, querem agora negar aos outros o direito de crescerem do mesmo modo» (O Regresso da História e o Fim dos Sonhos, Robert Kagan. Tradução de Oscar Mascarenhas. Alfragide: Casa das Letras, 2009, p. 117).

      Dado o contexto, unconscionable tem muito melhores equivalentes na nossa língua: inaceitáveis, inadmissíveis...

 

[Texto 4161]

Helder Guégués às 14:07 | comentar | favorito
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«Aspirar a»

Gramaticando

 

  «“Durante décadas, pensámos que ela residia no conseguimento [achievement] económico — para apanharmos os Estados Unidos. Mas isso já o fizemos. Somos abastados. Por isso, nos últimos 20 anos, temos estado à procura da nossa alma — em busca de algo que possamos aspirar a seguir”» (O Regresso da História e o Fim dos Sonhos, Robert Kagan. Tradução de Oscar Mascarenhas. Alfragide: Casa das Letras, 2009, p. 66).

    Talvez aspirar uns milhões de chineses, e dessa maneira acabar com o perigo ali à porta, não? Aqui, o verbo «aspirar» é transitivo indirecto, e por isso exige complemento com a preposição «a»: «em busca de algo a que possamos aspirar a seguir».

 

[Texto 4160]

Helder Guégués às 12:09 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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Tradução: «shift»

Sem palheiro

 

     «O Japão é não só uma grande potência genuína como cada vez mais exibe ambições de grande potência. A nova agulha [shift] ficou mais visível desde o fim da Guerra Fria» (O Regresso da História e o Fim dos Sonhos, Robert Kagan. Tradução de Oscar Mascarenhas. Alfragide: Casa das Letras, 2009, pp. 64-65).

    Neste caso, o leitor encontra a agulha, não sei é se encontrará o palheiro. E, afinal, é algo tão despretensioso quanto isto: «The shift has been most marked since the end of the Cold War.»

 

[Texto 4159]

Helder Guégués às 11:49 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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«Finnish defense minister»

Em nenhuma

 

   «Até o próprio ministro finlandês da Defesa manifesta preocupação porque a “força militar” se tornou de novo um “elemento-chave” da forma como a Rússia “conduz as suas relações internacionais”» (O Regresso da História e o Fim dos Sonhos, Robert Kagan. Tradução de Oscar Mascarenhas. Alfragide: Casa das Letras, 2009, p. 46).

    Não é assim em português — nem em inglês: «Even the Finnish defense minister, etc.» Não é assim tudo tão móvel dentro da frase. «Ministro da Defesa finlandês». Ah, sim, e estranhamente, o que costumamos ver grafado com maiúscula inicial, está com minúscula: estado-nação, estado de direito, história...

 

[Texto 4158]

Helder Guégués às 10:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Tradução: «transcendence»

Acima da inteligência humana

 

      «As democracias procuraram gerir a ascensão da China comprometendo-a económica e diplomaticamente, entrelaçando uma espessa rede de ligações comerciais e saudando o seu envolvimento em sistemas comerciais e políticos internacionais, tudo isto num esforço para facilitar a sua transcensão da política tradicional da força, enveredando por uma existência pós-moderna e segura do século XXI» (O Regresso da História e o Fim dos Sonhos, Robert Kagan. Tradução de Oscar Mascarenhas. Alfragide: Casa das Letras, 2009, p. 50).

     Até hoje, só tinha lido o vocábulo transcensão em obras de filosofia. O acto ou efeito de transcender também se diz transcendência, mas talvez a opção do tradutor esteja relacionada com a acepção dominante do vocábulo, aquilo que está acima da inteligência humana, que quis evitar.

 

[Texto 4157]

Helder Guégués às 09:57 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Somos todos pintainhos

Para eles

 

      Ontem à noite, a minha filha estava a ler sozinha o livro ilustrado O Pequeno Pónei (Wolgang Schleicher, com tradução de João Ventura. Lisboa: Literal Azul, s/d), e, surpreendida, veio mostrar-me isto: «A cegonha fica a olhar para mim e a mãe pata chama os seus pintainhos para junto de si. [...] As galinhas saem da minha frente a cacarejar, o ganso foge dali com os seus pintainhos.» Só faltou os javalis e os póneis terem também os seus pintainhos.

 

[Texto 4156]

Helder Guégués às 09:06 | comentar | ver comentários (2) | favorito
02
Mar 14

«Soft power/hard power»

Por sorte, não

 

      Quem não se lembra daquela entrevista endemoninhada de Assunção Esteves em que falou do «soft power sagrado da Europa»? Por sorte, não há influências retroactivas: «A esperança no fim da Guerra Fria era a de que as nações procurariam a integração económica como uma alternativa à competição geopolítica, que buscariam uma força suave [soft power] do crescimento económico em alternativa à força bruta [hard power] do poderio militar ou da conforntação geopolítica» (O Regresso da História e o Fim dos Sonhos, Robert Kagan. Tradução de Oscar Mascarenhas. Alfragide: Casa das Letras, 2009, p. 48).

 

[Texto 4155]

Helder Guégués às 08:42 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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