04
Mar 14

Foleiros e roboteiros

Karel Čapek em África

 

 

      No Primeiro Jornal, na SIC, vi uma reportagem da Feira das Tradições, em Pinhel. Um dos entrevistados era foleiro, e lá estava a sua banca de foles de vários tamanhos. Tinha de ser: «Antes fazer foles que fazer panelas.» Mas a minha descoberta do dia foi a palavra roboteiro numa obra que estou a rever. E encontra-se, ena pá, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «Angola indívíduo que transporta às costas ou por carrinho de mão cargas pesadas; carregador».

 

[Texto 4174]

Helder Guégués às 17:19 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Encher e desencher

Outro caso

 

    Agora estou todas as semanas a ver o verbo «desencher». E antes, nunca. Tudo começou aqui: «Angus tinha um grande rosto belo no seu minúsculo torso deformado e era especialista num fluxo de extravagantes cumprimentos delicados, todos proferidos num ceceio ligeiramente aspirado como se o esforço que era necessário para encher e desencher [to inflate and deflate] de ar os pulmões fosse outra consequência da sua incapacidade» (Inquietude, William Boyd. Tradução de Inês Castro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, 2.ª ed., p. 156).

    Faz lembrar o «deslargar» da minha infância, não que eu o usasse, mas ouvia os outros miúdos. E os professores, que não os corrigiam no demais, corrigiam-nos nisto.

 

[Texto 4173] 

Helder Guégués às 13:56 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Como se escreve nos jornais

Um cazzo triste

 

     «No seu discurso desde a varanda dos apartamentos papais, para as milhares de pessoas que estavam na praça de São Pedro, o Papa trocou a palavra “caso” por “cazzo”. A palavra, um termo obsceno para pénis, é usada pelos italianos como interjeição, como se fosse “f...” em português» («Papa pronuncia mal ‘caso’ e diz palavrão italiano», Susana Salvador, Diário de Notícias, 3.03.2014, edição em linha).

     E porque atentas tu para o argueiro que está no olho de teu irmão, e a trave não enxergas que em teu olho está? E cazzo não é «foda-se», foda-se, é «caralho», caralho.

 

[Texto 4172]

Helder Guégués às 11:48 | comentar | ver comentários (11) | favorito
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04
Mar 14

«A las cresterías, a las poyatas y canales»

Irreconhecível

 

      Quem disse que isto não podia piorar? Pode, pois. Ortega y Gasset cita o conde de Yebes: «Mirar según se va marchando; mirar mientras se merienda o se enciende un cigarro; hacia arriba, hacia abajo, hacia el terreno que hemos recorrido, a las cresterías, a las poyatas y canales, con los prismáticos y a simple vista, y tener siempre presente que el macho que nos has encontrado en ocho horas de ruda labor se te puede presentar a cien metros si sabes mirar, cuando a la caída de la tarde, hecho unos zorros y maldiciendo de tu afición, te estás descalzando y cuidando tus doloridos pies en la puerta del refugio o de la tienda.» Tudo, parece-me, claríssimo. Apenas assinalo aquele segmento porque sei que é nas coisas concretas que os tradutores se costumam estatelar. Agora vejam a tradução portuguesa: «Olhar conforme se vai andando; olhar nos momentos de descanso; olhar enquanto se merenda ou se acende um cigarro; para cima, para baixo, para o terreno que já percorremos, para os enfeites dos pontos altos dos edifícios, para as mísulas e telhados, com os binóculos e a olho nu, e ter sempre presente que o macho que não encontraste em oito horas de rude labor se te pode apresentar a cem metros se sabes olhar, quando, ao cair da tarde, estás desfeito de cansaço e a maldizer o teu entusiasmo, a descalçar-te a tratar dos pés doridos à porta do teu refúgio ou da tenda» (Sobre a Caça e os Touros, José Ortega y Gasset. Tradução de José Bento. Lisboa: Edições Cotovia, 2004, 2.ª ed., p. 99).

      O contexto é pouco mais alargado do que este que aqui transcrevo: o conde de Yebes começa por dizer que a visão é o sentido mais necessário ao caçador. O caçador deve «mirar, mirar y remirar». Claríssimo, repito.

    José Bento de certeza que nunca deixou de dizer de si para si que canales não eram «telhados», mas teve de enjorcar a tradução neste ponto, já que não atinou com o significado de crestería. A ideia do original ficou, como se pode comprovar, desvirtuada, irreconhecível. É assim: «para as cristas [dos montes, das serras], para os muros [de pedra seca], para os vales». Procurando, encontraríamos melhor termo para estes muros. Na ilha da Madeira, aos socalcos que sobem as encostas do mar até à serra dá o povo o nome de poios, que têm também muros de pedra seca. Como nas ilhas Baleares têm o nome de marges. Reparem na semelhança: poyatas, poios.

      O caçador de Yebes está no campo, na serra; o caçador de José Bento está no meio de uma povoação.

 

[Texto 4171] 

Helder Guégués às 08:43 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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