13
Mar 14

Variantes

Missas e ciganos

 

 

      «You don’t know enough», disse ela à serigaita da cigana. Em vez de algo descolorido, o tradutor verteu assim: «Tu não sabes da missa nem metade.» Não conhecia esta variante, se o é. «Tu não sabes da missa a metade.» Ou: «Não sabes da missa ametade.» E mais: «— E não sabes da missa metade. Se te contasse a pega que tive há dias com o meu chefe...» (A Criação do Mundo, Miguel Torga. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2013, p. 350).

 

[Texto 4219]

Helder Guégués às 16:25 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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A importância de ser inglês

Queimados

 

 

    «A percentagem de trabalhadores que se encontra num estado de esgotamento (burnout) aumentou substancialmente entre 2008 e 2013. No ano passado, 15% dos trabalhadores inquiridos no âmbito de um estudo da Associação Portuguesa de Psicologia da Saúde Ocupacional (APPSO) evidenciavam sinais de esgotamento, quando em 2008 a percentagem que estava nessa situação era de 9%» («Percentagem de trabalhadores com sinais de esgotamento quase duplicou em seis anos», Alexandra Campos, Público, 13.03.2014, p. 12).

   E que jornalista ia deixar de usar o termo inglês? Nenhum. Embora esgotamento já diga tudo, e bem, tem de se acrescentar burnout, porque sim, embora signifique o mesmo. Uma espécie de Dupond e Dupont. 

 

 

[Texto 4218]

Helder Guégués às 09:48 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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E o vocativo, pá?

E eles ralados

 

 

      «Bastaram 24 horas para que a imprensa o definisse como “um Papa de gestos” – gestos humildes que “prenunciam mudanças revolucionárias”. Francisco despoja-se da pompa. Reduz ao mínimo as insígnias pontifícias. Recusa viver “no palácio”. Muda a forma de ser Papa. Veste a pele de pastor, “próximo das pessoas como João XXIII” – o “bom Papa João”. A escolha do nome fez evocar o apelo que em 1205 mudou a vida do Poverello de Assis: “Vai Francisco e repara a minha casa em ruínas.”» («Um ano de pontificado: “Vai Francisco e repara a minha casa em ruínas”», Jorge Almeida Fernandes, Público, 13.03.2014, p. 26).

    Lamentável, este desconhecimento da gramática, e logo num redactor principal. Então o vocativo não é isolado por vírgulas, justamente para realçar o destinatário do apelo que alguém faz? Erro repetido, para agravar, no título. Escusado é dizer que o sentido da frase passa a ser outro. «Francesco, va e ripara la mia casa, perché, come vedi, va in rovina.»

 

[Texto 4217]

Helder Guégués às 08:55 | comentar | ver comentários (2) | favorito
13
Mar 14

Léxico: «ringwoodite»

E o resto

 

 

    «Em Viagem ao Centro da Terra, o escritor francês Júlio Verne transporta o leitor para um mundo com dinossauros, homens primitivos, luz e um oceano. Na realidade, nunca ninguém viajou ao interior do planeta. Mas um diamante encontrado no Brasil fez a viagem inversa e contém um mineral até agora encontrado só em meteoritos. A equipa de investigadores que estudou este mineral, chamado ringwoodite, encontrou água na sua composição» («Descoberto mineral que confirma haver muita água no interior da Terra», Nicolau Ferreira, Público, 13.03.2014, p. 35).

      Ora vejam se o jornalista teve pejo em escrever Júlio Verne. Assim é que é. Quanto ao nome do mineral, na infografia aparece duas vezes grafado em itálico. Ninguém repara nestas coisas.

 

[Texto 4216] 

Helder Guégués às 08:53 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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