25
Mar 14

Sistemas de romanização

Sobre 周恩来 e outros

 

 

      «Nixon e Mao tinham outro interese em comum na altura: restaurar a ordem nos seus respectivos países. Chu En-lai, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Mao, aludiu a isso quando Kissinger fez a sua primeira – e altamente secreta ­– visita a Pequim em Julho de 1971. [...] Nixon visitou efectivamente a China, em Fevereiro de 1972, e estabeleceu imediatamente uma empatia, não só com Chu mas também com Mao Tsé-Tung» (A Guerra Fria, John Lewis Gaddis. Tradução de Jaime Araújo. Lisboa: Edições 70, 2007, p. 157).

      No original, está Zhou Enlai e Mao Zedong, respectivamente. Ou seja, estamos perante dois sistemas de romanização. O autor seguiu o sistema pinyin (e por isso escreve também Beijing) e o tradutor seguiu de perto o sistema Wade-Giles (e por isso também escreve Pequim). Ora, este foi o usado durante quase todo o século XX nos países de língua inglesa. Não é raro, porém, autores portugueses, mesmo no caso de grandes conhecedores das coisas da China, usarem ambos os sistemas, porque não querem destoar na forma de referir personagens históricas chinesas, mas também não pretendem deitar fora nomes com séculos de uso. E, assim, escrevem Mao Zedong, mas não deixam de usar Pequim.

 

[Texto 4272]

Helder Guégués às 23:18 | comentar | ver comentários (12) | favorito
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Sobre «porno»

Garganta funda

 

 

      «É uma exemplar história de ascensão e queda. Tentou ser actor nos palcos, filmou lúgubres pornos porque precisava de dinheiro antes de chegar ao Dr. Young de Garganta Funda, filme para o qual tinha sido contratado inicialmente como assistente de iluminação» («Morreu Harry Reems, o médico de Garganta Funda», Público, 22.03.2013, p. 36).

     O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que apenas o regista como adjectivo, garante que é invariável. Engana-se, tal como acontece em relação a «extra». Adjectivo ou substantivo, varia.

 

[Texto 4271]

Helder Guégués às 17:01 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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«Palavra estrangeira»

E agora todas as outras

 

 

    Acabei de consultar o verbete «reprise» na edição em linha do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. À frente da palavra, este aviso bem visível: Palavra estrangeira. É a primeira vez que vejo algo semelhante neste dicionário. Agora vão ter de fazer o mesmo em largas centenas, talvez milhares de outros verbetes. É o que deviam fazer, mas eu já sei que nada é levado até ao fim.

 

[Texto 4270]

Helder Guégués às 15:02 | comentar | favorito
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Tudo muito estranho

Para a comunidade anglófona

 

 

      «“Os recém-licenciados têm um programa de preceptorship. Queremos educá-los, moldá-los. Durante seis meses são acompanhados por enfermeiros experientes. Antes de se registarem na Nursing and Midwifery Council [congénere inglesa da Ordem dos Enfermeiros], trabalham como health care assistants, explica. Curiosamente, nesta primeira tarde, apenas apareceu um enfermeiro acabado de sair da universidade, todos os outros candidatos tinham anos de experiência e empregos seguros» («Procuram-se enfermeiros para o Reino Unido, mesmo sem experiência», Alexandra Campos, Público, 25.03.2014, p. 14).

      A jornalista rende-se: para ela, preceptorship e health care assistants são realidades totalmente estranhas, pelo que tem de usar os termos ingleses, ou os leitores não vão perceber.

 

[Texto 4269]

Helder Guégués às 13:07 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «armão»

Como é natural

 

 

      «El féretro del expresidente [Adolfo Suárez], colocado en un armón de artillería, encabeza el cortejo fúnebre, seguido por la familia y autoridades. El traslado a Ávila, donde será enterrado, comenzará tras el recorrido por Madrid que acaba en Cibeles» (in El País). Na versão em linha do Dicionário de Espanhol-Português da Porto Editora não está, apenas na versão em papel. Entre nós, naturalmente, armão (que veio do francês) é vocábulo pouquíssimas vezes usado. Nas palavras cruzadas e pouco mais. «Os críticos não gostaram que a controversa figura fosse tratada como um herói, com o féretro coberto de rosas vermelhas e transportado em armão militar» («Jörg Haider teve um funeral digno da princesa de Gales», Público, 19.10.2008, p. 22).

 

[Texto 4268]

Helder Guégués às 10:59 | comentar | favorito
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25
Mar 14

Joões Galambas

E a propósito

 

 

      «O manifesto dos 74 está cheio de Joões Galambas, e isso não pode ser aceite como uma simples “divergência de opinião”, como Manuel Carvalho defende. O manifesto não requer só a reestruturação da dívida — requer também a reestruturação das opiniões de dezenas de pessoas, cujas convicções económicas vão variando alegremente conforme as suas simpatias políticas. O manifesto requer a galambização da pátria. E isso, desculpem lá, eu dispenso bem» («A reestruturação das opiniões», João Miguel Tavares, Público, 25.03.2014, p. 52).

      Está certo, se bem que: «O plural de João é Joões. Etimologicamente, deveria ser Joães, porque a forma antiga era Joane, com origem remota no hebreu Iohanan, pelo grego Joánes ou Joánnes e depois pelo latim Jo(h)anne, de Jo(h)annes. Como ninguém diz Joães, o natural é dizermos Joões, porque a maior parte dos substantivos terminados em -ão fazem o plural em -ões: barracão, bofetão, botão, cordão, tampão, esfregão, etc. É, pois, asneira o que, não raro, lemos nos jornais: os Silva, os Barreto, os Almeida. A família dos Monteiro e a família dos Mafra estiveram na festa. Que ridículo! E que ignorância não saberem que os nomes de pessoas também têm plural!» (José Neves Henriques, in Ciberdúvidas, 16.02.1998).

 

[Texto 4267] 

Helder Guégués às 07:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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