30
Mar 14

Corrigir o original

Assobiar é que não

 

 

    Lembram-se de eu aqui ter perguntado que deve o tradutor fazer perante um evidente erro do autor? E indicava as alternativas: corrige, faz uma nota ou assobia para o lado. O leitor Rui Almeida mandou-me cópia das páginas 605 e 606 da revista Brotéria (n.º 5/6, de 1998, Vol. 146), em que se pode ler uma carta à direcção enviada pela tradutora Inês Madeira de Andrade a propósito de uma crítica feita naquela revista à tradução portuguesa da entrevista dada pelo cardeal Joseph Ratzinger a Peter Seewald (O Sal da Terra — O Cristianismo e a Igreja Católica no Limiar do Terceiro Milénio. Um Diálogo com Peter Seewald. Lisboa: Multinova, 1997). Quase no fim da carta, lê-se: «Na tradução portuguesa (cf. p. 91) foram ainda corrigidos lapsos que se encontravam no original alemão (exemplo: cf. original alemão, p. 125: Glaube, Hoffnung, Liebe, die Kardinalstugenden), o que não aconteceu na tradução francesa (cf. tradução francesa, p. 116: Foi, esperance, charité, les vertus cardinales).»

 

[Texto 4303]

Helder Guégués às 23:03 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Ortografia: «ateização»

Não tem, não precisa

 

 

    «A ateízação crescente da nossa língua constitui uma explicação improvável» (A Noite do Confessor, de Tomáš Halík. Tradução de Maria do Rosário Pernas. Lisboa: Paulinas Editora, 2014, p. 207). O acento agudo é para quê, pode saber-se? Escreve-se assim: ateização. Em checo não sei como é. (Mas parece que «sabe Deus» é «Bůh ví proč». Esperamos confirmação de checófono competente.)

 

[Texto 4302]

Helder Guégués às 19:23 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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O desgraçado verbo «faltar»

Do croquete e da gramática

 

 

   «Nunca me faltou coisas para dizer», parolou a jovem artista, desaçaimada e falha de gramática. Já não fiquei para os croquetes.

 

[Texto 4301]

Helder Guégués às 17:57 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Sabe Deus»

Na maioria das vezes

 

 

      O leitor Rui Almeida anda a ler a obra A Noite do Confessor, de Tomáš Halík (tradução de Maria do Rosário Pernas. Lisboa: Paulinas Editora, 2014), e quis partilhar algumas estranhezas. Assim, deparou com um capítulo intitulado «Deus sabe porquê», «todo ele em referência a essa expressão, que é repetida inúmeras vezes, enquanto hábito popular. Em todas substituí a solução da tradução por “sabe Deus” e sempre me pareceu mais natural». O capítulo começa desta maneira: «Deus sabe por que razão a frase “Deus sabe porquê” tem vindo a desaparecer lentamente do discurso quotidiano» (p. 207). Ficaria, então, assim: «Deus sabe por que razão a frase “sabe Deus” tem vindo a desaparecer lentamente do discurso quotidiano»? Não conheço a língua checa, mas podemos comparar, por exemplo, com a tradução para língua inglesa. «God knows why the phrase “God knows why” is slowly disappearing from everyday speech.» É também a mesma construção repetida. Claro que nada disto é decisivo; decisivo é saber se é assim, «sabe Deus porquê», que dizemos. Parece-me que não; parece-me que omitimos o «porquê». Outro retoque: «Sabe Deus por que razão a expressão “sabe Deus” tem vindo a desaparecer lentamente do discurso quotidiano.»

      Faz-me lembrar o título de Jean d’Ormesson Au Plaisir de Dieu, que na tradução brasileira, que tenho aqui à minha frente a aguardar tempo para a ler, de Raul de Sá Barbosa (Rio de Janeiro: Imago, 1975), ficou Ao Prazer de Deus.

 

[Texto 4300]

Helder Guégués às 17:32 | comentar | ver comentários (6) | favorito

Léxico: «desaçaimado»

Fica a sugestão

 

 

      Desaçaimado. Gosto. Podemos falar nos nossos inimigos desaçaimados, na ira ou raiva desaçaimada de alguém, em fome desaçaimada, em liberdade desaçaimada, em competição desaçaimada...

      «Torna-se monstruosa e destruidora, avassalando tudo na sua passagem dantesca. Bramindo como uma hiena desaçaimada, na enxurrada mavórtica» (Sal da Terra, Fernanda de Castro. Rio de Janeiro: Conquista, 1960, p. 165).

 

[Texto 4299]

Helder Guégués às 16:34 | comentar | favorito
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Ortografia: «maldisfarçado»

Não têm de quê

 

 

      «Na falsa solicitude daquelas pessoas, no seu maldisfarçado desdém, viu o futuro que escolhera quando estava na água. Era um futuro de lar de velhos e fê-lo chorar. Devia ter-se, simplesmente, afogado» (Correcções, Jonathan Franzen. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001, p. 421).

      Está bem. Uma das explicações para aparecer tantas vezes escrito de forma incorrecta será porque não se encontra em todos os dicionários. Tenho de o levar para lá, como levei «mal-alinhavado». Ou isso ou terei de andar a corrigi-lo o resto da vida.

 

[Texto 4298]

Helder Guégués às 14:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «dálita»

Coisas da Índia

 

 

      «Como filha de mãe solteira, Roy não estava confortável na comunidade conservadora de cristãos sírios. Sentia-se mais em casa nas chamadas castas baixas, ou dálitas, que eram mantidos à distância tanto por cristãos como por hindus de castas mais altas» («Arundhati, a renegada, Roy», Siddhartha Deb, «2»/Público, 30.03.2014, p. 13).

      Já podia estar nos dicionários, nem que fosse apenas como subentrada ou remissão de «intocável». Registei-a, em Setembro de 2006, nesta lista de asiatismos no Assim Mesmo.

      Excelente texto este de Siddhartha Deb, sobre a autora do romance O Deus das Pequenas Coisas, Arundhati Roy.

 

[Texto 4297]

Helder Guégués às 11:53 | comentar | favorito
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30
Mar 14

Aprendam

Ou altere-se a gramática

 

 

      «Em declarações à CNN, Stephen Wood, ex-analista da CIA e perito em imagens de satélite, afirmou que os satélites podem estar apenas a mostrar “algo tão simples como ondas gigantes”, que podem levar a acreditar tratarem-se de objetos sólidos» («Buscas suspensas», Fátima Mariano, Jornal de Notícias, 28.03.2014, p. 28).

   Cara Fátima Mariano: é «tratar-se de». A construção tratar-se de é impessoal, pelo que apenas se conjuga na terceira pessoa do singular.

 

[Texto 4296]

Helder Guégués às 09:42 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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