31
Mar 14

Talvez se perceba...

... mas será a palavra mais adequada?

 

 

      «Mas o preconceito da propriedade da esquerda sobre a democracia não tem qualquer razoabilidade objectiva quando se olha para além do acanhado horizonte ibérico. Na génese dos regimes demo-liberais — sobretudo no mundo de língua inglesa, de onde realmente são originários — não existe qualquer monopólio da esquerda nem da direita. A democracia emergiu nessas paragens como “obra comum de partidos rivais”— uma expressão feliz de Raymond Aron, que lamentava nem sempre isso ser entendido na sua França natal (também ela fértil em arcaísmos rivais). […] Outro contributo decisivo, certamente involuntário, foi dado pelo arcaísmo de Álvaro Cunhal — que deixou bem claro que a democracia tanto pode ter inimigos à direita como à esquerda, vá-se lá saber quais são os piores» («Sobre Adolfo Suárez e uma entrevista de Durão Barroso», João Carlos Espada, Público, 31.03.2014, p. 45).

 

[Texto 4305]

Helder Guégués às 09:14 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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31
Mar 14

Sobre «fixer»

Não é para dar ideias

 

 

      Ontem de manhã ouvi, na rádio Cadena SER, o programa A vivir que son dos días, de Javier del Pino. A conversa era sobre o trabalho dos correspondentes, com a presença de alguns, como Gervasio Sánchez, Rosa María Calaf, Marta Herrero, etc. E, a torto e a direito, usaram a palavra inglesa fixer, que é o nome por que se designa na gíria jornalística, nos países de língua inglesa, a pessoa que ajuda, normalmente a troco de dinheiro, jornalistas estrangeiros, servindo de guia, intérprete, mediador, etc. Só me admirei de nunca a ter visto ser usada cá.

 

[Texto 4304]

Helder Guégués às 09:10 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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30
Mar 14

Corrigir o original

Assobiar é que não

 

 

    Lembram-se de eu aqui ter perguntado que deve o tradutor fazer perante um evidente erro do autor? E indicava as alternativas: corrige, faz uma nota ou assobia para o lado. O leitor Rui Almeida mandou-me cópia das páginas 605 e 606 da revista Brotéria (n.º 5/6, de 1998, Vol. 146), em que se pode ler uma carta à direcção enviada pela tradutora Inês Madeira de Andrade a propósito de uma crítica feita naquela revista à tradução portuguesa da entrevista dada pelo cardeal Joseph Ratzinger a Peter Seewald (O Sal da Terra — O Cristianismo e a Igreja Católica no Limiar do Terceiro Milénio. Um Diálogo com Peter Seewald. Lisboa: Multinova, 1997). Quase no fim da carta, lê-se: «Na tradução portuguesa (cf. p. 91) foram ainda corrigidos lapsos que se encontravam no original alemão (exemplo: cf. original alemão, p. 125: Glaube, Hoffnung, Liebe, die Kardinalstugenden), o que não aconteceu na tradução francesa (cf. tradução francesa, p. 116: Foi, esperance, charité, les vertus cardinales).»

 

[Texto 4303]

Helder Guégués às 23:03 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Ortografia: «ateização»

Não tem, não precisa

 

 

    «A ateízação crescente da nossa língua constitui uma explicação improvável» (A Noite do Confessor, de Tomáš Halík. Tradução de Maria do Rosário Pernas. Lisboa: Paulinas Editora, 2014, p. 207). O acento agudo é para quê, pode saber-se? Escreve-se assim: ateização. Em checo não sei como é. (Mas parece que «sabe Deus» é «Bůh ví proč». Esperamos confirmação de checófono competente.)

 

[Texto 4302]

Helder Guégués às 19:23 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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O desgraçado verbo «faltar»

Do croquete e da gramática

 

 

   «Nunca me faltou coisas para dizer», parolou a jovem artista, desaçaimada e falha de gramática. Já não fiquei para os croquetes.

 

[Texto 4301]

Helder Guégués às 17:57 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Sabe Deus»

Na maioria das vezes

 

 

      O leitor Rui Almeida anda a ler a obra A Noite do Confessor, de Tomáš Halík (tradução de Maria do Rosário Pernas. Lisboa: Paulinas Editora, 2014), e quis partilhar algumas estranhezas. Assim, deparou com um capítulo intitulado «Deus sabe porquê», «todo ele em referência a essa expressão, que é repetida inúmeras vezes, enquanto hábito popular. Em todas substituí a solução da tradução por “sabe Deus” e sempre me pareceu mais natural». O capítulo começa desta maneira: «Deus sabe por que razão a frase “Deus sabe porquê” tem vindo a desaparecer lentamente do discurso quotidiano» (p. 207). Ficaria, então, assim: «Deus sabe por que razão a frase “sabe Deus” tem vindo a desaparecer lentamente do discurso quotidiano»? Não conheço a língua checa, mas podemos comparar, por exemplo, com a tradução para língua inglesa. «God knows why the phrase “God knows why” is slowly disappearing from everyday speech.» É também a mesma construção repetida. Claro que nada disto é decisivo; decisivo é saber se é assim, «sabe Deus porquê», que dizemos. Parece-me que não; parece-me que omitimos o «porquê». Outro retoque: «Sabe Deus por que razão a expressão “sabe Deus” tem vindo a desaparecer lentamente do discurso quotidiano.»

      Faz-me lembrar o título de Jean d’Ormesson Au Plaisir de Dieu, que na tradução brasileira, que tenho aqui à minha frente a aguardar tempo para a ler, de Raul de Sá Barbosa (Rio de Janeiro: Imago, 1975), ficou Ao Prazer de Deus.

 

[Texto 4300]

Helder Guégués às 17:32 | comentar | ver comentários (6) | favorito

Léxico: «desaçaimado»

Fica a sugestão

 

 

      Desaçaimado. Gosto. Podemos falar nos nossos inimigos desaçaimados, na ira ou raiva desaçaimada de alguém, em fome desaçaimada, em liberdade desaçaimada, em competição desaçaimada...

      «Torna-se monstruosa e destruidora, avassalando tudo na sua passagem dantesca. Bramindo como uma hiena desaçaimada, na enxurrada mavórtica» (Sal da Terra, Fernanda de Castro. Rio de Janeiro: Conquista, 1960, p. 165).

 

[Texto 4299]

Helder Guégués às 16:34 | comentar | favorito
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30
Mar 14

Ortografia: «maldisfarçado»

Não têm de quê

 

 

      «Na falsa solicitude daquelas pessoas, no seu maldisfarçado desdém, viu o futuro que escolhera quando estava na água. Era um futuro de lar de velhos e fê-lo chorar. Devia ter-se, simplesmente, afogado» (Correcções, Jonathan Franzen. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001, p. 421).

      Está bem. Uma das explicações para aparecer tantas vezes escrito de forma incorrecta será porque não se encontra em todos os dicionários. Tenho de o levar para lá, como levei «mal-alinhavado». Ou isso ou terei de andar a corrigi-lo o resto da vida.

 

[Texto 4298]

Helder Guégués às 14:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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