01
Abr 14

«Tiróide/tireóide»

Não apenas por teimosia

 

 

      Claro que pode usar a variante «tireóide», mas confesso que é a primeira vez que a vejo, revivificada e rutilante, fora dos dicionários, decerto porque não sou médico. E diga-me cá: usa-a no dia-a-dia? Bem, pode não ser a melhor opção, pois a glândula só foi descrita por Wharton em 1656, que usou o latim thyro e não thyreo. Logo, tiróide, e por várias razões: porque foi a primeira e durante muito tempo a única registada nos nossos dicionários; porque a outra forma é mera especulação etimológica; porque a raiz thyro está consagrada desde 1960 na Nomina Anatomica. E ainda por outras razões, mas estão quase a soar as doze badaladas, e eu tenho de me ir embora. Ou acaba o encanto.

 

[Texto 4317]

Helder Guégués às 23:58 | comentar | favorito

Léxico: «bolacheiro»

Um inferno particular

 

 

      Na senda das mais recentes ideias sobre o assunto, em Espanha, a fábrica das bolachas Príncipe decidiu fazê-las maiores, com menos gorduras e mais cereais. Tão grandes, na verdade, que não podem ser mergulhadas num copo de leite. Vai daí, uma consumidora, indignada, decidiu promover uma campanha no portal Change.org para que a empresa volte a fabricar as antigas bolachas. Ou isto ou, caso a empresa não o faça, pede (a quem?) que os responsáveis «ardan para siempre en el infierno de los galleteros». Quase tudo virtual, mas a verdade é que foi a Internet que nos mostrou quantos loucos há por esse mundo. Sim, também temos, quando não bolacheiros, pelo menos a palavra.

 

[Texto 4316]

Helder Guégués às 18:32 | comentar | favorito
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Sobre «controlar»

Má escolha

 

 

    Fez ontem exactos quarenta anos que Marcello Caetano recebeu, vi no Telejornal, o último «banho de multidão». Aconteceu no Estádio de Alvalade, num jogo Sporting-Benfica. Foram ouvir o historiador António Reis (1948-): «Dia 16 de Março, dá-se a célebre intentona das Caldas da Rainha, que é facilmente controlada pelas forças governamentais, mas isto cria uma ilusão junto do regime, cria a ilusão de que afinal de contas era relativamente fácil conter a situação.»

     Como é que um historiador, homem que decerto se viu mergulhado dias, semanas, meses a fio em textos do passado, cede a tal palavra, «controlada»? Mistério. Uma intentona não é «controlada» — é reprimida, é dominada, é cerceada, é refreada, é contida. É de mais. Bem podem muitos afirmar que «controlar» tem há muito carta de naturalização, mas é inegavelmente desnessário e inexpressivo.

 

[Texto 4315]

Helder Guégués às 17:42 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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01
Abr 14

Títulos de doidos II

Entre o desconcertante e o atroz

 

 

     Eurico de Barros recordou ontem outros títulos. «Já vimos nos cinemas alguns filmes com títulos portugueses entre o desconcertante e o atroz (lembram-se do recente Um Azar do Caraças, para o original Knocked Up, de Judd Apatow? ou, mais remoto, de Os Quatro Cabeleiras do Após-Calipso, para A Hard Day’s Night, de Richard Lester, com os Beatles?), embora não tenhamos chegado ao ponto do Brasil, onde O Padrinho foi O Poderoso Chefão» («Boa adaptação, título ridículo», Eurico de Barros, Diário de Notícias, 31.03.2014, p. 46).

      Inacreditável, sim. Mas o dos Beatles, visto em Portugal ainda nos anos 60 pela primeira vez, tinha ali um y onde está i: Os Quatro Cabeleiras do Após-Calypso. Veja aqui.

 

[Texto 4314] 

Helder Guégués às 00:17 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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