10
Abr 14

Tradução: «back»

Há costas e lombo e dorso

 

 

      «As costas do Senhor Bobbin estavam brilhantes de suor e a saliva formava bolhas à volta do freio; Art inclinou-se para a frente e sussurrou palavras de encorajamento» (Uma Casa de Família, Natasha Solomons. Tradução de Elsa T.  S. Vieira. Alfragide: Edições Asa II, 2013, p. 60).

      Como houve especialização de sentido também neste caso. O Senhor Bobbin é um cavalo de tiro, não um homem, pelo que o back do original deve ser traduzido por «lombo».

 

[Texto 4363]

Helder Guégués às 22:55 | comentar | favorito
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Tradução: «terraza»

Dantes, era

 

 

      Encontrou-se com uns amigos na terraza do Gaudeamus, em Madrid. Não, esperem: foi no Tapa-Tece, no Bairro de Chamartín. O tradutor entendeu que foi num «terraço» — e realmente, algumas esplanadas são em terraços. Já o escrevi algures: em traduções, e mesmo obras originais em língua portuguesa, esplanadas não é nada de muito antigo. Mas houve uma especialização de sentido, e temos de a respeitar. E, contudo, creio que sempre dissemos e escrevemos Esplanada das Mesquitas (em Jerusalém), do francês esplanade des Mosquées. Onde o Papa Francisco estará, juntamente com o grão-mufti de Jerusalém, no dia 26 de Maio.

 

[Texto 4362]

Helder Guégués às 22:15 | comentar | favorito
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«Faz-de-conta», de novo

Muito a sério

 

 

      «Depois da sujidade e da ausência de cor da cidade, senti-me como se estivesse a olhar, não para a realidade, mas para um cenário pintado em cores de faz de conta [daubed in make-believe colours]» (Uma Casa de Família, Natasha Solomons. Tradução de Elsa T.  S. Vieira. Alfragide: Edições Asa II, 2013, p. 55).

    Daubed não é meramente «pintado», é «pintado toscamente», quase borrado. Mas não é por isso que escrevo. Defendi aqui, e continuo a defender, que «faz-de-conta» ainda tem, no AOLP90, hífenes. E o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, acrescentei então, mantém-nos na versão com o Acordo Ortográfico. No entanto, e isso descobri-o agora, no verbete «make-believe» do Dicionário de Inglês-Português da mesma editora, já está «faz de conta». Tudo isto decorre, repito, do diferente entendimento do que significa «consagrado pelo uso», que é um infeliz conceito indeterminado e mais um erro dos autores do acordo.

 

[Texto 4361]

Helder Guégués às 21:41 | comentar | favorito
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«Grão-rabino/grão-rabinos»

Plural dos nomes compostos

 

 

    Acabei de ler aqui que «o Papa Francisco vai discursar, depois, no mausoléu do Yad Vashem de Jerusalém, em memória das vítimas do Holocausto, visitando, em seguida, os dois grãos-rabinos de Israel, no Centro Hechal Shlomo».

    Os elementos abreviados ou apocopados, como grão (grã) bel e recém, não têm plural, logo será os grão-rabinos. Que os dicionários registassem apenas o singular, como é habitual, não mudaria nada, mas nem isso acontece, pois poucos são os que registam «grã(o)-rabino». 

 

[Texto 4360]

Helder Guégués às 15:19 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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«Roma locuta»

Causa finita aut stimulata

 

 

      O secretário de Estado da Administração Pública, J. Leite Martins, veio ontem dizer, como se houvesse dúvidas: «Eu sou um, ahn, enfim, um membro do Governo alinhado com a posição naturalmente que o Sr. Primeiro-Ministro define, e eu sigo, sigo muito romanos, que diziam “Roma locuta, causa finita”, “Roma falou, a questão está decidida”.»

   Algo como Roma tem a última palavra. Começou por ser apenas uma expressão, entretanto de uso consagrado, para apresentar o juízo definitivo da sede romana, com origem, supõe-se, num dos sermões (§ 10 do Sermão 131, pregado em Cartago) de Santo Agostinho. Com o tempo, tornou-se axioma. Por vezes, contudo, há reviravoltas e seria preciso proclamar: Roma locuta, causa stimulata.

 

[Texto 4359]

Helder Guégués às 10:30 | comentar | favorito
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Tradução: «retraction»

Fraude científica e tradução

 

 

      «Seja como for, a seguir os acontecimentos precipitaram-se: uns dias mais tarde, o [Instituto] Riken anunciou que mais três dos autores japoneses do trabalho (entre os quais Obokata, que agora desmentiu tê-lo feito) também tinham pedido a retracção dos artigos (ver Mais três co-autores querem retirar de publicação artigos sobre técnica de criação de células estaminais, publico.pt de 14/03/2014); novas irregularidades foram detectadas (ver Novas revelações sobre método de geração de células estaminais acentuam suspeitas de fraude, publico.pt de 26/03/2014); e, por último, o Riken acusou formalmente Obokata de fraude científica, mas sem se pronunciar sobre a existência ou não das células STAP (ver Comité acusa cientista japonesa de fraude em pesquisa sobre células estaminais, publico.pt de 01/04/2014)» («Cientista acusada de fraude reafirma em público validade do seu trabalho», Ana Gerschenfeld, Público, 10.04.2014, p. 25).

      É o que se lê no Wall Street Journal. «Dr. Obokata rejects a retraction of her paper because it would be tantamount to admitting the conclusions were wrong.» Retration tanto se pode traduzir por «retracção» como por «retractação». De facto, há uma retractação, o autor (ou autores, pois há artigos assinados por dezenas e mesmo centenas de investigadores) retracta-se, desdiz-se do que afirmou antes; como há uma retracção (embora ser referido, em português, por este nome, colado ao inglês, possa constituir um problema), ou seja, o artigo é retraído, retirado. Tendo em conta a declaração que é feita, inclino-me mais para a primeira hipótese: é uma retractação.

 

[Texto 4358]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | favorito
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Léxico: «passionário»

Paixão, martírio

 

 

      «Os passionários eram livros litúrgicos que continham a música para os textos da Paixão de Cristo, que se cantavam na Semana Santa. A BNP possui alguns exemplares valiosos, tanto impressos como manuscritos, que podem ser vistos na mostra» («Paixões quinhentistas na Biblioteca Nacional», Público, 10.04.2014, p. 28).

      É definição, porventura, melhor do que a de alguns dicionários. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, passionário (ou passional) é o «livro que descreve a paixão de Cristo segundo os Evangelistas». Para Morais, era o «livro que contém os quatro Evangelhos da Paixão de Jesus Cristo que se cantam na Semana Santa». Este é o atributo mais distintivo do passionário, ser lido ou cantado na Semana Santa. O dicionário da Real Academia Espanhola regista: «Libro de canto por donde se canta la Pasión en Semana Santa.» E no Merriam-Webster, passional é «a book about the sufferings of saints and martyrs, for reading on their feast days».

 

[Texto 4357] 

Helder Guégués às 09:03 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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10
Abr 14

Tradução: «marearse»

Inadmissível

 

 

      Ninguém fica a velar por que a velha senhora «no se maree» quando se levanta da cama, onde está em convalescença. «Não desmaie», verteu o tradutor. Como a senhora, mareado fico eu quando vejo tradutores que mal conhecem a língua de que traduzem não consultarem um dicionário. Será preciso pensar muito para ver no marear (aqui, pronominal, marearse) castelhano e no nosso o mar e o que lhe está associado, o enjoo, as vertigens, a indisposição?

 

[Texto 4356]

Helder Guégués às 00:03 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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