11
Abr 14

Tradução: «humph»

Continuemos a ouvir

 

 

      «Reprimi uma risada; nunca tinha ouvido ninguém exclamar “humph!” na vida real. Era uma palavra que só lera em livros de histórias enquanto tentava melhorar o meu inglês» (Uma Casa de Família, Natasha Solomons. Tradução de Elsa T.  S. Vieira. Alfragide: Edições Asa II, 2013, p. 77).

      «Used to express slightly scornful doubt or dissatisfaction», sim, mas em inglês. Este, a par de outros mais graves, é um dos aspectos mais descurados nas traduções, e, já o tenho afirmado, nos dicionários. O humph inglês tem correspondência no nosso hum proferido de certa maneira — num tom ligeiramente desdenhoso. Decerto que não há aí ninguém incapaz de o perceber e usar. Subsistiria, bem vejo, um problema: a personagem afirma que só lera a palavra em livros de histórias, o que não seria, na tradução, verosímil com a nossa interjeição «hum». Ora, em traduções feitas no Brasil, já vi várias vezes aquele humph transformar-se em hunf. É uma solução, que pode, até, vir a ter consagração lexicográfica, pois não há um catálogo fechado de interjeições.

 

[Texto 4369]

Helder Guégués às 21:33 | comentar | favorito

«Haveriam de», outra vez

Ler alto faz bem

 

 

       «É a vida deles, não havia de ser a melhor!», escreveu o autor, numa obra de não ficção, sem pretensões. Se formos para traduções, já é pior: «Tinham marcas irregulares da serra na parte lateral e nunca tinham sido lixadas – porque haveriam de se dar ao trabalho de alisar as vigas no sótão das criadas?» (Uma Casa de Família, Natasha Solomons. Tradução de Elsa T.  S. Vieira. Alfragide: Edições Asa II, 2013, p. 67). Em certo sentido, é mais grave do que as «costas» do cavalo. É também da falta de ouvido.

 

[Texto 4368]

Helder Guégués às 20:17 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Perdido na tradução

Nunca e jamais

 

 

      «A imprensa indiana escreveu que o político nacionalista nunca chegou a consumar o casamento[,] mas o irmão de [Narendra] Modi escreveu que o casamento jamais chegou a ser consumado» («Modi, “celibatário” favorito na Índia, reconhece que afinal é casado», Diário de Notícias, 11.04.2014, p. 26).

   Não percebo a adversativa — a afirmação é a mesma! Na página da AFP, lê-se isto: «La presse indienne a écrit que le mariage n’avait jamais été consommé.» Confere. E sobre o irmão: «Le frère aîné du chef du BJP a confirmé que Modi avait été marié à 17 ans par leurs parents.» O artigo não foi relido, e muito menos revisto.

 

[Texto 4367]

Helder Guégués às 19:17 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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S&M só em inglês?

Não pode ser

 

 

      «Com as suas imagens explícitas de pénis e punhos, chicotes e leather, o fotógrafo americano Robert Mapplethorpe (1946-1989) foi um pioneiro na aproximação entre a pornografia e o sadomasoquismo e a arte. A ousadia chocou a América nos moralistas anos 80 da era Reagan – ao ponto de a Corcoran Gallery of Art, em Washington, ter cancelado uma retrospectiva da sua obra em 1989, logo após a sua morte, depois dos protestos do Congresso» («Robert Mapplethorpe: S&M no Grand Palais», Kathleen Gomes, «Ípsilon»/Público, 11.04.2014, p. 3).

      Se eu, português, for a esta retrospectiva (a maior de sempre, com 263 obras) de Mapplethorpe no Grand Palais, em Paris, já sei que não vou encontrar leather, cuero, cuir, pelle ou Leder, mas pele, couro, cabedal. O que remete, no sadomasoquismo, para o universo da caça, pela alusão à dor, à dominação, mesmo à morte. Todas elas realidades também exprimíveis em português.

 

[Texto 4366] 

Helder Guégués às 11:58 | comentar | favorito
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«Véspera/vésperas»

Não é a única

 

 

      «Na véspera de eleições para o “parlamento” europeu, seria de esperar que fizesse um esforço. Mas não faz. Não a impressiona o espectáculo de carência (ou falência) da ordem tradicional e atribui as misérias de hoje a entidades tão etéreas como a “colonização” do socialismo pelos “neocapitalistas”. Mesmo admitindo esse fenómeno estranho convinha explicar o que o provocou e permitiu, para além [sic] do acaso e das “traições” de Blair e malfeitores do género» («Onde pára a esquerda?», Vasco Pulido Valente, Público, 11.04.2014, p. 52).

      As eleições europeias realizam-se no fim de Maio, por isso, não é na véspera, mas nas vésperas. Temos mais exemplos de palavras com um sentido no singular e outro no plural. Por coincidência, na página 31 desta edição do Público, pode ler-se: «Em vésperas de eleições as jornalistas Joana Bourgard e Maria João Guimarães fazem um interrail para conhecer os europeus». Frase esta que também suscita dúvidas. Na página da CP, a grafia usada é InterRail, o que é absurdo; no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora optou-se, e creio que bem, por inter-rail, embora dêem como étimo o inglês Inter-Rail®, grafia que não confirmo.

 

[Texto 4365] 

Helder Guégués às 09:54 | comentar | ver comentários (2) | favorito
11
Abr 14

«Desprezível/desprezável», mais uma vez

Assim, e sem aprofundar mais

 

 

      «Por outro lado, o oseltamivir tem efeitos secundários que não são desprezíveis — náuseas, vómitos, dores de cabeça, problemas renais e também psiquiátricos. Ben Goldacre, investigador e divulgador de ciência que tem uma coluna no jornal The Guardian chamada Bad Science (má ciência), traduz percentagens para números absolutos para mostrar o quão frequentes serão esses efeitos secundários: “Se um milhão de pessoas tomar Tamiflu numa pandemia, 45 mil vão vomitar, 31 mil vão ter dores de cabeça e 11 mil vão sofrer efeitos psiquiátricos. Mas isto é só para um milhão de pessoas. Fizemos stocks para 80% da população. São muitos vómitos.”» («Tomar Tamiflu pode reduzir-lhe a gripe em apenas meio dia», Clara Barata, Público, 11.04.2014, p. 25).

     Pois não, Clara Barata, os efeitos secundários não são desprezíveis — são desprezáveis. Não querem aprender (ver aqui). E o título é equívoco e, por isso, errado, pois a ideia com que o leitor fica é logo infirmada na primeira frase do artigo.

 

[Texto 4364]

Helder Guégués às 09:10 | comentar | favorito
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