12
Abr 14

Ortografia: «bem-nascido»

Foi, já não é uma tentação

 

 

  «Os bem nascidos contradizem as outras pessoas. Os sensatos contradizem-se a si mesmos» (O Livro das Tentações, Oscar Wilde. Tradução de A. César Rodrigues. Almargem do Bispo: Coisas de Ler, 2008, p. 111). É o último exemplo que darei: não quero ficar completamente desmoralizado esta noite. Quanto a pontuação, ortografia e gramática, já vi sobejamente que a obra não se recomenda. E pensar que até nos jornais têm, de quando em quando, claro, mais cuidado... «Uma vez que até os pseudónimos gozam de protecção legal, também os bem-nascidos devem poder impedir que lhes usurpem os seus títulos ou os usem sem o seu consentimento, argumentam os juízes» («Privilégios aristocráticos condenam vinho de Carcavelos a mudar de nome», Ana Henriques, Público, 9.04.2014, p. 14).

 

[Texto 4377]

Helder Guégués às 21:09 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Conversa com fantasmas

Etc.

 

 

      «É muito difícil manter-nos despertos, especialmente numa igreja» (O Livro das Tentações, Oscar Wilde. Tradução de A. César Rodrigues. Almargem do Bispo: Coisas de Ler, 2008, p. 125). É Virgínia, do Fantasma de Canterville, a falar e a dar intrepidamente pontapés na gramática: «It is very difficult sometimes to keep awake, especially at church, but there is no difficult at all about sleeping.» Bem, se eu falasse com um fantasma, também não posso assegurar que me lembraria do infinitivo pessoal, só que este parece um oaristo. Mas com uma volta na frase, já estaria bem: «O que é difícil é, às vezes, não adormecer, etc.» O que é preciso é não ter medo de estudar um pouco e pensar muito.

 

[Texto 4376]

Helder Guégués às 20:47 | comentar | favorito
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Particípio passado com pronome pessoal oblíquo

Só Filinto, mas não é elogio

 

 

      «És jovem e não terias má sorte, tivessem Deus ou a tua mãe dado-te outro rosto» (O Livro das Tentações, Oscar Wilde. Tradução de A. César Rodrigues. Almargem do Bispo: Coisas de Ler, 2008, p. 11). É Peter, de Vera ou os Nihilistas, que o diz: «You’re young, and wouldn’t be ill-favoured either, had God or thy mother given thee another face.»

   Mas atentem na frase: particípio passado com pronome pessoal oblíquo? Só os grandes, como o áspero e arrevesado Filinto, nos piores dias, conseguem tal. Repugna ao ouvido e devia repugnar à pena.

 

[Texto 4375]

Helder Guégués às 18:50 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «neomedieval»

Amplo e ecléctico

 

 

      «A capela [de D. Maria Pia, no Palácio da Ajuda] é uma “caixa de madeira”, neomedieval, assinada pelo arquiteto modernista Miguel Ventura Terra, o mesmo que converteu o antigo convento de São Bento em Parlamento, à época (por volta de 1897) uma [sic] recém-licenciado arquiteto, bolseiro da Escola de Beaux-Arts de Paris, França, de onde trouxe este novo gosto, que já prenuncia o Arts & Crafts britânicos [sic], como nota José Alberto Ribeiro, apontando as ferragens das portas» («Capela de D. Maria Pia abre ao público pela primeira vez», Lina Santos, Diário de Notícias, 11.04.2014, p. 46).

      O neomedieval implica a recuperação do espírito medieval; no caso da arquitectura e das artes, é suficientemente amplo para abranger várias tendências, com expressão desde o século XVIII até ao século XX. Não encontro o vocábulo em nenhum dicionário geral da língua. Infelizmente, e por isso o vejo por vezes grafado de forma incorrecta, com hífen.

 

[Texto 4374]

Helder Guégués às 15:24 | comentar | favorito
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Sobre «assumir»

RIP

 

 

      «Quando [Sue Townsend] começou a trabalhar no livro [O Diário Secreto de Adrian Mole aos 13 anos e ¾] que iria mudar radicalmente a sua vida, estava já a meio da casa dos 30. Mas vinha treinando a mão desde o final dos anos 70, compondo algumas peças de teatro. E foi justamente o que
 o diário do adolescente Adrian começou por ser: uma peça 
de teatro. O actor Nigel Bennet leu, gostou e enviou o texto
 para a BBC, cujo responsável
 pelo departamento de teatro radiofónico, John Tydeman, decidiu pô-lo no ar. O êxito foi 
tão grande que a BBC criou uma série em vários episódios, que as pessoas ficavam a ouvir no carro, ao princípio da manhã, antes de irem trabalhar. Ficou célebre na imprensa da época o caso de um juiz que assumiu que se atrasara para a audiência porque ficara a ouvir o final de um episódio» («Sue Townsend (1946-2014). A autora que se pôs na pele de um adolescente», Luís Miguel Queirós, Público, 12.04.2014, p. 24).

   Ainda se se tratasse de tradução, desculpava-se um pouco; mas não. A própria autora contou o episódio: «It became so popular that there were reports of people staying in their cars to listen before going into work, including a High Court judge who was late for court because he’d been sitting in the car park catching the end of the episode.» Nesta acepção, é anglicismo. O juiz reconheceu, admitiu, não assumiu.

 

[Texto 4373]

Helder Guégués às 13:10 | comentar | favorito
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Francês, para variar

A inevitável cor local

 

 

      «Há aqueles que sonham com a chegada da Paris-Roubaix e há aqueles para quem isso é motivo de pesadelo. Em qualquer dos casos, o “Inferno do Norte” não deixa ninguém indiferente. A histórica “clássica” do ciclismo mundial vai amanhã para a estrada (12h15, Eurosport) e o pavé voltará a ditar a sua lei. Nesta 112.ª edição, a Paris-Roubaix será uma espécie de aperitivo para o que se verá em Julho, durante a Volta à França: o empedrado regressa à Grande Boucle, com a inclusão de nove troços na quinta etapa» («Ninguém fica indiferente ao “Inferno do Norte”», Tiago Pimentel, Público, 12.04.2014, p. 42).

   Todas as oportunidades são boas, na boa imprensa portuguesa, para entressachar uma palavra ou expressão estrangeira.

 

[Texto 4372] 

Helder Guégués às 12:43 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Tradução: «shallow»

À beira-mar

 

 

      «Tinha tirado a gravata e arregaçado as mangas da camisa e estava descalço na água rasa [shallows], com as calças ensopadas até ao joelho» (Uma Casa de Família, Natasha Solomons. Tradução de Elsa T.  S. Vieira. Alfragide: Edições Asa II, 2013, pp. 127-28).

   Nem sempre é traduzido desta maneira, mas convenhamos que, no contexto, é decerto a melhor tradução de shallow. E talvez no plural, águas rasas, ainda ficasse melhor. Devia ser esta a tradução do vocábulo nos dicionários bilingues.

 

[Texto 4371]

Helder Guégués às 11:03 | comentar | favorito
12
Abr 14

Tradução: «elderflower»

Diferente da flor-de-lis

 

 

      «Estiquei a mão para a prateleira de cima e servi-me do creme de flor-de-sabugueiro [elderflower syllabub] que sobrara da sobremesa dos cavalheiros» (Uma Casa de Família, Natasha Solomons. Tradução de Elsa T.  S. Vieira. Alfragide: Edições Asa II, 2013, p. 91).

   Como a tradução segue a nova grafia, alguém – tradutora, revisor, ambos – pensou que precisava de hífenes, mas não, nem antes nem depois do Acordo Ortográfico de 1990. Há-se ser má interpretação, mais uma, da regra do uso do hífen nas palavras compostas que designam espécies botânicas e zoológicas. Há sempre, porém, quem saiba: na página 259 da obra As Voluptuosas Receitas de Miss Dahl, de Sophie Dahl (Tradução de Maria do Carmo Romão. Alfragide: Casa das Letras, 2011), encontramos uma gelatina de flor de sabugueiro, elderflower jelly no original.

 

[Texto 4370]

Helder Guégués às 09:39 | comentar | favorito
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