13
Abr 14

Sobre «paraíso fiscal»

Paraíso ou refúgio

 

 

      «Porque lhes chamamos “paraísos fiscais”? O nome é muito enganador. Será uma deturpação da palavra inglesa “haven” (refúgio) para “heaven” (uma das formas de dizer paraíso em inglês)? Terá que ver com as qualidades turísticas de alguns dos offshores mais famosos, como as Bahamas?» (Excerto da obra Jogos de Poder, de Paulo Pena [Lisboa: A Esfera dos Livros, 2014], in «2»/Público, 13.04.2014, p. 32).

     Fica a suspeita ou a dúvida (e a certeza de que em português escrevemos Baamas).

 

[Texto 4386]

Helder Guégués às 21:42 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Sadus e castas

Sadus e azeiteiros

 

 

    «Metódico, organizado, disciplinado. Assim é Narendra Modi, uma pessoa com uma só dimensão porque, como ele mesmo já explicou, não se desdobra numa vida privada e numa vida pública. Quando era uma criança pobre em Vadnagar (Gujarat), queria ser sahdu, o monge que faz o caminho da penitência e da austeridade até à iluminação. Não foi, mas é como se fosse. […] Narendra Damodardas Modi nasceu na Índia das castas e a sua, a ghanci, estava nos escalões mais baixos» («O  vendedor de chá que vai ser primeiro-ministro da Índia», Ana Gomes Ferreira, «2»/Público, 13.04.2014, p. 10).

    Sadu – o asceta, sábio mendicante na Índia – já esteve em alguns dos nossos dicionários, mas entretanto alguém decidiu, e mal como se vê, que não nos fazia falta. A grafia da casta é, em rigor, ghanchi, como se lê em várias obras sobre a Índia Portuguesa. Era a comunidade dos azeiteiros (oil pressers, para os anglófonos), composta por hindus e por muçulmanos.

 

[Texto 4385]

Helder Guégués às 19:39 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Termos relativos à viticultura

Sempre os dicionários

 

 

      Ainda sobre a vindima. Arreosta, cava, empa, redra, ampara, esfolha, desavinho, poda... Nem todos estes termos relativos a operações de viticultura estão dicionarizados (já o tínhamos visto quanto à «arreosta»), o que tem, como é óbvio, consequências negativas. Os nossos dicionários têm ainda de melhorar muito, e não me refiro somente à inclusão de vocábulos, mas à própria redacção das definições, quantas vezes incompletas, imprecisas, erradas. E a falta de abonações tira-lhes metade da valia.

 

 

[Texto 4384]

Helder Guégués às 17:45 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Evitar repetições

Bastava reler

 

 

   «O Labour faz frente unida com os conservadores e os liberais-democratas na oposição à independência da Escócia (a campanha pelo “não” é liderada pelo ex-ministro das Finanças Alistair Darling). Mas as sondagens indicam que, ao contrário dos tories e dos lib-dem, o grosso dos eleitores da esquerda ainda não sabe como vai votar — os indecisos rondam ainda 15% dos votantes, decisivos para decidir o desfecho do referendo» («A subir nas sondagens, independentistas escoceses cortejam voto dos trabalhistas», Ana Fonseca Pereira, Público, 13.04.2014, p. 29).

   Falta de releitura. Duas alternativas: «decisivos para determinar» ou «determinantes para decidir». Além de absolutamente desnecessárias, estas repetições soam mal, por tão próximas. Em jornais, e mesmo em livros, ainda se vão vendo repetições semelhantes, como «assegurar a segurança», e outras. O que é mau é partir-se do princípio de que é uma escrita efémera, e por isso não merece nenhum esforço.

 

 

[Texto 4383] 

Helder Guégués às 17:08 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Tradução: «push-up bra»

De Dita Von Teese e da tradução

 

 

    Numa tradução do inglês, em que se fala de vestuário feminino, o tradutor (tradutora, por acaso) deixou push-up [bra]. Deve ter-se firmado na autoridade do Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora, que não lhe encontrou equivalente português. Push-up é... push-up. Podemos supor razoavelmente que para padded bra a tradutora também não encontraria equivalente. Mas nós não dizemos sutiã meia-taça? Ah, sim, esta é outra batalha ganha: nas traduções, já aparece mais «sutiã» do que soutien.

 

[Texto 4382]

Helder Guégués às 13:28 | comentar | favorito
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Sobre «sabugueiro»

A que poucos resistiam

 

 

      Sobre o sabugueiro, pode ler-se no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora que é a «planta lenhosa, da família das Loniceráceas, espontânea em Portugal, e também cultivada, de cujos caules se aproveita a abundante medula que se utiliza em técnica histológica para envolver as peças de que se pretendem fazer cortes, e em medicina». Muito bem, mas omite-se o seu uso mais relevante em Portugal: o das bagas, para alterar facilmente a cor dos vinhos ao gosto do cliente, e não seriam apenas os marteleiros que o faziam. Não por acaso foram proibidos pela poderosa Companhia Geral de Agricultura das Vinhas do Alto Douro. Agora, ao que parece, são um bom negócio.

 

[Texto 4381]

Helder Guégués às 11:52 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Sobre «cabralismo»

Tudo minúsculo

 

 

      Apareceu-me agora mesmo um «Cabralismo» aqui num texto. Nada disso: os nomes de movimentos estéticos, filosóficos, políticos, doutrinários grafam-se com minúscula inicial: classicismo, comunismo, fascismo, marxismo, nazismo, romantismo, marcelismo, cabralismo...

 

[Texto 4380]

Helder Guégués às 11:51 | comentar | ver comentários (1) | favorito

«Aut viam inveniam aut faciam»

O mural e o latim

 

 

      «À direita, o “pós-25 de Abril” é simbolizado por um coração e duas G3, que representam “a necessidade de sentirmos e agirmos”. Para este grafitter [Miguel Januário] de 32 anos, Portugal vive hoje um momento semelhante ao que vivia em 1974, perante a necessidade de “ruptura com o sistema” e de “encontrar uma saída, uma solução que venha de dentro”. Junto ao coração, numa faixa escrita em latim, lê-se: “Ou encontramos uma via, ou fazemos uma”» («Graffiters criam mural dedicado à revolução de Abril», Marisa Soares, Público, 13.04.2014, p. 33. Ver este vídeo).

      É curioso como se continua a recorrer ao latim para transmitir certas ideias, e logo num país como o nosso, onde o estudo desta língua, origem de quase toda a nossa, foi completamente desprezado. Está lá mais latim, mas essa frase concretamente diz: «Aut viam inveniam aut faciam.» É uma frase atribuída ao general cartaginês Aníbal, em resposta à afirmação dos seus generais de que era impossível atravessar os Alpes e o Ródano de elefante. E fizeram o seu caminho. Mais tarde, Roma já estava em pânico: Hannibal ante portas!

 

[Texto 4379]

Helder Guégués às 09:42 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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13
Abr 14

Léxico: «chinês»

Hoje vão saber

 

 

     «Junte o bacalhau, deixe suar por momentos e refresque com vinho branco. Adicione o louro, a salsa, a pimenta preta em grão e a água. Deixe ferver em lume brando durante vinte e cinco minutos. Passe pelo passador chinês e reserve» (As Minhas Receitas de Bacalhau, Vítor Sobral. Alfragide: Casa das Letras, 2012, p. 71).

    Quase sempre chamado apenas chinês, que é um passador de forma cónica, geralmente de aço inox, com grande superfície de coação (ou côa, para saberem que o termo existe). Os dicionaristas não sabem que existe.

 

[Texto 4378]

Helder Guégués às 09:40 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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