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Abr 14

Sobre «hecatômbico»

Não de Mao, mas meus

 

 

   O autor escreve que as imagens do incêndio eram «hecatômbicas». Cá está: não existe, mas podia existir. Nos meus caderninhos vermelhos, uma espécie de notas de laboratório, anotei da leitura de uma Brotéria (a melhor revista portuguesa de todos os tempos) precisamente a expressão «efeitos hecatômbicos» (no caso, de acções terroristas).

 

[Texto 4403]

Helder Guégués às 22:12 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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A importância de ser em inglês

Imposições da academia

 

 

   Palavras levam sempre a palavras. Ontem, uma obra mencionava um sacerdote a quem tinha sido imposta a pena de desnaturalização. Hoje, noutra obra, o fenómeno dos «expatriados», jovens profissionais altamente qualificados que trabalham para empresas multinacionais e que normalmente são deslocados em fases iniciais das suas carreiras. Com aspas ou sem aspas, mas alguns autores não ficam satisfeitos, têm de usar gíria anglo-saxónica, ou lá se vai o prestígio tão duramente granjeado, e são então os jovens expats. «A person taking up residency in another country.»

 

[Texto 4402]

Helder Guégués às 19:44 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Instantâneos da vida real I

Um dia, não saberá é português

 

 

      Na Ikea. Três cachorros-quentes seguidos. Na mesa ao lado, um casal com um miúdo com cerca de 7 anos, que tenta decifrar a inscrição na moeda para a máquina de gelados. «Papá, está aqui escrito “fode”. O que quer dizer?» «Fala baixo! “Food”, é “food” que aí está escrito. Quer dizer “comida” em inglês.»

 

[Texto 4401]

Helder Guégués às 19:04 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Alvarelhão» e «bastardo»

Com os copos

 

 

      «Durante o jantar, misturando copiosamente o verde e o alvarelhão, Gonçalo não cessou de ruminar a ousadia do Casco. Pela primeira vez, na história de Santa Ireneia, um lavrador daquelas aldeias, crescidas à sombra da Casa ilustre, por tantos séculos senhora em monte e vale, ultrajava um Ramires!» (A Ilustre Casa de Ramires, Eça de Queiroz. Porto: Lello & Irmãos, «Colecção Obras de Eça de Queiroz», 1912, p. 168).

  Em edições mais recentes, «alvarelhão» é grafado com maiúscula inicial. Não, pior do que isso: em edições modernas até escrevem «Alvaralhão»! Pobres livros, desgraçados leitores. Entretanto, porque no Dicionário da Língua Portuguesa só figurava como nome de casta (e o mesmo sucedia com «bastardo»), sugeri e aceitaram acrescentar a acepção que designa o próprio vinho. Assim está melhor.

 

[Texto 4400] 

Helder Guégués às 18:58 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Hangry», uma amálgama

Boa desculpa

 

 

    «“Descobrimos que o facto de uma pessoa estar irritada por causa da fome pode afectar negativamente o seu comportamento, mesmo nas relações mais íntimas”, diz o co-autor Brad Bushman, da Universidade Estadual de Ohio, em comunicado da sua universidade. E faz notar que até existe uma palavra, em calão norte-americano — hangry —, que é precisamente uma combinação de angry (“zangado”) e hungry (“com fome”). “Toda a gente sabe que, quando temos fome, ficamos irritáveis.”» («Baixos níveis de glucose podem ser uma causa de violência doméstica», Ana Gerschenfeld, Público, 15.04.2014, p. 27).

 

[Texto 4399]

Helder Guégués às 11:20 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Sobre «formidável»

Isso é formidável, Fátima

 

 

      No Prós e Contras de ontem, sobre a memória, depois da intervenção de Inês Meneses, que falou das suas memórias afectivas, visuais, olfactivas, de palavras (de um bom vinho, o pai dizia sempre que era «formidável» e «valente»), Fátima Campos Ferreira, num daqueles comentários intempestivos que a caracterizam, afirmou que ninguém diz de um vinho que é formidável. A sério? É porque se esqueceu ou nunca soube que a palavra tem dois sentidos. Está na língua do dia-a-dia. Um almoço formidável, um vinho formidável, um bacalhau formidável, tudo pode ser formidável. Num velho número da Revista de Portugal, ainda se afirma que é adjectivo «usado como termo de calão fino, não no sentido próprio, mas a significar “admirável, belo, excelente, óptimo, etc.” Uma bela fita de cinema diz-se, em termos de calão fino, que é... formidável; uma rapariga bonita, formosa e elegante é... formidável; um serviço de chá de loiça chinesa excelente é... formidável; uma bailarina exímia, donairosa, elegante, é... formidável».

 

[Texto 4398] 

Helder Guégués às 10:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Stencil, site, graffito»...

Era só continuarem

 

 

      «Há mais Banksy nas ruas. A imagem de um novo stencil foi colocada no site do artista de rua e assim é oficial: a pintura de dois amantes que se abraçam, enquanto olham para os telemóveis é de Banksy. Já lhe chamam Mobile Lovers. O graffito mostra um par que, ao mesmo tempo que se abraça, num gesto de carinho, olha para o ecrã dos telemóveis, um nas costas do outro. Na pintura escura, a luz que ilumina as caras do homem e da mulher e que é o único ponto de luz do graffito vem dos ecrãs dos telemóveis» («Mobile Lovers é o novo graffito de Banksy», Catarina Moura, Público, 15.04.2014, p. 30).

      Stencil, site, graffito... Na verdade, nem sempre eles escrevem assim, mas não há ninguém a velar. «Depois de, na terça-feira, a estátua do Marquês de Pombal ter “acordado” com um grafito com a frase “Reservado SLB”, assinada pela claque do clube benfiquista No Name Boys e Casal Ventoso, António Costa apelou para que o incidente não se repita» («António Costa apela ao civismo dos adeptos do Benfica», Público, 2.05.2013, p. 41). «É este percurso com cheiro a “spray” que lhe damos conta na edição da Fugas de hoje (e a estêncil, já agora, uma palavra que, confesso, desconhecia que já estava aportuguesada)» («A nova face do East End», Sandra Silva Costa, «Fugas»/Público, 22.08.2009, p. 3).

 

[Texto 4397] 

Helder Guégués às 08:43 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Lobista» e «lóbi»

Não custava nada

 

 

   «A verdade é que há algo que diferencia Relvas de todos os outros lobistas profissionais: ele não tem qualquer pudor em assumir o que faz. Transita do público para o privado, do partido para as empresas, do ministério para os lóbis com a leveza de um colibri e tão eticamente despreocupado que se está nas tintas para que o mundo inteiro o saiba. Não admira que eu salive quando toca a campainha: Miguel Relvas continua um artista inigualável» («Eternamente Relvas», João Miguel Tavares, Público, 15.04.2014, p. 48).

   Só é pena que os jornalistas escrevam lobbyista, como vimos e lamentámos aqui, e lobby, e ninguém faça nada.

 

[Texto 4396] 

Helder Guégués às 08:19 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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15
Abr 14

Voltemos ao básico, e depressa

Deixemo-nos de ilusões

 

 

    Ando aqui a discutir minudências, mas os falantes continuam a errar em aspectos básicos. Por exemplo, confundir rectificar com ratificar, como acabei de ver. «Os acordos entre a Santa Sé e Cabo Verde, que reconhecem à Igreja Católica estatuto jurídico, foram rectificados no dia 3 de Abril passado no Vaticano.» Rectificar significa corrigir, emendar; ratificar, por sua vez, significa validar, confirmar, comprovar algo que foi proposto. Erro grave, e dado por alguém como o leitor, pelo menos se o leitor for jornalista. A frase imediatamente a seguir ainda tem um erro mais grave, e, no entanto, escaparia talvez à maioria dos olhos: «Na ocasião, o Papa Francisco recebeu o embaixador de Cabo Verde, José Maria Pereira Neves.» Pois é, mas José Maria Pereira Neves é o primeiro-ministro de Cabo Verde; o embaixador de Cabo Verde junto da Santa Sé chama-se Antero Veiga (que também é ministro do Ambiente, Habitação e Ordenamento do Território).

 

[Texto 4395]

Helder Guégués às 07:46 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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