16
Abr 14

Nasceu outra: «gestar»

Some-te daqui

 

 

  «A política orçamental traduz a existência de diferentes fórmulas de gestar e gastar receita.» Já a tinha visto por aí, mas fingi que estava a olhar para o lado. Agora, já não posso fingir. Até já chegou a alguns dicionários. Não encontramos menos de seis sinónimos decentes e correntes, mas pelo menos em relatórios vai vingar.

 

[Texto 4413]

Helder Guégués às 21:28 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Instantâneos da vida real II

Como falam as crianças

 

 

     Quando acabei de executar, com muito esforço, a Piano Piece for Terry Riley #1, de La Monte Young, aproximou-se a minha filha. «Papá, os videntes são uma fraude?» Tive, como compreendem, de me assegurar que ouvira bem. Espero que não tarde muito a escrever um romance.

 

[Texto 4412]

Helder Guégués às 17:39 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Tradução: «furniture storehouse»

Ficamos com ela

 

 

      Antes de ir viver para o estrangeiro, pôs todo o recheio do apartamento num furniture storehouse. O tradutor verteu para «guarda-móveis». O problema é que o termo – que designa o estabelecimento onde se depositam móveis mediante pagamento – só se usa no Brasil. Outro problema, talvez maior, é nós termos uma designação equívoca para o mesmo: armazém de móveis. Os Franceses têm um termo semelhante, garde-meuble(s), tal como os Espanhóis têm guardamuebles. Parece que a escolha está feita. Por acaso temos um arcaísmo, reposte, que era a casa para guardar móveis, e que podia servir, mas mais expressivo do que «guarda-móveis» parece-me impossível.

 

[Texto 4411]

Helder Guégués às 16:42 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Tradução: «NYC Mounted Police»

É como fazemos

 

 

   O tradutor verteu para «guarda montada de Nova Iorque», mas habitualmente falamos na Polícia Montada de Nova Iorque. Tal como em castelhano se diz Policía Montada de Nueva York e em francês police montée de New York. «Duas dezenas e meia de cavalos da polícia montada de Manhattan, Nova Iorque, vivem dias difíceis: a câmara decidiu que têm de sair do estábulo onde moram, relativamente próximo de Times Square e do Empire State Building, para que ali possa ser feito um parque verde. Os agentes habituados a patrulhar as ruas do alto dos equídeos estão inconsoláveis, até porque o outro estábulo que as autoridades têm na ilha se encontra cheio. O comandante da polícia montada explica que nada há de anacrónico neste tipo de patrulhamento: 2,7 metros acima do chão, os agentes vêem o que se está a passar nas ruas melhor do que se estivessem apeados, ao mesmo tempo que contribuem para a boa imagem da polícia de Nova Iorque. Quando foi criada, em 1871, a polícia montada da cidade contava com 400 cavalos, hoje reduzidos a 67» («Cavalos da polícia expulsos de Manhattan», Público, 10.04.2006, p. 50).

 

[Texto 4410]

Helder Guégués às 15:09 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Tradução: «dog unit»

Não mudar por mudar

 

 

   O tradutor verteu por «brigada cinófila», que não é a forma como habitualmente dizemos. E não vejo motivos para mudarmos. «Cinófilo», que significa somente «amigo dos animais», é termo sem virtualidades de expansão semântica, parece-me. Curiosamente, em França diz-se brigade cynophile, embora esta língua tenha o vocábulo cynotechnique. Bem, como diz a outra, problema deles. Os Espanhóis não complicam, e por isso têm as unidades de guías caninos.

    «O Sol mal começara a levantar-se. Eram cerca de 6h30. Para garantir total ausência de vida humana naquela espécie de encruzilhada de consumidores e consumidores-traficantes que se abastecem de heroína, cocaína e haxixe no PT, no Aleixo e na Pasteleira Nova, entrava em acção uma brigada cinotécnica» («A fábrica foi abaixo e Fernando foi para um quarto», Ana Cristina Pereira e Telma Alves, Público, 25.03.2014, p. 12).

 

[Texto 4409]

Helder Guégués às 13:13 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Tradução: «newspaper dispenser»

Com pernas ou sem pernas?

 

 

      O tradutor verteu por «distribuidor de jornais», o que me parece um pouco equívoco. Não virá de imediato à mente do leitor (que não tem, como eu, o original à sua frente) um homem, muitas vezes um rapazinho, um ardina, a vender jornais nas ruas? Não seria melhor algo como caixa de venda de jornais? Talvez até apenas caixa de jornais, como também se diz em francês (boîte à journaux), por exemplo. «À porta, junto da bilheteira onde, caso tivesse parado para pagar o seu bilhete, talvez Oswald ainda estivesse vivo, uma nota de humor macabro. Numa caixa de venda de jornais, alguém colou um autocolante de identificação para participantes em congressos. No quadrado branco abaixo da frase impressa: “Hello. My name is...”, uma mão exímia escreveu em letras gordas: “PATSY”» («Oswald passou por aqui», Paulo Faria, «2»/Público, 17.11.2013, p. 24).

 

[Texto 4408]

Helder Guégués às 10:11 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Nova palavra, «maçadoria»?

Pensar bem antes de escrever

 

 

   «A entrevista aproximava-se do fim. Os adjectivos soltavam-se. “impecável” [sic], a relação com o Presidente Cavaco. E depois, uma nova palavra, a “maçadoria” que Passos disse querer evitar aos telespectadores. Cada um julgará por si» («Passos Coelho na SIC: a “maçadoria”, as pensões e os salários e a promessa», Paulo Pena, Público, 16.04.2014, p. 6).

   Julgamos, sem dúvida. Para já, não se percebe o alcance ou sentido da afirmação, mas parece-me disparate do jornalista. Uma nova palavra para quem, para o jornalista ou no vocabulário do primeiro-ministro? Venha cá explicar, Paulo Pena.

 

[Texto 4407]

Helder Guégués às 07:34 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«À base de»

Imaginem Pascoaes

 

 

    «Tapetes feitos à base de pétalas de flores e verduras naturais vão decorar as nove igrejas e capelas da vila do Sardoal, perto de Abrantes, entre sexta-feira e domingo. Os enfeites contêm desenhos alusivos à Semana Santa e à Páscoa e representam uma tradição secular» («Tapetes de pétalas de flores regressam às igrejas e capelas», Público, 16.04.2014, p. 21).

     É sempre à base de. Agora imaginem o etéreo Pascoaes a escrever da mesma maneira: «A matéria é feita de alma, como é feito de pétalas o lírio» (Duplo Passeio, Teixeira de Pascoaes. Porto: Tipografia Civilização, 1942, p. 220).

 

[Texto 4406]

Helder Guégués às 07:06 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «facho»

Este não ilumina

 

 

     «O Ataque aos Milionários [de Pedro Jorge Castronão é panfletário: não é uma defesa dos empresários detidos no gonçalvismo do pós-11 de Março, com mandados de captura em branco ou sem papéis, nem um libelo acusatório aos “fachos” cúmplices da ditadura. Em vez de investir nos adjectivos, o autor apostou na entrevista de 47 pessoas ligadas aos factos e na investigação de arquivos, onde encontrou documentos inéditos» («Rui Moreira aproveitou O Ataque aos Milionários para fazer a defesa do pai», Álvaro Vieira, Público, 16.04.2014, p. 14).

  Não precisa das aspas, evidentemente. Não o vejo em todos os dicionários, mas o igualmente coloquial e depreciativo «comuna» está.

 

[Texto 4405]

Helder Guégués às 07:01 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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16
Abr 14

Quando escrever «Lua» ou «lua»

Estava a ler

 

 

      «Estar a ler é o mesmo que estar na Lua, não dizer coisa com coisa a respeito das coisas deste mundo» (Horas Mortas, João de Araújo Correia. Régua: Imprensa do Douro Editora, 1968, p. 193).

      Apenas em contextos astronómicos, em que designa o satélite da Terra, se escreve com maiúscula inicial. Nem sequer, como já vimos, na designação das fases. E muito menos nestes usos derivados ou metafóricos, como estar na lua, ladrar à lua, pedir a lua, pôr nos cornos da lua, prometer a lua, querer a lua. Nada; nestas coisas, o Mestre não é meu mestre.

 

[Texto 4404]

Helder Guégués às 07:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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