19
Abr 14

«À papo-seco»

Sem mais nem menos

 

 

      Nunca gostei da expressão «à papo-seco». Não sei, parece-me própria de grunhos, embora, naturalmente, tal não signifique que não a usasse na boca de uma personagem. Vejo, contudo, com alguma surpresa que os dicionários não a registam. Vem isto a propósito de a ter visto para traduzir, num contexto que me parece não a pedir, sans ménagement.

   «Aquela do ar inteligente metera-a à papo-seco, para dar uma nota diferente à aproximação clássica, demasiado típica, sem nada de novo, falível numa mulher daquelas, assediada, jovem, urbana» (O Vestido de Lantejoulas, Rita Ferro. Lisboa: Contexto, 1991, p. 231).

 

[Texto 4427]

Helder Guégués às 15:14 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar

Um mandamento esquecido

Não fugirás sempre ao original

 

 

   Ao contrário do que acontece com «hecatômbico», não podemos pretender criar adjectivos para substituir outros que já existem. Assim, se alguém diz algo «in his most homiletic tone», não traduziremos que o fez «no seu tom mais homiliasta», porque homiliasta é apenas o compositor ou pregador de homilias, ao passo que homilético é o relativo à homilética ou arte de pregar sermões. Ou seja, guardemos a criatividade para o que é necessário e investiguemos sempre, em especial quando são áreas estranhas aos nossos interesses e conhecimentos.

 

[Texto 4426]

Helder Guégués às 12:28 | comentar | favorito | partilhar
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Sobre «estátua»

Quarenta anos depois

 

 

      A historiadora Irene Flunser Pimentel estava há minutos na Antena 1 a falar da tortura nas prisões antes do 25 de Abril, e referiu uma das piores, a estátua — acepção que também não está nos dicionários. Algumas das técnicas, ao que se diz, aprendeu-as a PIDE no manual Kubark, que podem ver aqui.

 

[Texto 4425]

Helder Guégués às 10:28 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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Sobre «trompa»

É só mais uma

 

 

      «O farol — o único da barra do Tejo ainda com faroleiro residente — é uma torre vermelha cilíndrica de ferro, estreita, com 13 metros de altura, onde nem sequer se pode entrar. Mas há outro ponto de interesse para os visitantes: a casa das máquinas, onde ainda estão os geradores que faziam funcionar os compressores, que por sua vez enchiam de ar os cilindros ligados à trompa instalada no telhado. “Era isto que fazia o sinal sonoro”, explica [o faroleiro] Edgar Bentes. Hoje o farol não emite som, mas continua a iluminar o cabo [Raso]» («Cascais convida a subir aos faróis para conhecer séculos de história», Marisa Soares, Público, 19.04.2014, p. 12).

      Esta acepção de «trompa» não a encontro em nenhum dicionário. Como também não encontro um vocábulo relacionado com este, «nautofone».

 

[Texto 4424]

Helder Guégués às 09:38 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar
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19
Abr 14

Discurso anafórico

Para ficar na memória

 

 

      «Hollande reagiu rapidamente após a demissão, distanciando-se do seu assessor e utilizando a figura de estilo da anáfora (a repetição da mesma palavra no princípio de uma frase), que lhe é bastante característica: “Aquilino Morelle tomou a única decisão que se impunha, a única decisão conveniente, a única decisão que lhe permitirá responder às questões que lhe são colocada”» («Assessor de François Hollande forçado a demitir-se devido
a conflito de interesses», Clara Barata, Público, 19.04.2014, p. 21).

     É uma característica de inúmeros discursos políticos, mas parece que sobressai mais nos discursos de François Hollande, é mesmo a sua botte verbale, como se lê aqui.

 

[Texto 4423] 

Helder Guégués às 09:07 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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