21
Abr 14

«Used to»

Foram enganados

 

 

     Tenho de ser eu a dizer aos tradutores que a construção used to não se traduz sempre por «costumar». Já sei que lhes disseram que sim, mas não é verdade, e já tiveram muito tempo para reflectir sobre a questão. «Its just down the hill from where my mother used to live.» Vou traduzir por «Fica ao fundo da colina onde a minha mãe costumava viver»? Sim, se acabar de vir de Marte.

 

[Texto 4442]

Helder Guégués às 23:21 | comentar | favorito
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As leizinhas da Comissão

Têm de se entreter

 

 

   A maior parte das centenas de medidas políticas que a Comissão Europeia prepara todos os anos são aquilo a que em italiano se chama leggine — leizinhas — que dizem respeito a questões técnicas muito específicas.

 

[Texto 4441]

Helder Guégués às 23:18 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Il y avait longtemps»

Sigam-me, se puderem

 

 

   É assim a memória. Estava aqui a ouvir «Alípio de Freitas», do reeditado Co’as Tamanquinhas do Zeca!, dos Couple Coffee. A voz suave e intensa de Luanda Cozetti e o baixo caloroso e veemente de Norton Daiello enchem-me a sala. E então lembrei-me que, de outro trabalho, têm a faixa «Luandando», título homónimo de uma obra de Pepetela (Porto: Elf Aquitaine Angola, 1990), bilingue esta, com texto a duas colunas. Uma das frases da coluna em francês (é uma tradução justalinear) começava: «Il y avait longtemps que le trône du Portugal, etc.» O que me levou a outra frase de outra obra: «Il y avait longtemps qu’*** ne s’était attelé à résumer une vie en quelques lignes.» Que o tradutor quis verter assim: «Há muito tempo que *** não se empenhava em resumir uma vida em meia dúzia de linhas.» Estamos sempre a tempo de aprender.

 

[Texto 4440]

Helder Guégués às 20:51 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Léxico: «halali»

Da caça

 

 

      «Apresentada a justificação da ausência, fiquei nestes dias a lamentar não ter podido participar, mais em cima do acontecimento, na muito discutida questão das declarações do secretário de Estado da Administração Pública, José Maria Teixeira Leite Martins, sobre a perenidade dos cortes nas pensões e que deu um halali governamental com exprobração do “ajudante” da ministra Maria Luís Albuquerque, a qual, numa corajosa, frontal e galharda atitude que tem sido regra do sangue de barata dos atuais governantes da nossa deprimência, tanto disse desconhecer a iniciativa do seu subordinado como reconheceu estar a par» («Existe grande confusão no modo como se lida com fonte confidencial», Oscar Mascarenhas, Diário de Notícias, 19.04.2014, p. 47).

      Registo-a aqui porque raramente a vemos, excepto na poesia. Bem, e nas obras de Aquilino, onde estão todas. Halali (com a variante alalí) é o toque de trompa e o grito dos caçadores que anunciam que o veado foi acuado pelos cães. Deve ser dos tais hebraísmos entre aspas: vem do hebraico (הַלְלוּיָהּ, transcrito «halləluya», mas a nossa não tem h, «aleluia») através do francês. Ia dizer que neste caso ficámos a ganhar à língua inglesa, que não tem «halali», mas tem mort, que é o mesmo, anunciado pelo hunting horn. (Sem relação com a caça, temos o vocábulo «hornaveque», que é a obra avançada de fortificação. Também chamada obra corna. As primeiras trombetas de caça também eram cornos de animais.)

 

[Texto 4439]

Helder Guégués às 19:06 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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Ortografia: «embriaguez»

Ebriedade

 

 

      «Terá pedido uma bebida que lhe foi recusada pelo empregado de balcão devido aos sinais de aparente embriaguês. De acordo com uma ocorrência policial registada pela PSP de Rio de Mouro, dia 28 de março pelas 22.30, um guarda prisional identificado como M. “nascido em 1966... aparentemente embriagado entrou no estabelecimento Retiro dos Caçadores. O empregado não o serviu e foi colocado na rua. Agrediu o funcionário com um soco no olho e um cliente com murro no nariz”. Segundo o relatório policial, o guarda, devido à sua postura agressiva perante as autoridades, “foi revistado e detido”» («Guardas prisionais espancam em restaurante», Luís Fontes, Diário de Notícias, 21.04.2014, p. 21).

  Já é um clássico, a «embriaguês» dos jornalistas. Nem têm uma mnemónica nem nada: confiam na excelentíssima memória. Quanto aos guardas valentes, esses só podem confiar nos músculos.

 

[Texto 4438]

Helder Guégués às 10:53 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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21
Abr 14

Ler ou reler «Oresteia»

A invenção da justiça

 

 

   «“O mundo é um palco” escreveu Shakespeare. Laborinho Lúcio esclarece: “Ele não queria dizer que o mundo era uma fantasia, queria sim dizer que o palco de teatro é o lugar onde a vida se reapresenta tal como ela é e por isso é o melhor lugar para compreender a vida. Não é por acaso que o teatro surgiu com a Filosofia e o Direito. Ninguém devia ser advogado ou juiz sem ter lido a Oresteia”» («O “teatro de alma” de um homem institucional: Laborinho Lúcio», Joana Emídio Marques, Diário de Notícias, 21.04.2014, p. 42).

   Com certeza que há pelo menos uma obra para cada profissão. Por sorte, nem temos de a ler em grego. Há uma tradução portuguesa das Edições 70 (introdução, tradução do grego e notas de Manuel Oliveira Pulquério).

 

[Texto 4437]

Helder Guégués às 10:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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