22
Abr 14

«Lorsqu’on revit»

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      «Não era fácil ter uma noção exata das coisas quando se as vivia duas vezes [lorsqu’on revit].» Exactamente: sem indicação da obra nem do tradutor. Porque tenho a certeza absoluta de que ele chegará aqui. E, porque é dos bons (com muitos senões), repito: repreende o sábio e ele te amará. Aí para trás, deixei não há muito a indicação para irem ver esta migalha. De novo, sem alarido.

 

[Texto 4448]

Helder Guégués às 21:41 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Massachusetts

Um esse, dois tês

 

 

      «A edição de 2014 da Maratona de Boston, no estado de Massachussets, registou o maior número de participantes de sempre – 36 mil, mais nove mil do que em 2013 – e de espectadores, na ordem dos milhares. Um ano após o duplo atentado – que fez três mortos, entre eles uma criança, e 264 feridos –, a adesão do público e de atletas constituiu um desafio e uma homenagem às vítimas» («Homenagem às vítimas de atentados de Boston», I. R., Diário de Notícias, 22.04.2014, p. 22).

   Se houvesse uma rede mundial de computadores e motores de pesquisa, isso é que era bom. Mas não há. E mesmo enciclopédias...

 

[Texto 4447]

Helder Guégués às 20:58 | comentar | favorito
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Sobre «afluente»

Cópia de riquezas, de palavras, etc.

 

 

      «Estavam ontem confirmadas 87 vítimas mortais, a maioria estudantes de um liceu numa zona afluente nos arredores de Seul em viagem de férias, e este número deve aumentar nos próximos dias, com a chegada, ainda ontem, das equipas de mergulhadores, ao principal salão de refeições do Sewol, que viajava entre a cidade de Incheon e o porto de Jeju, na ilha do mesmo nome, quando ocorreram circunstâncias ainda não determinadas, que levaram ao seu afundamento na quarta-feira, dia 16» («Presidente sul-coreana pede punição do capitão», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 22.04.2014, p. 22).

      É certo que já em Morais – então ainda «affluente» – a acepção básica estava próxima do cognato inglês, mas nos últimos tempos a influência desta língua tem sido esmagadora. E lá desaguou nos nossos descriteriosos dicionários. Não passava no exame Vieira*, mas vá, sem abusos, mas longe de mim.

 

[Texto 4446]

 

      * De Joaquim Vieira, ex-provedor do jornal Público, que perguntava a si próprio: «Será que os meus pais vão perceber o que escrevi?» 

Helder Guégués às 20:15 | comentar | favorito
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Tradução: «subidón»

Sobre múmias e maus tradutores

 

 

      Só por curiosidade, fui ver se o Dicionário de Espanhol-Português da Porto Editora (a versão em linha e a versão em papel) registava subidón. Nem pensar. E não será com certeza por se tratar de um termo coloquial, porque está no dicionário da Real Academia Espanhola. «Elevación rápida y fuerte que experimenta algo. Tuvo un subidón de fiebre.» Talvez «acesso», noutros casos «assomo». No jornal El País de domingo, foi entrevistado (p. 64) José Manuel Galán, egiptólogo espanhol. Perguntaram-lhe se «es adrenalínico encontrar una momia», ao que respondeu que «todos los hallazgos lo son. Pero es un subidón efímero». E as melhores qualidades de um arqueólogo? «El tesón quizá, la ilusión, la honestidad.» Imagino a frase, tão singela, traduzida por certa gente...

 

[Texto 4445] 

Helder Guégués às 15:53 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «amontilhado»

Antes de traduzir

 

 

      Há cem anos, o vocábulo amontilhado estava nos dicionários, talvez mal explicado, mas estava. Agora, desapareceu. Por isso, quando alguém tiver de traduzir The Cask of Amontillado, de Poe, já se vê o que pode acontecer. «Vinho xerez de cor pálida», lia-se nesses dicionários. É antes o vinho semelhante ao xerez, mas menos fortificado e de cor pálida, inicialmente produzido na região de Montilla, a sul de Córdova. Fortunato, a personagem de Poe, que se orgulhava de ser entendido em vinhos («his connoisseurship in wine», diz o original), sabia-o: «Luchesi não distingue amontilhado de xerez.» Por fim, resta lamentar que alguns tradutores continuem a achar que sherry é intraduzível.

 

[Texto 4444]

Helder Guégués às 14:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
22
Abr 14

Léxico: «coloratura»

Die Koloratur

 

 

   «Chama-se Julia Lezhneva, tem apenas 24 anos, mas já exibe um percurso fulgurante no universo internacional do canto. O soprano lírico coloratura nascido no Extremo Oriente russo (ilha de Sacalina) estreia-se logo, às 21.00, em Portugal, no Grande Auditório da Fund. Gulbenkian, num concerto preenchido com obras do “período italiano” de Georg Friedrich Händel (1685-1759), no qual será acompanhada pela Orquestra Barroca de Helsínquia, dirigida por Aapo Häkkinen» («A nova coqueluche do canto barroco», B. M., Diário de Notícias, 22.04.2014, p. 42).

   Não parece adjectivo — e, de facto, nos dicionários de língua italiana só aparece como substantivo. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é adjectivo: «diz-se de voz de soprano muito aguda e ágil». Em castelhano, por exemplo, diz-se «una soprano con voz de coloratura». Em alemão, também o vejo registado apenas como substantivo.

 

[Texto 4443]

Helder Guégués às 10:32 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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