23
Abr 14

«Croissant/croissã/cruassã»

Um crescente

 

 

      María Lillo, jornalista do jornal El País, foi tomar o pequeno-almoço com o arqueólogo Marcus H. Hermanns, que comeu um cruasán de albaricoque. Quem é que não percebe logo do que se trata? Bem, mas o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «croissã», embora remeta para «croissant». Já passou pelo Ciberdúvidas esta questão: «Quanto à proposta do Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, parece-me que, de facto, há uma certa incoerência: se aportuguesaram a terminação para “ã”, porque não aportuguesar também o “oi” para “ua”, como de resto faz o Dicionário Aurélio? Por outro lado, também não me parece que “cruassã” seja a melhor forma para nomear os tradicionais bolos franceses, já que, apesar de coerente, não é reconhecida pela maior parte das pessoas. Nesta medida, defendo a proposta do Dicionário Houaiss e do da Porto Editora, que referem “croissant” para designar os bolos em forma de crescente» (resposta da consultora Susana Correia).

    Tem razão quanto à incoerência, não já quanto ao resto (até há ali um erro de raciocínio). Claro que é reconhecida pela maior parte das pessoas — mas temos de usá-la mais. E, já agora, aportuguesá-la como deve ser. Reconhecem, como reconhecem «sutiã» e muitas outras que começaram a ser usadas.

 

[Texto 4455] 

Helder Guégués às 19:10 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Tradução: «porter haut»

Orgulho e preconceito

 

 

      «Saiu do alfaiate decidido a fazer jus [à porter haut], no dia seguinte, ao seu fato de casamento.» Estamos no domínio da fraseologia. Porter haut (com elipse de tête) é «tenir la tête haute dans une attitude fière. Le porter haut. Manifester de la fierté». Fazer jus é fazer por merecer seja o que for (começou por significar adquirir direito). São equivalentes as duas expressões? Não me parece. 

 

[Texto 4454]

Helder Guégués às 18:55 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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Telhado e tecto

192 ou também tu

 

 

      Entra na capela, com a luz a coar-se obliquamente pelos vitrais, olha para cima — e que vê George? O telhado de madeira! Também tu confundes, mais de uma vez, telhado com tecto? Aliás, vigas de madeira.

 

[Texto 4453]

Helder Guégués às 16:42 | comentar | favorito

Tradução: «peli»

Por precaução

 

 

      Ainda se lembram dos bolis de medicamentos que se transformaram em «bulas dos medicamentos»? É preciso cuidado com outras semelhantes. Por exemplo, com peli, que não está – ao contrário daquela – no Dicionário de Espanhol-Português da Porto Editora. «Me despedí y entré en el cine. La peli era buena, pero tenía un tipo al lado comiendo palomitas. Creo que habría preferido una mala sin el tipo de al lado» («Bueno y malo», Juan José Millás, El País, 18.04.2014, p. 56). É também coloquial, redução de película.

 

[Texto 4452]

Helder Guégués às 15:38 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Sem revisão

Entreposto, hangar, celeiro

 

 

      «Marek Schramm é fã de automóveis velhos [sic] e admirador de João Paulo II. No passado dia 14 deixou Berlim, ao volante do antigo carro do cardeal Karol Wojtyla, para ir a Roma, com uma passagem por Cracóvia, assistir à canonização do papa polaco. “A sua velocidade máxima é de 115 km/h, mas conduz-se bem a 70”, explica com orgulho Marek Shramm, um alemão filho de uma polaca que em 2012 comprou o antigo carro de Wojtyla que passara 30 anos a ganhar ferrugem num entreposto na Alemanha. [...] “Tudo isto me parece bastante complicado: ir por autoestrada com um carro que não ultrapassa os 70 km/h...”, confidenciou à AFP Piotr Staszcyk, cunhado do motorista de Karol Wojtyla, que foi o último a ter conduzido o seu automóvel em 1982, antes de este acabar por passar décadas num hangar» («A caminho da Polónia ao volante do carro de João Paulo II», Céline Le Prioux, Diário de Notícias, 23.04.2014, p. 21).

     Só aqui já há incongruência, mas no Bild leio que esteve guardado aquele tempo todo «in einer polnischen Scheune», «num celeiro na Polónia».

 

[Texto 4451]

Helder Guégués às 12:45 | comentar | favorito
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Tradução: «convenant(e)»

Muito apropriado

 

 

    «O planeta Pandora é credível?», pergunta a jornalista ao astrofísico e divulgador científico francês Roland Lehoucq. «Avatar é um filme relativamente credível. Penso que James Cameron se fez rodear de conselhos científicos e, por outro lado, ele é oceanógrafo. Da mesma maneira, a fauna extraterrestre do filme é muito conveniente (os navi são humanoides) e não muito original. Isso tem com certeza a ver com a necessidade de que aquele mundo seja exótico, mas não ao ponto de se tornar irreconhecível para o espectador» («“Teremos de esperar muito para ver o solo de um exoplaneta”», Filomena Naves, Diário de Notícias, 23.04.2014, p. 48).  

     Hum, o francês ficou a ver-se muito... Sobretudo aquele «conveniente», convenant(e), sim, mas que no contexto se traduz por «adequada, apropriada».

 

[Texto 4450]

Helder Guégués às 10:35 | comentar | favorito
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23
Abr 14

Tradução: «studs»

Fica para a próxima

 

 

      Ali ia ele, a correr «com as suas calças de râguebi e ruidosos tachões». Passou-me tudo pela cabeça. Cheguei a pensar que era como na passagem de ano, em que se bate com os tachos e mesmo tachões uns nos outros. Ruidosos... Passa-me aí o original: «clattering studs». Ah. Como em alguns dicionários bilingues a primeira acepção é «tachão; prego de cabeça grossa; cravo», a única que parece adequar-se, não se pensa mais. Aqui, vimos que na Decathlon se vendem «sapatilhas com grampões», mas pitões ainda é melhor e mais comum.

    «Stud (usually studsBritish A small projection fixed to the base of footwear, especially sports boots, to allow the wearer to grip the ground».

 

[Texto 4449]

Helder Guégués às 09:48 | comentar | ver comentários (1) | favorito