29
Abr 14

Sobre «compuncto»

Uma honra

 

 

      Não é um hápax, mas quase: «Apesar do ar compuncto, concentrado e quase humilde que punham na altura da confissão e comunhão» (A Árvore das Palavras, Teolinda Gersão. Lisboa: Círculo de Leitores, 2001, p. 205). Mas onde a podemos encontrar, onde? Num dicionário de português-inglês publicado em 1970 na Grã-Bretanha, e pouco mais. Vem do latim compungo, compunxi, compunctum. O nosso «compungir». Logo, compuncto é o mesmo que compungido ou contrito. Que a língua italiana – e talvez seja, além da nossa, a única – também tem, compunto.

 

[Texto 4483]

Helder Guégués às 15:45 | comentar | ver comentários (15) | favorito
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Sobre «turgimão»

Meu nome é legião

 

 

      «Mandou também recado ao vigário do Convento de São Salvador, em Jerusalém, que logo viesse com o turgimão, guardas e com tudo o mais necessário de camelos e cavalgaduras» (A Casa do Pó, Fernando Campos. Lisboa: Difel, 1987, p. 171).

   Bonita palavra, «turgimão» (dragoman, para a legião de anglófonos que nos segue). O étimo parece recuar ao aramaico targmono, que tanto significava intérprete (como significa em português), como, numa segunda acepção, pessoa pouco escrupulosa ou pouco honrada. Portanto, isto vai muito além do sabido provérbio italiano traduttore, traditore.

 

[Texto 4482] 

Helder Guégués às 15:27 | comentar | favorito
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Sobre as nuvens

Nas nuvens

 

 

      «No céu pouco nublado vogavam», leio numa obra que estou a rever, «aqui e além, nuvens brancas esgarçadas.» Esgarçadas, isso mesmo. Hoje já quase ninguém sabe, mas foi o naturalista inglês Howard Luke que, em 1803, publicou uma obra em que classificou as nuvens, stratus, cumulus, cirrus e nimbus, nomes nos quais se pode ver, respectivamente, os actos de subir, adensar, esgarçar e descer.

 

[Texto 4481]

Helder Guégués às 10:37 | comentar | favorito
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Sobre «burgomestre»

É o máximo

 

 

      Já viram o vídeo do burgomestre Fred de Graaf a pousar demoradamente a mão no traseiro da calipígia rainha Máxima da Holanda? O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora diz-nos que burgomestre é o «título que, em alguns países da Europa, se dá ao primeiro magistrado municipal». Será mesmo? Não será antes o principal autarca, edil? No Diário de Notícias, pode ler-se que o «autarca Fred de Graaf» é o «presidente da Câmara de Amstelveen».

      Agora a rainha podia, até porque nasceu na Argentina, também falar em cojones, mas há uma lei que diz que figuras públicas só podem usar a palavra a cada dezoito anos: antes de Miriam Clegg, há dias, houve o caso de Madeleine Albright, em 1996, a propósito de a Força Aérea cubana ter derrubado duas avionetas da organização Hermanos al Rescate. Cá está, tem de haver hispanófonos pelo meio. E ouvem aquele invejoso a gritar: «Hij grijpt gewoon haar bil!»? Apetece responder-lhe: «Loop neuken!»

 

[Texto 4480]

Helder Guégués às 09:18 | comentar | ver comentários (2) | favorito
29
Abr 14

Regência do verbo «gostar»

Merecer a fama

 

 

      João Adelino Faria, no Telejornal de ontem: «E dentro de minutos vai começar uma cerimónia de homenagem a Vasco Graça Moura, uma cerimónia com a música que o poeta tanto gostava e na presença da família e dos amigos.»

    É espantoso como um jornalista fala desta maneira. (E asseguram-me – foste tu, T. G. – que é dos poucos jornalistas que trabalham com brio.) A língua também é música; não sente ele que falta ali alguma coisa? Caramba, é elementar.

   Como transitivo indirecto, o verbo gostar pede a preposição de, que podemos omitir apenas quando este verbo selecciona uma oração subordinada substantiva completiva. 

 

[Texto 4479]

Helder Guégués às 07:57 | comentar | favorito
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