03
Mai 14

Sobre Trevões

Tragédias e comédias

 

 

      Trevões é um topónimo fabuloso, não é? (É a terra do presumível homicida Manuel Baltazar, o Palito. Baltazar também é nome digno de figurar em romance, assim como o rotundo e previsível fracasso do pelotão de cavalaria (!) da GNR, alguns com experiência militar na Bósnia e Afeganistão (!), elementos da Polícia Judiciária e outras forças ainda. Com todo o alarido, querem apanhar num terreno – que foi câmara ou couto episcopal – de serras, matas e com um rio lá ao fundo, o rio Torto, um caçador experiente?) Trevões pode ser variante ou corruptela de «trovões»; como pode ser o aumentativo de «trevos», quem sabe. Era terra natal do filósofo Cunha Seixas, o criador (ou divulgador?) do pantiteísmo. A tal ponto esquecido, que os leitores estarão neste momento a perguntar a si mesmos se a sílaba «ti» não será acrescento meu.

 

[Texto 4501] 

Helder Guégués às 16:20 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Tradução: «priory»

Ainda no mesmo campo lexical

 

 

      «– Se bem percebi, vieram pelo Priorado», diz uma personagem de um romance traduzido do inglês. Priory, no original, que é «a small monastery or nunnery that is governed by a prior or prioress». Nós também temos esta acepção — simplificando, «igreja administrada por prior», como se lê no dicionário de Morais —, mas entretanto esfumou-se de todos os dicionários. Agora, é apenas «dignidade de prior ou de prioresa», «tempo de exercício de um prior», «área de jurisdição do prior». Sim, esta última acepção anda lá perto, mas também não está em todos os dicionários.

 

[Texto 4500]

Helder Guégués às 13:28 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Tradução: «promontorio»

Falsos amigos e falsos tradutores

 

 

      A Sé de Viseu está situada num promontório? Numa má tradução do castelhano, sim. Para nós, promontório é apenas o cabo formado por rochas escarpadas. Em castelhano, promontorio pode ser três coisas diferentes: uma altura muito considerável de terra; coisa que faz demasiado vulto e causa grande estorvo; altura considerável de terra que avança mar adentro. Fiquei com mais vontade de ir conhecer melhor a cidade de Viseu. Para já, posso dizer que a Sé de Viseu está situada num morro, a 483 metros de altitude. Mas morro, ainda que o morro esteja a coroar o topo de um esporão fluvial que na vertente noroeste se precipita abruptamente sobre o rio Pavia.

 

[Texto 4499]

Helder Guégués às 12:06 | comentar | favorito
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Tradução: «trasdosear»

Só uma pista

 

 

      Se soubermos que o termo castelhano trasdós tem no italiano estradosso o seu étimo e que na língua portuguesa também temos, seja qual for o étimo, o termo «extradorso», ficamos com uma boa pista para não errar na tradução do castelhano trasdosear.

 

[Texto 4498]

Helder Guégués às 10:30 | comentar | favorito
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03
Mai 14

Bombardeamentos aliados

Fronteiras e limões

 

 

      «A devastação dos bombardeamentos Aliados, no centro de Palermo, permitiu à máfia completar a destruição com um boom de construção no pós-guerra que arrasou a Conca d’Oro sob uma rede de estradas municipais e subúrbios construídos à pressão e com materiais de fraca qualidade» («Contar a História de Itália com citrinos», Jonathan Keates, recensão da obra The Land Where Lemons Grow: The Story of Italy and Its Citrus Fruit, de Helena Attlee, Particular Books, 2014. «Quociente de Inteligência»/Diário de Notícias, 3.05.2014, p. 16).

    Boa recensão e bom livro certamente. Helena Attlee tem uma obra sobre os jardins de Portugal. Quanto à recensão, a primeira nota é para a ausência, que já se vai tornando hábito, de créditos da tradução. A letra grelada, como dizia António Feliciano de Castilho, já sabemos a que se deve: no original, está «Allied bombing». Mas não: «Tovar, em Berlim, também relatava directamente os efeitos dos bombardeamentos aliados sobre as cidades alemãs» (Salazar: Uma Biografia Política, Filipe Ribeiro de Menezes. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 305). Também é curioso como se evita a palavra «limoal» (porque se desconhece?): o original diz «orchards of orange and lemon»; na tradução, «laranjais e pomares de limoeiros».

  «Attlee», escreve Jonathan Keates, «é perita em desenterrar [expert winkler-out] factos pouco conhecidos, neste caso o pormenor de que “comer limões” significa atravessar fronteiras, uma vez que o fruto vai buscar o seu nome à pequena cidade de Limone, que ficava na região da fronteira na época dos primeiros tempos do domínio romano, que, por sua vez, buscou a sua designação na palavra limen (fronteira).»

 

[Texto 4497] 

Helder Guégués às 10:17 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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