04
Mai 14

Sobre «fachis»

O básico revisitado

 

 

      Já uma vez tinha lembrado no Assim Mesmo que os pauzinhos com que alguns povos orientais comem se chamam fachis. Agora leio na Revista do Expresso (18.03.2014, p. 72) uma receita de bacalhau de Olivier e numa nota: «O black cod come-se com pauzinhos (hachis).» É uma variante e, não me custa reconhecer, o chefe está uns passos à frente de alguns linguistas, pois em alguns dicionários diz-se que «fachi» é um nome masculino plural. Dalgado, que morreu há 92 anos, sabia que fachis é que é nome masculino plural. Claro que, como já concluímos mais de uma vez em relação a outros vocábulos, talvez devesse ser com x, faxis.

 

[Texto 4506]

Helder Guégués às 19:57 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Os arcanos da linguagem II

Subprodutos

 

 

      Esotérico? Numa papelaria aqui em Cascais: «Não se aceita a devolução de subprodutos.» Hã?! Que subprodutos: a cinza dos cigarros, as aparas dos lápis?... Comparado com isto, o anúncio da palestra sobre sexo oral na Casa das Máscaras é muito mais claro, apesar do inglês: falar-se-á «sobre técnicas, pontos de prazer e a transformação de preliminares em coreplay». (Não sabia que «pompoarismo» já está em alguns dicionários... Tem um ar tão honesto e científico, há-de entrar em todos.)

 

[Texto 4505]

Helder Guégués às 18:39 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Os arcanos da linguagem

Não é bem assim

 

 

   «A proverbial sabedoria popular? Não conheço eufemismo maior, embora “proverbial” seja o termo. De “Abril, águas mil” (Abril é dos meses menos chuvosos) a “Dinheiro não traz felicidade” (é sabido que o êxtase só se atinge em situações de miséria absoluta), os adágios que pretendem ilustrar a sensatez do povo são um compêndio de inanidades apenas comparável aos workshops do Bloco de Esquerda» («Ainda Abril», Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 4.05.2014, p. 47).

    Seria mesmo «eufemismo» que o nosso cronista queria usar? Também há erros proverbiais.

 

[Texto 4504]

Helder Guégués às 18:07 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «fura-bolos»

Aqui não é um dedo

 

 

   «Veiga Simão, cuja fé na Universidade o levou a ser ministro da Educação no estertor de um regime ditatorial, teve a sorte de não ser vítima da sua tentativa, sobreviveu politicamente. Mas não sorte completa, porque ficou com o justo labéu de ser o ministro da Educação de um mau Governo num período em que os estudantes universitários eram dos mais ativos oposicionistas. No entanto,Veiga Simão, inteligente e culto, se foi homem de todas as estações [referência, feita por Ferreira Fernandes no início da crónica, ao filme A Man for All Seasons, de 1966, sobre Tomás Moro, que, na tentativa de conciliar a fé católica e a lealdade ao rei, ficou sem cabeça], não o foi de apeadeiros, não foi um fura-bolos» («Veiga Simão, tentar servir dois senhores», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 4.05.2014, p. 48).

      A palavra usa-se mais para referir, coloquialmente, o dedo indicador. Aqui, porém, é a pessoa que faz pela vida.

 

[Texto 4503]

Helder Guégués às 16:58 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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04
Mai 14

Logo, «hipercondríaco»

O doente imaginário

 

 

      Está nas salas de cinemas o filme Supercondríaco (Supercondriaque, no original, adaptado a BD, com o mesmo título, pelas Edições Delcourt), do realizador francês Dany Boon, que conta a história do hipocondríaco Romain Faubert, fotógrafo de um dicionário médico em linha, e da relação com o seu médico. Ora, o antónimo do prefixo hipo- é hiper-,e por isso seria de esperar «hipercondríaco», como também temos, por exemplo, «hipotensão/hipertensão» ou «hipoglicemia/hiperglicemia». São ambos prefixos amplificadores por transferência de sentido, pois originalmente eram portadores da noção semântica de posição. Hiper, com o sentido de posição superior; hipo, com o sentido de posição inferior. Porque «hipocôndrio» é o que está abaixo (hypoda cartilagem (khóndros), numa alusão ao fígado, órgão, para os Antigos, sede de todos os males orgânicos. Acresce que, embora signifiquem exactamente o mesmo, hoje em dia hiper- é usado como intensificação de super-, está num nível quantificador acima, e por isso temos, por exemplo, «supermercado» e «hipermercado».

 

[Texto 4502]

Helder Guégués às 08:48 | comentar | favorito
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