05
Mai 14

Sobre «testamento vital»

A pior escolha

 

 

      «A partir de 1 de julho, os portugueses podem dizer quais os tratamentos médicos que querem ou não receber em situação de doença e essa informação passa a estar disponível num registo nacional, acessível a todos os médicos do País. O testamento vital entra assim em funcionamento real, mais de um ano depois da [sic] lei da diretiva antecipada de vontade ter sido aprovada e de ter ficado por regulamentar a forma como essa informação estaria acessível» («Registo do testamento vital arranca a 1 de julho», Ana Maia, Diário de Notícias, 5.05.2014, p. 12).

   Ficaria bem afirmar agora que a linguagem é construída socialmente pelo consenso intersubjectivo, mas pelo menos em relação a estas questões não é verdade. Porquê «testamento», que tem relevância patrimonial e eficácia causa mortis? Tinham muito por onde copiar, o que até costumam fazer – living will, advance directives, Patientenverfügungen, instrucciones previas, voluntad antecipada –, mas não.

 

[Texto 4511] 

Helder Guégués às 23:31 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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Como se escreve por aí

Complicados

 

 

      «Portanto, pode hipotetizar-se que, etc.»! Há muito mais formas de errar do que de acertar, isso é sabido. Usam mal a criatividade, também porque sabem que Deus não os vai castigar por isso, mas nós podemos fazê-lo.

 

[Texto 4510]

Helder Guégués às 23:10 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Tradução: «lifeworld»

Até Mr.!

 

 

  Habermas defende que a sociedade civil «é composta por uma pluralidade de associações, organizações e movimentos que transmitem reacções da componente lifeworld da sociedade para a esfera pública» (Between Facts and Norms: Contribution to a Discourse Theory of Law and Democracy. Cambridge/MA: MIT Press, 1996, 367).

    Não passa um dia, talvez não passe meio dia que não veja uma qualquer palavra dada como irremediavelmente intraduzível. Ora é carrageen, ora é coup de foudre, ora humph... Não nos dão descanso. Claro que, não poucas vezes, concluímos que não é bem assim. Corrijam-me, se estiver enganado: o termo Lebenswelt foi usado pela primeira vez por Husserl; os tradutores anglo-saxónicos verteram-no para lifeworld; os povos de todas as latitudes convenceram-se de que o termo é intraduzível para qualquer outra língua. É isto? Entretanto, ainda que com ressalvas, a medo, mas sem ser fulminado por um raio jupiteriano, há quem o vá traduzindo por «mundividência».

 

[Texto 4509] 

Helder Guégués às 21:34 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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«Haúça»/«Haúças»

Grande verdade

 

 

      «O Boko Haram, que numa tradução livre da língua haúça significa “a educação ocidental é pecado”, é um grupo islamita ativo desde 2002 e que só nos primeiros meses deste ano terá matado 1500 pessoas. Mostra uma visão obscurantista do islão e um extremismo que faz os talibãs darem ar de moderados. Parece não temer ninguém, apesar de o fundador ter sido morto pelo exército» («Ninguém tenta salvar 220 meninas raptadas?», Leonídio Paulo Ferreira, Diário de Notícias, 5.05.2014, p. 7).

   Muito bem, haúça, que nem sempre se vê correctamente escrito. A língua haúça e o povo, os Haúças, como se pode comprovar no Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves (p. 519). (No Diário de Notícias, Leonídio Paulo Ferreira é um dos jornalistas com a escrita mais cuidada.)

 

[Texto 4508]

Helder Guégués às 20:40 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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05
Mai 14

«Chuva molha-parvos (ou molha-tolos)»

Todas molham

 

 

      «E o pior é que estas tais tomadas miúdas são as que mais se sentem e menos valem, como a chuva que chamam molha-parvos faz maior dano que as águas grossas naqueles sobre quem descarga» (Apólogos Dialogais, D. Francisco Manuel de Melo. Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1959, p. 194).

    O itálico foi certamente capricho do editor; mas acabei de a ver entre aspas e sem hífen... Leite de Vasconcelos registou-a, e também com hífen. Os dicionários não a acolhem, talvez, quem sabe, porque já não haja parvos nem tolos.

 

[Texto 4507]

Helder Guégués às 17:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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