13
Mai 14

Tradução: «smooth»

Se é pedra

 

 

     «Em vez de seguir pela Regent Street abaixo, virou à esquerda na igreja, caminhando por dentro do pórtico, roçando o ombro pela macia redondez animal das colunas, vendo-se a seguir entre as pequenas lojas de venda a grosso da Riding House Street e da Little Titchfield Street, admirado, como sempre, perante a rapidez com que, em Londres, uma actividade cultural ou comercial cedia lugar a outra» (A Questão Finkler, Howard Jacobson. Tradução de Alcinda Marinho. Porto: Porto Editora, 2011, 2.ª ed., p. 42).

     Imagino que seja a Igreja de Alls Souls (onde exerceu o seu múnus o famigerado reverendo John Stott), na Langham Place. Está lá sempre alguém encostado às colunas, cuja redondez animal não é macia — mas lisa (smooth). A locução adverbial é por grosso, não a grossoSerá confusão por se dizer «a retalho».

 

[Texto 4560] 

Helder Guégués às 22:44 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Caldos e festas

Polícias e xerifes

 

 

    «Polícias e xerifes não querem acreditar. “Isso deixa-nos nervosos. Estamos a falar de situações caóticas por natureza. Misturar armas ao caldo não me parece boa ideia”, diz, ao Expresso, John Rutherford, xerife do condado de Duval e membro da “Florida Sheriffs Association”» («Armas contra zombies», Ricardo Lourenço, Expresso Diário, 13.05.2014).

      Que caldo? Temos o caldo entornado. Problema de tradução? Não será algo como «misturar armas à festa não me parece boa ideia»? Acepção, muito a propósito se diga, que não encontro, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. «E, para ajudar à festa, a Julieta era uma sacana de maus fígados, tudo por adorar o menino Vasco» (Amor 5, Paixão 3, Manuel Arouca. Lisboa: Texto Editora, 2003, p. 18).

 

[Texto 4559]

Helder Guégués às 21:33 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Como se escreve nos jornais

Muito estranho

 

 

      «Na Flórida [sic], há mais de um milhão de pessoas com licença de uso e porte de arma. A relação deste dado estatístico com os casos de violência geram debates intermináveis, com os defensores do segundo artigo da Constituição Americana, que define o direito de acesso às armas, a garantirem que leis mais restritivas não diminuem a criminalidade» («Armas contra zombies», Ricardo Lourenço, Expresso Diário, 13.05.2014).

      O artigo 2.º da Constituição norte-americana é sobre o poder executivo; a 2.ª emenda é que estatui o direito de porte de arma (Right to Bear Arms). Olhamos e vemos logo que está mal; no jornal, ninguém vê. E devem pensar que não precisam de revisão, só de muita sorte. (Já que me perguntam: sim, até um trolha norte-americano sabe que está mal.)

 

 

[Texto 4558]

Helder Guégués às 20:29 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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E quanto a «tuíte», nada

Está mal

 

 

   «A funcionalidade vai permitir esconder os tuítes e a atividade das pessoas selecionadas, embora se mantenha a possibilidade de interação, como o reply ou o retweet» («Twitter vai ter botão mute», Expresso Diário, 13.05.2014).

    Embora remeta para «twittar», o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «tuitar». Contudo, apenas acolhe «tweet» e não «tuíte». Fica a meio caminho.

 

[Texto 4557]

Helder Guégués às 20:04 | comentar | ver comentários (3) | favorito

Isso era dantes

Em voga

 

 

    «A história das 284 meninas raptadas por um bando de alegados islamistas nigerianos volta a colocar a mira mediática em cima da difícil relação entre o islão e o mundo moderno» («Alá é tarado ou isto é só sexo?», Henrique Raposo, Expresso Diário, 13.05.2014).

    Dantes é que se punha a mira nisto ou naquilo: no eterno, nas bem-aventuranças, no bem comum, na fortuna de uma viúva rica... Agora coloca-se tudo.

 

[Texto 4556]

Helder Guégués às 19:39 | comentar | favorito
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Tradução: «plumb line»

Como sempre

 

 

    «Podia-se pendurar uma linha de prumo [plumb line] nele, recordou Treslove» (A Questão Finkler, Howard Jacobson. Tradução de Alcinda Marinho. Porto: Porto Editora, 2011, 2.ª, p. 23).

    Fio-de-prumo. Eu sei que é simples, mas, como podem ver, há quem não acerte. E, no entanto, até os trolhas sabem (também porque de certeza temos a melhor geração de trolhas de sempre).

 

[Texto 4555]

Helder Guégués às 15:55 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Sobre «arena»

O circo da língua

 

 

      As entidades tais e tais «comprometeram-se a construir e a remodelar estádios de acordo com o padrão de qualidade da FIFA, na criação de modernas arenas». Agora escrevem assim. E até são capazes de argumentar que temos o MEO Arena... «Ah, mas não significa também “anfiteatro”? Ora aí está.» Ora aí está.

 

[Texto 4554]

Helder Guégués às 14:06 | comentar | favorito
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Léxico: «felácio»

O efeito é o mesmo

 

 

    «Depois de ter pedido aos fãs para beijarem pessoas do mesmo sexo, Miley Cyrus voltou a estar no centro de uma polémica. Segundo relata o El Mundo, a cantora levou um boneco insuflável para o palco de um dos concertos que deu em Londres e praticamente fez um espectáculo “pornográfico”. Além de sentar-se em cima do boneco e simular relações sexuais, a cantora não se coibiu de fazer um felácio» («Miley Cyrus simula sexo com boneco insuflável em palco», Diário de Notícias, 13.05.2014, p. 45).

     «La que fuera la niña dulce de años atrás agarró un muñeco hinchable con genitales al que no dudó en realizar una felación en plena actuación», lê-se no jornal El Mundo. Em português, creio que se usa mais «felação». Aliás, «felácio», mais próximo do étimo latino, nem está registado nos principais dicionários. (O mais próximo é «falécio», mas de certeza que não sabe ao mesmo: é o verso greco-latino de cinco pés.) Não está, mas devia estar.

 

[Texto 4553]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Jornalismo reactivo

Vai embalado

 

 

     «A mulher de barba, alter ego do cantor austríaco Thomas Neuwirth, de 25 anos, gerou um turbilhão de reações emocionais na Europa. Sobretudo depois de ganhar confortavelmente o festival com o tema: Rise Like a Phoenix. Na Rússia, as reações homofóbicas abrangeram desde políticos conservadores ao apresentador de televisão Andrei Malakhov, que publicou no Twitter uma fotografia sua a rapar a barba em protesto contra a vitória de Conchita. Já na Áustria, seu país natal, a nova estrela teve uma reação festiva na chegada ao aeroporto» («Associações LGBT festejam vitória da diversidade», Pedro Sousa Tavares, Diário de Notícias, 13.05.2014, p. 43).

    Esta é outra das palavras que se tornaram, pelo menos para os jornalistas, nos últimos anos, imprescindíveis. Neste caso concreto, pelo menos a última ocorrência é lapso, está por «recepção» (receção», como o jornalista é obrigado a escrever).

 

[Texto 4552]

Helder Guégués às 09:09 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Grafar os «ismos»

Era só isto

 

 

    «Dança das Horas La Gioconda, ópera em quatro atos sobre um libreto de Tobia Gorrio (pseudónimo de Arrigo Boito) livremente inspirado na peça Angelo, Tyran de Padoue (1835), de Victor Hugo, é usualmente considerada como a antecâmara da nova maneira lírica italiana – a Giovane Scuola – que viria a ser consagrada popularmente como “verismo” e se imporia a partir da última década de Oitocentos, com Puccini, Mascagni, Leoncavallo ou Giordano»)» («Obra precursora do verismo imortalizou Ponchielli», B. M., Diário de Notícias, 13.05.2014, p. 41).

  Porquê «popularmente»? As aspas são desnecessárias. Certo é grafar-se com minúscula, como o nome de todos os movimentos artísticos, literários, políticos, etc.

 

[Texto 4551]

Helder Guégués às 09:08 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Ortografia aproximativa

Erros sem fronteiras

 

 

      «Em campo não dorme, mas gosta de fazer a siesta depois do almoço: “Os jogadores precisam de treino, empenho, paciência e descanso.” Não gosta de lulas à sevilhana e prefere o puschero (espécie de rancho à moda de Sevilha)» («Beto, o aficionado que dorme a ‘siesta’ e namora uma sevilhana», Isaura Almeida, Diário de Notícias, 13.05.2014, p. 25).

      Se eles não consultam um dicionário da língua portuguesa, iam agora ver como se escrevem as palavras de outra língua? É puchero que se escreve.

 

[Texto 4550]

Helder Guégués às 08:13 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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13
Mai 14

«Jornalismo colaborativo»

Jornalismo...

 

 

    Também se pode dizer jornalismo colaborativo, mas o que cai no goto é sempre, mas sempre o pior: «jornalismo cidadão». Como o escritor e jornalista Dan Gillmor cunhou a expressão citizen journalism, os macacos da língua tiveram logo de o imitar. Dan Gillmor, que antes desprezava este tipo de jornalismo, agora já afirma: «My readers know more than I do.»

 

[Texto 4549]

Helder Guégués às 00:30 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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