18
Mai 14

Más escolhas

Uns retoques

 

 

      «E abriu a Hagadá na página relevante [relevant], apontando com o dedo» (A Questão Finkler, Howard Jacobson. Tradução de Alcinda Marinho. Porto: Porto Editora, 2011, 2.ª ed., p. 159). Não me parece; antes «pertinente» ou mesmo «certa». Não é apenas o eventually que sai mal. Outro: «A sua altura fazia Libor sentir-se disparatado [foolish]» (idem, ibidem, p. 213). A interlocutora de Libor era muito maior do que ele. («Poderia ter sido o seu ventríloquo e ele o seu boneco.») «Disparatado» é disparatado. «A sua altura fazia Libor sentir-se ridículo.»

 

[Texto 4591]

Helder Guégués às 19:14 | comentar | favorito
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Léxico: «gablete»

São milhares

 

 

      «Tinha gabletes [gables] pontiagudos, torres e ameias de imitação, chaminés de fantasia e mesmo uma muralha a que não era possível subir» (A Questão Finkler, Howard Jacobson. Tradução de Alcinda Marinho. Porto: Porto Editora, 2011, 2.ª ed., p. 235).

      Já anda cá há muito, mas nem todos os dicionaristas deram por isso. O O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não o regista. No Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora, gable é traduzido por «empena» e «espigão».

 

[Texto 4590]

Helder Guégués às 18:54 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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De Optimus a Pessimus

Os reis vão nus

 

 

    «“Na nossa identidade e logótipo, o ó é desenhado a outra escala e é aberto, sugerindo essa leitura, não vimos necessidade de usar a convenção habitual, porque acreditamos que a marca tem por si só a força necessária para ser lida e reconhecida como se pretende”, diz Hugo Figueiredo, diretor de marca e comunicação da NOS» («Zon e Optimus entre NOS», Catarina Nunes, «Economia»/Expresso, 16.05.2014, p. 21).

    Aberto como quê, como um u, é isso? Conseguiram. Claro que parolos somos nós por observarmos as convenções. E é claro que o nome da décima quarta letra é o e não ó. (O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora assegura-nos que é a décima quinta letra do alfabeto... Mas é preciso pensar em todos os pormenores.)

 

[Texto 4589]

Helder Guégués às 16:08 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Sobre uma nota

Ver humor onde o não há

 

 

      «N. de T.: A designação proposta pela personagem no original é ASHamed Jews, sendo o nome abreviado daí resultante ASH (“cinza”, que aqui remeteria para a ideia de destruição de um estado de coisas). Por razões de adaptação e dada a impossibilidade de reproduzir a mesma abreviatura a partir da [sic] designação do grupo em português, optou-se aqui, com aprovação expressa do autor, por uma recriação do nome, de modo a [sic] preservar a funcionalidade humorística que este desempenha ao longo do texto» (A Questão Finkler, Howard Jacobson. Tradução de Alcinda Marinho. Porto: Porto Editora, 2011, 2.ª ed., p. 144).

      Não se trata de uma abreviatura, evidentemente, mas isso é o menos. Posso dar a minha opinião como leitor? Com a solução encontrada — «Judeus enVERgonhados» —, não se preservou a «funcionalidade humorística». Claro que em inglês não é nenhum achado ou produto da genialidade do autor: em ashamed está contido ash, nada mais. Salta à vista que de «envergonhado» não se pode extrair nada de humorístico. A possível (nem todos os jogos de palavras se podem traduzir) solução estaria, com aprovação expressa do autor ou sem aprovação expressa do autor, num sinónimo de «envergonhado». Sei lá, talvez em «vexado»: Judeus vEXados. Este EX remeteria, como ASH, para algo que já foi. Quanto «ao longo do texto», a verdade é que a primeira ocorrência, depois da nota, de ASHamed não ficou assinalada na tradução: «Não fosse o caso de Ronit Kravitz ser filha de um general israelita, ter-lhe-ia telefonado para propor um fim-de-semana de envergonhado rebolanço judeu [ASHamed Jew whoopee] em Eastbourne» (idem, ibidem, p. 145).

 

[Texto 4588]

Helder Guégués às 13:56 | comentar | favorito
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«À grande e à francesa»

Tinha de estar lá

 

 

    «– Desculpa-me a linguagem, pai, mas isso é uma treta à grande e à francesa – interveio Alfredo» (A Questão Finkler, Howard Jacobson. Tradução de Alcinda Marinho. Porto: Porto Editora, 2011, 2.ª ed., p. 182) «‘Forgive my French, but that’s bollocks, Dad,’ Alfredo butted in.»

   Está visto: o French tinha de entrar à viva força, fosse lá onde fosse, a bem ou a mal. (Deve ser consequência daquela misteriosa regra das compensações de que alguns tradutores falam...) E butted in não é aquele anódino «interveio».

 

[Texto 4587]

Helder Guégués às 11:29 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Ortografia: «meia-volta»

Sem contrição

 

 

      «He turned back.» Não interessa agora quem nem em que livro. A frase deve repetir-se em milhares de obras. «Deu meia volta», escreveu a tradutora, o que, argumentará, fez porque segue as novas regras ortográficas. É a tal interpretação decepadora de cc, pp e hífenes do Acordo Ortográfico de 1990 que já tenho condenado e lamentado. O pior é que a serpente emplumada do erro até no cérebro dos revisores se insinua.

 

[Texto 4586]

Helder Guégués às 11:03 | comentar | favorito
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18
Mai 14

Sobre «pendura»

Instruções para a morte

 

 

   «A juíza do TIC não seguiu à risca as 73 perguntas enviadas pelo Tribunal de Saquarema, não confrontando Duarte Lima sobre alguns detalhes incluídos na lista, como o destino dado ao tapete do lado do pendura do carro que tinha alugado no Brasil e que desapareceu» («Duarte Lima ouvido no TIC», Expresso, 16.05.2014, p. 40).

  Não sei se esta acepção está em algum dicionário. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, pendura é, nas «competições automobilísticas», o «tripulante que vai fornecendo ao piloto informações e instruções sobre o trajecto; navegador».

 

[Texto 4585]

Helder Guégués às 10:28 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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