23
Mai 14

Como calha

É da velocidade

 

 

      «A liberdade poética que dá ser Grande Turismo e tão livre de ir para onde quiser, como numa estrada perdida da Toscânia, rumo ao norte, à região de Emilia Romana e à bela cidade de Bolonha» («Dolce vita a minha», Rui Pelejão, Expresso Diário, 23.05.2014).

    Se eu estivesse a conduzir um Maserati Ghibli pela serra da Arrábida, talvez também não pensasse na ortografia. Mas, quando parasse, reflectia um pouco. Toscana, Rui Pelejão. Emília-Romanha, Rui Pelejão. Há mais — na ortografia e na pontuação — avarias, mas agora não há tempo.

 

[Texto 4612]

Helder Guégués às 22:07 | comentar | favorito
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Por um esse

佐村河内 守

 

 

     Gosto muito da canção Abracadabra, de Paulo de Carvalho, recriada, há pouco, pelos Expensive Soul. Mas esperem... Tem um esse a mais! Um esse! Canta Paulo de Carvalho: «Aqui não há semáforos,/aqui só há chupa-chupas./E até as bengalas dos velhos/são feitas de rebuçado./Ai, como é bom, tão bom,/vivermos aqui!» E, na voz cristalina de New Max, ficou assim: «Aqui não há semáforos,/aqui só há chupa-chupas./E até as bengalas dos velhos/são feitas de rebuçados./Ai, como é bom, tão bom,/vivermos aqui!» Mas os cantores e os músicos ouvem todos bem. Em relação aos compositores já é diferente: temos Beethoven e o japonês Mamoru Samuragochi, que fingiu competentemente que era surdo. Mas, como também fingiu que compunha, só temos Beethoven, pelo menos até ver, pode acontecer que se descubra que também era um fingidor.

 

[Texto 4611]

Helder Guégués às 11:30 | comentar | favorito
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Colchetes e touros

Cada vez mais pobres

 

 

      «João Moura, 54 anos, estava a montar um cavalo novo no tentadero [pequena arena] da sua Quinta de Santo António, perto de Monforte, quando o animal escorregou e lhe caiu em cima. Foi por volta das 19.00 de ontem. O acidente deixou o cavaleiro inconsciente durante largos minutos. Assistido no local durante cerca de uma hora pela Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER), foi levado para o Hospital de Portalegre em estado considerado grave» («Acidente com cavalo fere João Moura», Luís Godinho, Diário de Notícias, 23.05.2014, p. 19).

    Já aqui tinha falado deste castelhanismo. Dantes, eram vários os dicionários que registavam «tentadeiro». Outra que se eclipsou na viragem e na voragem do tempo. (E os colchetes, caro Luís Godinho, para que servem aqui? E «viatura médica de emergência e reanimação» em maiúsculas?) Claro que para se escrever como deve ser não são necessários dicionários, basta que quem escreve reflicta um pouco.

 

[Texto 4610] 

Helder Guégués às 10:12 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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23
Mai 14

Encadeamento fonético

Talvez não seja isso

 

 

      Finkler, em demanda de uma prostituta, encontra Alfredo, um dos filhos de Treslove, junto de um bar, e já com os copos. (Estaria a beber para arranjar coragem para procurar uma prostituta? «Se sim, tinha exagerado. Nenhuma prostituta iria querer aproximar-se de tanta coragem.») Alfredo pergunta-lhe, referindo-se ao pai, que se quer tornar judeu: «What’s all this Jew shit?» E, em contraponto, o narrador: «Slurred, Jew shit came out sounding more like Jesuit, a word which Alfredo would not have known even when sober.» Que foi assim traduzido: «Dito assim, de forma entaramelada, judeuzito soava mais a jesuíta, uma palavra que Alfredo nem sóbrio conheceria» (A Questão Finkler, Howard Jacobson. Tradução de Alcinda Marinho. Porto: Porto Editora, 2011, 2.ª ed., p. 267). Ainda se fosse «judiazita», a semelhança com «jesuíta» era crível. Ou talvez precisasse – o melhor argumento é dizer-se que a tradução tem outras mais inúteis – de uma nota de rodapé. O encadeamento fonético (aquele slurred pode ser também um termo da música, o nosso legato), fonte de muitos equívocos, nem todos cómicos, leva a perceber Jew shit como Jewshit, quase Jesuit.

 

[Texto 4609] 

Helder Guégués às 07:29 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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