Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Linguagista

«Noire de monde»

Quase escatológico

 

 

      No original: «… la place Saint-Pierre de Rome noire de monde». A tradução: «... a Praça de São Pedro, em Roma, a regurgitar de gente». Não está mal. Ruben A.: «Os refugiados iam entrando como formigas pelas fronteiras. Lisboa a regurgitar de gente polimorfa» (O Mundo à Minha Procura, Autobiografia, Vol. II. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1962, p. 111).

 

[Texto 4633]

Como se escreve nos jornais

Tocam, partem

 

 

     «Pagamentos às centenas de euros de cada vez, caixas de vinho, almoços de cinco ou seis euros e até pedras mármore [sic] para a cozinha (num dos casos). Estas foram algumas das “prendas” que três polícias do Departamento de Armas e Explosivos (DEA) da PSP terão recebido de empresários de pedreiras a troco de os avisarem de fiscalizações do DEA» («Polícias pagos a mármore e vinhos», Rute Coelho, Diário de Notícias, 27.05.2014, p. 22).

   Polícias corruptos? Isso pode lá ser verdade! É uma cabala. Nos almoços de cinco e seis euros é que custa acreditar. Mas vamos ao título: «pagos a mármore»? Diz-se «pago em espécie», «pago em bens», logo, «pago em mármore». Mas «pago a peso de ouro», «pago à hora, «pago à jorna», «pago à peça».

 

[Texto 4632]

Sem nome comum

Leuzea longifolia

 

 

      «A zona de reserva criada pela Quercus em Leiria, há dois anos, para salvar da extinção a Leuzea longifolia, uma planta da família das margaridas única no mundo, já deu frutos» («Quercus salva planta única de extinção», Diário de Notícias, 27.05.2014, p. 22).

   Tão rara, pensem nisto, que nem tem nome comum (se for verdade: uma endémica sem nome comum?) Parece-me, contudo, que ontem vi alguns exemplares ali na Quinta do Bom Nome. Ou seriam apenas da mesma família? Bem, os botânicos (do Flora.on, por exemplo) que se desloquem lá.

 

[Texto 4631] 

«Bio», «vocal»...

Tudo moderno

 

 

      «Tudo o que disserem, desafia. E muito se disse e dirá sobre este filho de Vila Chã do Marão, Amarante. Nascido a 10 de setembro de 1950 da união entre, diz a bio oficial, “uma camponesa e um alfaiate”, aos 6 meses levado pelos pais emigrantes para o Brasil, regressará aos 14 anos com a mãe (que celebrou, lacrimoso, numa crónica e várias entrevistas aquando da discussão pública sobre a coadoção em casais de pessoas do mesmo sexo, a que se opõe em nome “da família natural”, dizendo recordar-se do seu nascimento e da “vagina ensanguentada” da progenitora) a Portugal. Onde, ainda adolescente, se mete na política: crítico vocal do salazarismo, é em 1970 preso pela PIDE em Coimbra, episódio em relação ao qual frisa não ter “falado” apesar de “três dias e três noites sem dormir.”» («O homem que se lembra de nascer nasceu para a política», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 27.05.2014, p. 6).

      «Bio», redução vocabular, é um pouco equívoco, e escassamente usado. «Crítico vocal» (já me ocupei de «vocal» aqui) jamais passaria no exame Vieira.

 

[Texto 4630] 

Léxico: «chuleado»

Corte e costura

 

 

      Agora também tenho de acudir à costura. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só acolhia «chuleio», mas não «chuleado», que por sugestão minha hoje já regista. Tenho a certeza que já ouvi e li mais vezes esta do que aquela. «Chuleado», como «caseado». No entanto, «debruado» também é substantivo, e não aparece registado como tal, assim como «pespontado» (embora «pesponto» se use mais, e verdade).

 

[Texto 4629]