30
Mai 14

Ortografia: «cão de fila»

Só um pormenor

 

 

      «E há mais pormenores ou pormaiores que não recomendam António Costa. Para começar, está rodeado pelos cães-de-fila de Sócrates, que andam por aí a rosnar há três anos, rosnam, rosnam e rosnam para conseguir um espacinho que lhes permita executar a vingança contra aqueles que disseram mal do amado líder, coitadinho» («A cobardia de António Costa», Henrique Raposo, Expresso Diário, 30.05.2014).

     Não precisa de hífenes: cão de fila. Não é como «cão-d’água». Este sentido figurado – pessoa fiel, em quem se pode confiar – não está dicionarizado, o que não é aconselhável, porque há maluquinhos da língua que só usam palavras e expressões que estejam nos dicionários.

 

[Texto 4645] 

Helder Guégués às 21:15 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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30
Mai 14

Tradução: «volontiers»

Pois não pode

 

 

      Traduzir volontiers por «sem se fazer rogado(a)» parece-me muito bem, mas, naturalmente, em certos contextos, não em todos. Também se pode traduzir por «de boa vontade», «com todo o prazer ou gosto», «normalmente», «naturalmente», «habitualmente»... Não pode ser chapa cinco, não é?

 

[Texto 4644]

Helder Guégués às 11:40 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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29
Mai 14

«Sôr/sora/sô»?

Sonotone, e já

 

 

   «O assassino que andou a monte, depois de ter assassinado duas mulheres, foi recebido com palmas pela população. Antes de começarmos a cuspir repugnância pelo povinho, devíamos tentar perceber. Até porque perceber não é o mesmo que desculpar, já dizia a Sôr Dona Hannah Arendt» («De onde vêm as palmas do “Palito”?», Henrique Raposo, Expresso Diário, 28.05.2014).

  A forma reduzida de «senhor» é (e sor); de «senhora», pelo menos para Henrique Raposo, é «sôr». Não estará a confundir com «sor», de «sóror»? Está, pois. Alguns dicionários registam sora como forma reduzida de «senhora». Para mim, é «sô» para senhor e para senhora. É óbvio que alguém anda a ouvir mal, e não costumo ser eu.

 

[Texto 4643]

Helder Guégués às 23:14 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Tradução: «line cook»

Como nas linhas de montagem

 

 

    «Acompanhado pelo filho Percy – seu gestor de redes sociais – e pelo sub-chefe Martin (John Leguizamo), o chef reinventa-se e realiza-se. Os sabores nacionais ganham nova vida na roulotte “El Jefe – Los Cubanos”» («Do gourmet à roulotte, um chef nas redes sociais», João Miguel Salvador, Expresso Diário, 28.05.2014).

    Está-se mesmo a ver: «chef» e... «sub-chefe». Nem «subchefe». O que se lê na imprensa anglo-saxónica é que Leguizamo representa o papel de «a line cook named Martin». Line cook é «a cook who works on an assembly line», ou seja, não é muito diferente de um ajudante de chefe (lead cook ou head line cook ou chef, para a legião de anglófonos que nos segue). E quanto a «roulotte», bem, até nas legendas do filme se lê «rulote».

 

[Texto 4642]

Helder Guégués às 22:43 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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29
Mai 14

«Capô/tejadilho»

Trocam tudo

 

 

       «O carro está equipado com sensores e um laser no topo do capot que captam informação sobre o ambiente exterior em todas as direções (não há ângulos mortos), detetando obstáculos e distâncias, e tem um software que integra toda a informação, bem como um mapa detalhado da zona em que se faz a circulação» («Google cria carro ‘fofinho’ para quem não quer conduzir», Filomena Naves, Diário de Notícias, 29.05.2014, p. 26).

      Mais uma confusão clássica. O que se lê na imprensa internacional é que o carro tem «a laser sensor on the roof constantly scans the surroundings», e roof, em inglês, é «the structure forming the upper covering of a building or vehicle», ou seja, o nosso tejadilho; «capô» diz-se em inglês bonnet ou hood, «the hinged metal canopy covering the engine of a motor vehicle». Os tradutores confundem frequentemente «tecto» com «telhado», os jornalistas confundem «capô» com «tejadilho».

 

[Texto 4641]

Helder Guégués às 08:56 | comentar | favorito
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28
Mai 14

«Escoteiro/escuteiro»

Para baralhar

 

 

    «Escoteiro do ramo católico em miúdo, [Matteo Renzi] também foi árbitro de futebol amador e jogou, ele próprio, futsal» («Guia para ganhar eleições com estilo», Pedro Cordeiro, Expresso Diário, 28.05.2014).

    Ainda que mal pergunte: ao «escoteiro do ramo católico» não damos o nome de escuteiro?

 

[Texto 4640]

Helder Guégués às 23:12 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Cap and gown»

Vá, agradeçam

 

 

      «A atriz Emma Watson, que interpreta Hermione na saga Harry Potter, licenciou-se recentemente em Literatura Inglesa na Universidade de Brown. Embora uma experiência normal para uma jovem de 24 anos, Emma Watson decidiu levar consigo uma guarda-costas armada e vestida com a batina de aluna» («50 pontos para Gryffindor», Expresso Diário, 28.05.2014).

   Uma estudante de batina? Como leram a notícia na imprensa anglo-saxónica, que dizia que a actriz estava acompanhada de uma «woman who was wearing a cap and gown», omitiram o cap e já temos sorte que não tivessem traduzido gown por «roupão».

 

[Texto 4639]

Helder Guégués às 19:02 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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28
Mai 14

Tradução: «effet de mode»

Crista da onda

 

 

      «Il faut enfin se méfier des effets de mode», lê-se no original. Verdade simples que o tradutor quis impedir os leitores de conhecerem: «É preciso desconfiar dos efeitos de modo.» E o contexto, não serve para nada, não ajuda, não encaminha? Depende, não é? A expressão effets de mode (bandwagon effect, para a legião de anglófonos que nos segue) pode traduzir-se por «tendência da moda» ou «efeito da moda», talvez até «efeito de contágio», por exemplo. Qualquer maria-vai-com-as-outras sabe isto.

 

[Texto 4638]

Helder Guégués às 18:28 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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