05
Jun 14

Agora é a «phonie»

Outra nova

 

 

      «É uma ideia original criada pelo fotógrafo Dan Rubin que junta os conceitos de selfie e de “sleeve photos” (fotografias onde se tapa a cara com capas de discos). Nasce assim a “phonie”, imagens tiradas como se fossem autorretratos de celebridades» («Depois da selfie, eis que surge a “phonie”», Expresso Diário, 5.06.2014).

      Selfie já está em quase todos os dicionários, agora vamos ver como será com esta. Palpita-me que não vai acontecer o mesmo.

 

[Texto 4681]

Helder Guégués às 21:47 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Voltar a repetir»

Viciosos

 

 

      «Diz-se que quem se lembra de ter estado no festival Woodstock, não esteve realmente lá. O ano foi 1969 e agora, numa entrevista à Rolling Stone, Michael Lang confessa querer voltar a repetir a proeza em 2019, em celebração dos seus 50 anos» («Summer of 2019», Expresso Diário, 5.06.2014).

     «Voltar a repetir»... Se vai ser a segunda vez, não volta a repetir — repete. Neste caso, é pleonasmo vicioso.

 

[Texto 4680]

Helder Guégués às 21:36 | comentar | favorito
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O incrível mundo do futebol

Fenómeno fisiológico...

 

 

  «O presidente do Sporting, Bruno Carvalho, comparou o futebol português a um “ânus” com duas “nádegas imponentes” de onde sai vento mal cheiroso [sic] ou trampa”, quando questionado pelos jornalistas, em Ponta Delgada, sobre o candidato à Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP) que terá o apoio do Sporting. “Na gíria popular o futebol português funciona como aquele fenómeno fisiológico conhecido como ânus, onde temos duas nádegas que se enfrentam uma frente à outra, imponentes, não saindo de lá, dizendo uma à outra eu estou aqui e sou melhor que tu. E depois vão fingindo que aquilo não funciona dentro do mesmo esquema”, disse» («Bruno Carvalho escatológico», Expresso Diário, 5.06.2014).

      Como é que se podem dizer tantas parvoíces em duas frases? Bacoreja-me que só está ao alcance de licenciados em Gestão e mestres em Gestão do Desporto de Organizações Desportivas. E os jornalistas ainda pioram o que já está para lá dos limites do tolerável. Com todo o mérito, fica ex aequo com o «bramir do estandarte» de Pedro Lomba.

 

[Texto 4679] 

Helder Guégués às 20:40 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Já vimos isto

Pontuação sacudida

 

 

      «Epá e que tal fazermos um treino para pessoas que passam o dia no escritório?” [...] Depois: dez agachamentos e dez burpees. Os burpees são, digo eu, a forma mais rápida de se ficar sem fôlego. Basicamente é deitar e levantar o mais rápido possível, terminando com um pulo e uma palma» («O português que desafiou Van Damme ensina-nos a treinar», Ana Sofia Santos, Expresso Diário, 5.06.2014).

    Os exercícios — a reportagem é acompanhada de um vídeo — parecem-me bons, curtos mas intensos. Semelhantes, no fundo, ao método Tabata, que comecei a praticar há um mês, que consiste em cinco minutos de aquecimento, uma série de oito sequências de 20 segundos de exercício de alta intensidade, à bruta, seguido de dez segundos de descanso e, no fim, dois minutos de arrefecimento. Tudo cronometrado com a aplicação My Tabata Timer.

     Pior é o «epá», que a jornalista pode ter aprendido, em má hora, com os Fedorentos. Da pontuação, o que nem se vê no excerto citado, é melhor não falarmos. É uma _______ (preencha o leitor). O burpee (com os jornais digitais, ainda há mais atropelos e descuidos, e o itálico foi para as urtigas), dizem os dicionários de língua inglesa, é «a physical exercise consisting of a squat thrust made from and ending in a standing position».

 

[Texto 4678] 

Helder Guégués às 20:18 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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O verbo «haver» como não deve ser

Muitos, eu sei

 

 

      Luís Jardim, o músico e produtor musical, foi ontem um dos convidados do 5 para a Meia-Noite, esta semana transmitido da Madeira. Uma frase, que não há paciência para mais: «Não haviam suficientes músicos pretos em Inglaterra para fazer isso; nos Estados haviam, mas na Inglaterra não.» Não cincou menos de meia dúzia de vezes. Francamente, e o famoso ouvido de músico, onde está? Qual é o português que, em Abbey Road ou numa obscura rua portuguesa, se esquece de que, no sentido de existir ou acontecer, o verbo haver se usa apenas na terceira pessoa do singular? Muitos, eu sei: escritores, tradutores, jornalistas, professores, revisores... Pergunto com o salmista: «Levanto os meus olhos para os montes: donde me virá o auxílio?»

 

[Texto 4677]

Helder Guégués às 17:24 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Pinas» e pancas

Em que se fala de Alcácer Quibir

 

 

      «É ironia do destino que a coxa, músculo que só se move para a frente, nos atrase historicamente. Por causa dela perdemos Badajoz e Tui, que são “pinas”, diria um mestre da bola, comparados com o que podemos perder com a Alemanha na próxima semana. Outra ironia é um povo de grandes desígnios universais estar tão dependente de partes menores do corpo. As pancas de D. Sebastião, que nos levaram a Alcácer Quibir e a baixar de divisão, nasceram das suas maleitas venéreas» («A tendinite que nos aperta o coração», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 5.06.2014, p. 48).

     O tal engenheiro queimado por mil sóis africanos também diz, com muita frequência, que isto ou aquilo são «pinas». Estes não vivem debaixo de nenhum «protectorado». «Panca» (aqui, maluqueira, mania pouco lógica ou irracional) é a simplificação, no português antigo, de palanca, o nome que em latim se dava ao pau grosso, semelhante à porra, que era usado como alavanca. De «palanca» deriva o verbo «apalancar» – fazer oscilar –, que conheço há muito.

 

[Texto 4676]

Helder Guégués às 07:43 | comentar | favorito
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05
Jun 14

Tradução: «fellow-traveller»

A simpatia, o voto, não a militância

 

 

      «Os judeus shande com quem o meu marido passa as noites (quando não as passa com a amante) acusam os israelitas e aqueles a quem chamam de “sionistas da mesma leva” de pensarem que gozam de um estatuto moral especial que os autoriza a tratar todas as outras pessoas como merda; mas esta acusação baseia-se, ela mesma, na ideia de que os judeus gozam de um estatuto moral especial e deviam ser capazes de fazer melhor do que isto» (A Questão Finkler, Howard Jacobson. Tradução de Alcinda Marinho. Porto: Porto Editora, 2011, 2.ª ed., p. 332).

      No original, está «Zionist fellow-travellers». Ora, uma das acepções de «leva» é a de recrutamento, o único sentido, a par de grupo, demasiado anódino, que se adequaria, se fellow-traveller não fosse «a person who is not a member of a particular group or political party (especially the Communist Party), but who sympathizes with the group’s aims and policies». Eu optaria por «simpatizante», talvez uma das melhores alternativas. No Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora, é traduzido por «companheiro de viagem»; «simpatizante do comunismo». Ocorre-nos logo compagnon de route, mas reparem no que se lê na definição dos dicionários de língua inglesa: «especially the Communist Party». Por isso, o dicionário bilingue devia dizer «simpatizante, especialmente do comunismo». Se tivesse sentido pejorativo, que não tem, mais facilmente optaria por traduzir por «igualha», que me faz sempre recordar os «fascistas da mesma igualha» da canção «Alípio de Freitas», de Zeca Afonso.

 

[Texto 4675] 

Helder Guégués às 06:57 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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