28
Jun 14

Como se escreve nos jornais

Sem cisma, dois papas

 

 

    Monsenhor Józef Wesołowski, ex-representante papal na República Dominicana, foi condenado pelo Tribunal do Vaticano por abuso sexual de menores e expulso da Igreja. Boa! (como diria José Candeias, cujo reportório de interjeições fica por aqui). «Esta é a primeira vez», lê-se na edição de hoje do Correio da Manhã, «que um padre de tal grau é investigado por pedofilia, passando à prática as palavras do papa Francisco que pedira celeridade na investigação e punição de tais crimes» («Vaticano expulsa ex-enviado papal por abuso de crianças», Isabel Faria, p. 2). «Padre de tal grau»... Enfim, «monsenhor» é um título honorífico eclesiástico. E, de caminho, ficamos a saber que há um Papa Francisco que pediu celeridade na investigação e outro Papa Francisco que não a pediu.

 

[Texto 4774]

Helder Guégués às 20:07 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Títulos

Nem matizes

 

 

   «L’an passé, E. L. James, l’auteure britannique de la trilogie “ Cinquante nuances ”, a engrangé un bénéfice net avant impôts de 33 millions de livres sterling (41 millions d’euros). Le film adapté du premier tome devrait sortir le 14 février 2015... jour de la Saint-Valentine» («Livres... sterling», Le Monde, 27.06.2014).

    Cá, um país que já foi traduzido do francês, não houve nuances nem meias-tintas.

 

[Texto 4773]

Helder Guégués às 19:47 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Menos palavras

Por favor

 

 

      Palavras de sobra, sempre, e muitas, e, pior, parece que ninguém se importa. «Sabes o que é que quero dizer, não sabes?» Isto nem com a tesoura de Torga vai, só com uma gadanha furiosa.

 

[Texto 4772]

Helder Guégués às 12:55 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Interjeições

Pormenores, como sempre

 

 

   Uma diferença entre muitas e mais relevantes: nas entrevistas da imprensa portuguesa, o riso do entrevistado é indicado entre parênteses ou colchetes — (riso), [riso] —, por vezes até em itálico. Porquê? Na imprensa espanhola, usa-se sempre a interjeição de riso. O jornalista pergunta a Álex de La Iglesia: «Qué sabe La Roja de usted? La pregunta también vale para el fútbol...» Resposta de Álex de La Iglesia: «Ja, ja, ja... Que no soy de fiar.» («“Recuérdame que me calle”», Rafael J. Álvarez, El Mundo, 21.06.2014, p. 56). A propósito: para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «ah» «exprime admiração, alegria, espanto ou lamento». Mas alegria não é riso, como lamento nem sempre é dor. Enfim, pormenores.

 

[Texto 4771]

Helder Guégués às 12:49 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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28
Jun 14

Dar de empréstimo

O caso do colar da rainha

 

 

      «Apesar de Rohan se ter disposto a emprestar dinheiro para pagar a conta do joalheiro, o assunto avançou para tribunal» («Os diamantes não são os melhores amigos das mulheres», Anne Somerset, tradução e adaptação [?] de Cristina Queiroz, «Quociente de Inteligência»/Diário de Notícias, 28.06.2014, p. 12).

      É preciso ler o texto todo para perceber que está errado — ou ler a frase original: «Although Rohan would have been willing to borrow money to settle the jeweller’s bill, the matter was referred to the law courts.» O cardeal não estava disposto a emprestar dinheiro, mas sim a pedir emprestado dinheiro para pagar o colar ao joalheiro da corte, Boehmer. O que é completamente diferente. Temos verbos com dupla significação, já falámos de alguns, mas não é o caso de «emprestar», embora haja quem defenda que, popularmente, tem também o sentido de «tomar de empréstimo».

 

[Texto 4770]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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