12
Ago 14

Léxico: «crepe-da-china»

O último ponto final

 

 

      «[...] o dr. Magalhães tratava de negócios e calmava as senhoras, o padre Mascarenhas não gostava, preferia as saias rodadas ou os vestidos de crepe-da-china, cetim brilhante e leve, roda bordada de missangas […]» (O Feitiço da Índia, Miguel Real. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2012, p. 373).

    Quanto ao «dr.», estamos conversados. Já no que respeita a «crepe-da-china», creio que não pode ser outra a grafia, mas, estranhamente, vê-se mais vezes escrito «crepe da china». Nos dicionários, nada. (Evito quase sempre citar estes livros em que só lá de cinco em cinco páginas é que se vê um ponto final — onde começar? onde acabar? —, mas desta vez teve de ser.)

 

[Texto 4927]

Helder Guégués às 21:13 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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PACC

Era a última desculpa

 

 

   «Os problemas com a acentuação foram os mais frequentes. Representam metade dos erros ortográficos detectados na prova de avaliação dos professores. Segundo o IAVE, Instituto de Avaliação Educativa, apenas 10 % dos erros se referem ao incumprimento do Acordo Ortográfico» (Ana Luísa Rodrigues, Telejornal, 8.08.2014). De acordo com o comunicado do IAVE, «90 % dos erros estão relacionados com os seguintes aspetos da ortografia: uso incorreto da acentuação […], troca de vogais, troca ou uso incorrecto de consoantes, aplicação incorreta do plural e registo incorreto de formas e de conjugações verbais». A «aplicação incorreta do plural» é um «aspeto» da ortografia? Bem, de qualquer maneira, a desgraça é manifesta.

 

[Texto 4926]

Helder Guégués às 17:42 | comentar | favorito
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Guarda Civil espanhola

São excepções

 

 

      «No instante seguinte da crónica – na realidade, passou uma hora e dez minutos –, os jornalistas estão fora do Parlamento. E Tejero Molina, figura de opereta, de bigode e com o tradicional tricórnio da Guarda Civil, é dono e senhor de uma corte onde os deputados foram obrigados a agachar-se, só resistindo três: o chefe do governo Adolfo Suárez, o seu número dois, o general Gutiérrez Mellado, e o comunista Santiago Carrillo» («O fracasso dos golpistas com saudades de Franco», Leonídio Paulo Ferreira, Diário de Notícias, 10.08.2014, p. 46).

      Rídiculo, e isso vê-se muito nos jornais (culpa das chefias, queixam-se alguns, como se isso explicasse as suas próprias inépcias), é escrever-se «Guardia Civil». Nos livros não aparece muito, mas já aqui vimos repetidamente — para espanto de muitos — como os multipremiados traduzem do castelhano. Claro que, em terra de cegos, etc.

 

[Texto 4925]

Helder Guégués às 14:17 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Quebrar a bolha»

É bom saber como se diz

 

 

      «Lima e tónica “sem quebrar a bolha”, claro. Uma grossa casca de lima, torcida entre os dedos para dela retirar o óleo, deita-se dentro do copo entretanto cheio a 3/4 com gelo. Por fim, adiciona-se a tónica, gentilmente, de preferência usando uma colher própria, para não perder o gás. Não “quebrar a bolha” é agora moda dizer-se» («A Infusão do Amor», Ricardo Simões Ferreira, Diário de Notícias, 10.08.2014, p. 38).

 

[Texto 4924]

Helder Guégués às 14:15 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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A beleza é inglesa

A ponte do biquíni

 

 

      «Lembra-se das fotos de pés esticados na areia da praia com que as adolescentes enchiam as redes sociais no ano passado? Esqueça-as. Este ano a imagem que todas querem mostrar é a do bikini bridge (ponte do biquíni); ou seja, uma foto que capta a barriga e as cuecas do biquíni suspensas sobre os ossos pélvicos de forma a [sic] fazer uma abertura entre o tecido e a púbis (ver imagens à direita). A moda junta-se à perseguição de umas coxas ultramagras (thigh gap) e ambas são a expressão de uma nova vaga de obsessão pela beleza inatingível ou mesmo mortal. Será a moda do bikini bridge uma tendência ou uma doença de verão?» («‘Bikini bridge’, uma moda ou uma doença de verão?», Joana Emídio Marques, Diário de Notícias, 11.08.2014, p. 38).

 

[Texto 4923]

Helder Guégués às 13:27 | comentar | favorito
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Ortografia: «ex-líbris»

Sempre ao contrário

 

 

      «O cravista italiano Michele Benuzzi esteve no Museu da Música em Lisboa, onde tocou o cravo Antunes, instrumento construído por Joaquim José Antunes em 1758, um dos ex libris da coleção, classificado como “tesouro nacional”. Benuzzi apresentou Mediterranean Soul, concerto que inclui sonatas de compositores ibéricos e italianos do século XVIII, como Josep Gallés, Domenico Scarlatti, Giovanni Benedetto Platti e Carlos Seixas. Benuzzi estudou cravo com Ottavio Dantone no Royal College of Music, em Londres, tendo também estudado musicologia na Universidade de Pavia. Instrumento de cordas com um teclado, como o piano, mas no qual o som resulta de [sic] pinçar as cordas, o cravo surgiu na Europa no século XV, tendo-se tornado comum nos salões da nobreza nos séculos XVII e XVIII» («Michele Benuzzi tocou o cravo Antunes», Diário de Notícias, 11.08.2014, p. 37).

      Está aportuguesada, e por isso devemos escrever ex-líbris.

 

 [Texto 4922]

Helder Guégués às 13:20 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Ortografia: «Superlua»

A Lua e a ortografia

 

 

      «Super-lua. Onde a meteorologia foi benevolente, a Lua subiu ontem no horizonte, cheia e luminosa, colorida de tons de laranja, um pouco maior do que é costume, devido à proximidade com a Terra. Para os fotógrafos, foi uma oportunidade para captar imagens originais e festivas, como estas. Em Lisboa, a colina do castelo e as nuvens foram o cenário da lua cheia que muitos quiseram ver e fotografar. Em Malta, houve quem a visse erguer-se por trás das torres da catedral de Mdina e em Sydney, este anónimo aproveitou para fazer uma selfie. O fotógrafo não perdeu a oportunidade de fazer a imagem» («A lua cheia maior do ano nasceu ontem no horizonte em todo o mundo», Diário de Notícias, 11.08.2014, p. 23).

    Vinha pela A23 e lá estava a Lua, belíssima, grande, próxima, laranja. Superlua. É pena é os jornalistas não atinarem com a ortografia, nem à mão de Deus Padre.

 

[Texto 4921]

Helder Guégués às 12:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Praça dos Chapeleiros

Como era conhecida

 

 

      «A história da Chapelaria Azevedo começou a escrever- se em 1886, por Manuel Aquino de Azevedo Rua. Era um produtor de vinho do Porto que se viu obrigado a abandonar os socalcos do Douro porque a filoxera – uma praga que ataca as raízes e as folhas da vinha – lhe deu cabo do negócio. Decidiu instalar-se em Lisboa e com dinheiro emprestado pela família abriu duas lojas no Rossio, na Praça D. Pedro IV, outrora também conhecida por Praça dos Chapeleiros» («Chapéus há muitos... da cartola ao panamá», Sílvia Freches, Diário de Notícias, 11.08.2014, p. 16).

      Desde que não digam que era como então se chamava a Praça D. Pedro IV, está tudo bem.

 

[Texto 4920]

Helder Guégués às 09:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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12
Ago 14

Das relíquias

Ex indumentis

 

 

      «O reitor explicou que o relicário tem alguns cabelos do papa polaco que presidiu à Igreja Católica entre 1978 e 2005, estão ali também relíquias ex indumentis (das vestes brancas do Santo Padre). Segundo o sacerdote[,] esta é a quarta igreja do País a receber relíquias daquele papa, depois do Funchal, da Sé e do Santuário do Sameiro, em Braga» («Santuário dos Cerejais é a quarta igreja a receber relíquias do papa João Paulo II», José António Cardoso, Diário de Notícias, 11.08.2014, p. 15).

      Vá lá, não a sobrecarregaram com um hífen. As relíquias ex indumentis são, como é, óbvio, as mais abundantes, logo seguidas pelas relíquias ex capillis (cabelos) e, mais raras, as ex sanguinis (sangue). «A Igreja Católica», diz-se num texto secundário, «classifica as relíquias dos santos e beatos em três categorias: 1.ª classe: partes do corpo; 2.ª classe: objetos do santos; 3.ª classe: Objetos que tocaram no santo. As relíquias de João Paulo II e de frei Bartolomeu dos Mártires são de primeira classe (cabelos e uma vértebra). As de Jacinta e Francisco de segunda (fragmentos do vestuário).»

 

[Texto 4919] 

Helder Guégués às 09:16 | comentar | favorito
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