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Linguagista

«Virar costas»

E soa melhor

 

      «Fui ao ponto de chamar a Matriona e de ali mesmo lhe dirigir um sermão paternal por causa das teias de aranha e pelo desmazelo geral; ela limitou-se a olhar para mim, espantada, virando-me as costas sem proferir uma única palavra, pelo que as teias de aranha continuam suspensas do teto, intactas» (Noites Brancas, Fiódor Dostoiévski. Tradução do francês de Maria João Lourenço. Lisboa: Clube do Autor, 2013, pp. 24-25).

      Ninguém pode lembrar-se do que nunca soube. Leite de Vasconcelos lembra, algures, que é «virar costas», sem artigo, que se deve dizer.

 

[Texto 5112]

Ortografia: «cor-de-rosa-claro»

Mais um hífen

 

   «Nunca esquecerei a história que aconteceu com uma bonita casa pequenina, pintada de um cor-de-rosa claro» (Noites Brancas, Fiódor Dostoiévski. Tradução do francês de Maria João Lourenço. Lisboa: Clube do Autor, 2013, p. 23).

    Falta um hífen, cor-de-rosa-claro, como cor-de-rosa-escuro. Hélio Consolaro, professor, jornalista e escritor brasileiro, prefere ali uma vírgula e até uma nova redacção, «cor-de-rosa, em tom claro; cor-de-rosa, escuro», mas não explica porquê, e ficamos desconfiados que valha apenas para Araçatuba.

 

[Texto 5111]

Léxico: «tabaquismo»

E devia mesmo

 

   «Francia ha optado por una de las soluciones más radicales para intentar atajar el tabaquismo: imponer las cajetillas neutras» («Francia impone la cajetilla neutra de tabaco para reducir el consumo», Gabriela Cañas, El País, 26.09.2014, p. 37).

   Era assim que devíamos dizer — e até está registado no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora —, mas preferiram seguir a língua francesa.

 

[Texto 5110]

George, não exageres

«Em mais de nove em cada dez»...

 

       «Só quando estabelecemos um qualquer tipo de relação profissional com os livros é que nos damos conta de quão fraca é a qualidade da maioria. Em mais de nove casos em cada dez, a única crítica objectivamente verdadeira seria “Este livro não presta”, ao passo que a verdade acerca da reacção do crítico literário seria provavelmente “Este livro não me interessa nem um bocadinho, e, se não me pagassem, não escreveria uma linha sobre o assunto”» (Livros & Cigarros, George Orwell. Tradução de Paulo Faria. Lisboa: Antígona, 2010, p. 36).

 

[Texto 5108]

Sobre «cochilo»

Ao certo, não se sabe nada

 

      «Donde, agora que o Partido Socialista acaba de eleger um líder novinho em folha, e que com altíssimas probabilidades vai ser o futuro primeiro-ministro, convinha que a comunicação social não permanecesse no seu cochilo, e começasse já hoje a fazer aquilo que é comum em qualquer país civilizado, mas que por cá só se faz tarde e a más horas: um escrutínio apertadíssimo do passado de
 quem quer ir viver para São Bento» («Passos, Costa e a falta de escrutínio», João Miguel Tavares, Público, 2.10.2014, p. 56).

      É brasileirismo — embora no Brasil não se saiba exactamente o que é. Para alguns autores, é vocábulo quimbundo, mas africanismo que já não é sentido como tal; para outros, é a «forma aportuguesada» de escrever «cuxilo», talvez alteração de «acutilar».

 

[Texto 5107]