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Linguagista

Sobre «sótão»

Quem diria

 

      Um regionalismo porventura pouco conhecido — mas com assento no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora — é sótão no sentido de... cave. Como o étimo de «sótão» é o hipotético *subtānu, que significa «que está debaixo de», ajusta-se perfeitamente, pois em cada uma das acepções, o sótão ou está debaixo do telhado ou debaixo do chão do primeiro pavimento.

 

[Texto 5226]

Sobre «tricotomia» e «dicotomia»

Tri.co.to.mi.a

 

      Ontem, para me distrair de uma tarefa mecânica, pus-me a ouvir, mais do que a ver, um daqueles 130 ou 150 canais ou lá quantos dizem que temos. Era um debate sobre temas económicos (os únicos, querem fazer-nos crer, que interessam) e um dos presentes usou a palavra «tricotomia», que raríssimas vezes é usada. Ora, embora pareça cunhada na nossa língua (ou copiada do inglês) por analogia com «dicotomia», a verdade é que vem do grego. O que me interessa, contudo, é isto: no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «dicotomia» é definida como a «divisão de uma coisa em duas, e assim sucessivamente». Não percebo este «sucessivamente», mas ainda compreendo menos que a definição de «tricotomia» seja «estado ou qualidade do que é tricotómico».

 

[Texto 5225]

Léxico: «coronógrafo»

Corta

 

    «O Proba-3 custará, no total, 200 milhões de euros e será lançado em 2017. A maior componente do satélite terá 340 quilos, chamando-se coronógrafo, e apontará para o Sol. A outra, de 200 quilos, será o ocultador e, como o nome sugere, vai tapar o Sol ao coronógrafo. Assim, o aparelho maior pode analisar e medir a coroa solar — a região luminosa em torno do Sol que fica particularmente destacada durante os eclipses» («Satélite europeu que vai estudar o Sol tem tecnologia portuguesa», Nicolau Ferreira, Público, 5.11.2014, p. 26).

      A segunda frase é para ✂. Não ficava melhor «A maior componente do satélite, designada coronógrafo, terá 340 quilos, etc.»? Não têm tempo para fazer bem, mas demoram mais a fazer mal. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não sabe o que é um coronógrafo.

 

[Texto 5224]

Amputações «minor» e «major»

Latim das Ilhas Britânicas

 

      «Também as amputações de membros inferiores atribuíveis à doença passaram de 1493 para 1556. Ainda assim, neste campo é positivo o facto de se estarem a fazer mais das chamadas amputações “minor” (apenas parte do pé) do que as chamadas “major” (todo o pé ou membro inferior)» («Há 400 mil portugueses que têm diabetes e não sabem», Romana Borja-Santos, Público, 5.11.2014, p. 14).

 

[Texto 5223]

Léxico: «tira-teste»

Não é para cavalos

 

      «Os preços máximos de venda ao público das tiras-teste e outros dispositivos para controlo da diabetes vão diminuir a partir de domingo. A descida tinha sido anunciada em 2013, mas foi suspensa por decisão judicial. Na portaria publicada ontem no Diário da República, que estabelece novos valores para os reagentes (tiras-teste) para determinação de glicemia e das agulhas, seringas e lancetas para pessoas com diabetes, os responsáveis justificam a diminuição dos valores “com a necessidade de se assegurar a sustentabilidade do SNS, de forma a garantir
a continuidade da prestação de cuidados de saúde às populações”» («Preços das tiras da diabetes diminuem», Romana Borja-Santos, Público, 5.11.2014, p. 14).

      Desconhecia o termo, como o desconhecem os dicionários. Parecido, conhecia um, tira-testa, que é a parte do arreio que assenta na testa do cavalo.

 

[Texto 5222]

Léxico: «porta de homem»

O trabalho escraviza

 

      «A porta de homem com o célebre slogan nazi “Arbeit macht frei” (o trabalho liberta) foi roubada do portão de entrada do antigo campo de concentração de Dachau, nos arredores de Munique, provavelmente na madrugada de domingo, já que a estrutura estava ainda intacta quando por ali passou, às 23h45, a última ronda de segurança efectuada antes de se constatar o furto» («Slogan nazi “o trabalho liberta” roubado do portão de Dachau», Catarina Gomes, Público, 5.11.2014, p. 29).

      Não está nos dicionários. É a porta inserida em portão — de garagem, de armazém, de quinta, de campo de concentração... Quanto ao mais, é claro que a palavra «slogan» seria aqui vantajosamente substituída por «lema». O «constatar» também era escusado, mas os falantes foram perdendo a noção de galicismo. Na Antena 1, quase não passa um dia sem que ouça um jornalista afirmar que alguém — normalmente um político — «detalhou» ou «não detalhou» isto ou aquilo. Claro que estes preferem não «detalhar» nada, porque de preto não me comprometo e se deixo isto em branco não dou o flanco.

 

[Texto 5221] 

Uma haplologia impossível

A não ser que...

 

      «“Não podemos todos?”, questiona o advogado, que chama ao seu cliente “pseudoente”. Mas na mesma avaliação psicológica Carlos é também descrito como “uma personalidade que se preocupa em dar uma impressão favorável em termos de saúde mental”» («Carlos processa médicos por ter sido dado como louco e internado à força», Catarina Gomes, Público, 5.11.2014, p. 13).

   Gralha ou haplologia amalucada? Desta vez, sabemos a resposta: distracção da jornalista. O advogado escreveu, e não uma, mas duas vezes, «pseudodoente». Ou será que a jornalista quis corrigir o advogado? Vamos ser caridadosos ⇢ caridosos e pensar que não.

 

[Texto 5220]