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Linguagista

Outra acepção de «tricotomia»

Infindável

 

      «A enfermeira [Dolores Sardo] não advoga o parto com dor, lembra que “há outras maneiras de parir”. “As pessoas não têm informação suficiente sobre as alternativas” à tricotomia perineal, aos clisteres, aos soros... Pouco ou nada sabem sobre os efeitos das massagens, dos banhos de água quente, por exemplo. “A maior parte dos profissionais não dá essa informação”» («Mulheres têm direito de escolher, de forma esclarecida, modo como querem ter filhos», Público, 5.05.2007, p. 10).

   Tem razão o leitor R. A.: esta é acepção que também falta nos dicionários. Esperem... o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora também não regista «rapagem»!

 

[Texto 5233]

Atinar com quem atila

Muito me contas

 

      «Papá, hoje aprendemos o a-til-o.» «Hã???» (Ai que me apanhaste em falso.) «A-til-o.» «Atiló? Nunca ouvi falar em tal coisa.» «Papá! A letra a com til e o: ão. Vimos quando é a-til-o e quando é -am.» «Ah, assim está bem. Mas é um excelente nome para um cão. Atiló, chega-lhe!» Hoje também fiquei a conhecer um nome, neste caso o título de um livro, curioso, de ressonâncias mágicas: Malompelo. Um «libro di preghiere in macúa e in parte in portoghese è utilizzato per la preghiera personale, familiare e comunitaria», distribuído pelos católicos de Moçambique logo depois da independência. Temos por aí algum moçambicano que se lembre disto?

 

[Texto 5232]

Léxico: «asterónimo»

Asterisco é estrelinha

 

      Há diversas formas, umas complexas, outras perigosas, de recuperar uma palavra-passe escondida por asteriscos. Acabei de usar uma: a instalação de uma extensão no Chrome, chamada Show Password on Focus. Logo depois de ver o que os asteriscos ocultavam, desinstalei-a. E a propósito de asteriscos: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista o vocábulo «asterónimo», o nome próprio substituído tipograficamente por asteriscos.

 

[Texto 5231]

AOLP90 em «contato»

Eu não disse?

 

      A estatística é de largos meses: não passam duas semanas sem que veja um mostrengo trazido pelo Acordo Ortográfico de 1990. Sim, há vários, entre os quais não incluo «rutura». É «contato» o mais repetido. Para se aquilatar da gravidade da situação, tenha-se em conta que vejo o disparate em textos de escritores, tradutores e jornalistas. Se vai ter consequências na pronúncia da palavra? Parece-me inevitável.

 

[Texto 5230]

«De (por) moto próprio»

Está dado o mote

 

   Do boletim informativo (ou newsletter, para os leitores menos conhecedores ou respeitadores do português) de hoje do jornal Observador, assinado pelo director: «Ainda lá atrás na cronologia dos factos, o jornal i conta que o ex-contabilista do Grupo Espírito Santo terá dado ao Banco de Portugal, ainda no verão de 2013, informação preciosa para o início da investigação – antes mesmo de Pedro Queiroz Pereira o ter feito por mote próprio

   Ora, já vimos mais de uma vez que há três formas de dizer correctamente isto: de moto próprio, por moto próprio e, para os que querem usar latim, motu proprio. Tudo o que seja diferente disto estará irremediavelmente errado.

 

[Texto 5229]

 

Iguais aos multipremiados

Então não

 

     Quanto mais próxima é a língua da nossa, paradoxalmente, mais erros há na tradução. Já vimos exemplos abundantes em estrelas — até então incontestadas — da tradução. Ontem, no Jornal da Tarde, pudemos ouvir José Ramón Arribas, o chefe da Unidade de Doenças Infecciosas do Hospital Carlos III, em Madrid, onde esteve internada a auxiliar de enfermagem que contraiu o ébola. «Lo podemos dar con la confianza de que estos pacientes ya no suponen, cuando se recuperan, ningún riesgo de contagio para las personas que les rodean.» Nas legendas, porém, apareceu isto: «Podemos dar-lha [alta] com a confiança de que estes pacientes já não correm – quando recuperam – nenhum risco de contágio para as pessoas que os rodeiam.»

 

[Texto 5228]

«Mau estar», escrevem

Como os clientes

 

      «O cidadão português
 diz que “não há qualquer receio” por parte da comunidade lusa em Timor-Leste de surgir algum
 mau estar em relação aos portugueses, embora acrescente que é prudente seguir as regras que a embaixada portuguesa na capital de Timor habitualmente recomenda, nomeadamente “não participar em actividades políticas ou discutir política local”» («Comunidade portuguesa está “tranquila”», L. A., Público, 6.11.2014, p. 5).

      O cidadão pode dizer assim, mas o senhor jornalista, para não parecer analfabeto, devia escrever «mal-estar». Um dia, porém, como já vaticinei no Assim Mesmo, ainda será norma, ou já é — porque «os falantes têm sempre razão».

 

[Texto 5227]