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Linguagista

Os «locais» e os «expatriados»

Modas

 

      Margarida Neves de Sousa, do Dubai, no Telejornal de ontem: «Aqui não há hospitais públicos. Os hospitais públicos são públicos, sim, para os locais; para todos os expatriados são hospitais privados, tal como os outros, eventualmente um pouco mais baratos, mas mesmo assim um preço pela saúde muito caro.»

 

[Texto 5248]

Sobre «zelota/zelote»

Como pode ser?

 

      É difícil de acreditar, mas aí está para quem o quiser comprovar: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista o vocábulo «zelota». Nada de grave, dir-me-ão, pois acolhe a variante «zelote». Então, ainda pior: o dicionário não acolhe o sentido religioso mais usado do termo, dando-o apenas como adjectivo e com estes significados: «diz-se daquele que finge ter zelo»; «beato falso; tartufo». Em Fevereiro deste ano, Fr. Bento Domingues, a propósito de O Zelota, livro de Reza Aslan, escrevia: «Quem eram, afinal, os zelotas? O vocábulo significa “gente caracterizada pelo zelo pela Lei”. Assim, sabemos que existiram sempre zelotas na história de Israel, desde o Exílio até ao ano I. O conceito genérico correspondia a um movimento sócio-religioso de defesa de um património religioso, nacional ou internacional, que se sentia em perigo. Nesse sentido, podemos dizer que hoje 
são zelotas os defensores fanáticos da sharia, ou lei islâmica, os fundamentalistas muçulmanos e também podem ser designados como zelotas, os membros de alguns grupos integristas católicos. Mais em concreto, entendemos por
 zelotas os membros do movimento religioso
 e político, de resistência anti-romana, começado por Judas, o Galileu, no ano VI d.C. Os seus seguidores estão ligados por uma doutrina de fundo, meramente farisaica, da escola de Samay, vivida de forma radical nos seus aspectos sociais e políticos. Esta ideologia concretizava-se no movimento nacionalista, militante e fanático, que Flávio Josefo chama a “quarta filosofia” (seita/partido) dos judeus. Os outros três movimentos são os saduceus, fariseus e essénios. Tinham um lema que os orientava nas suas acções: Israel não pode admitir nem honrar ninguém como rei ou senhor, além do Deus único» («Quem são os zelotas», Público, 23.02.2014, p. 53).

 

[Texto 5247] 

Minas: «antipessoal» ou «antipessoais»?

Combateremos o solecismo

 

      «Mesmo sem violar nenhum deles, podia-se ver que estavam repletos de metralhadoras, pistolas, granadas, minas antipessoal, munições de vários calibres e qualidades» (Combateremos a Sombra, Lídia Jorge. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2013, 3.ª ed., pp. 182-83).

    A pergunta é muito, muito simples: respeitamos a gíria militar ou respeitamos a gramática? Não podemos servir dois amos.

 

[Texto 5245]

Tradução: «wishful thinking»

Chega?

 

   «A expressão idiomática inglesa wishful thinking, não tendo uma [✂] tradução directa para a língua portuguesa, exprime a ideia de alguém que toma os desejos por realidades e toma decisões ou segue raciocínios baseados nesses desejos, em vez de os suportar em factos ou na racionalidade» («Wishful thinking?», Miguel Coelho, Público, 9.11.2014, p. 30).

    Tem então apenas tradução indirecta, por intermédio de outra língua, por exemplo? Não quereria antes dizer que não tem tradução inequívoca, ou única, ou algo semelhante? Se usarmos uma expressão idiomática, o problema fica ultrapassado? Promete? Então, ei-la: «doce ilusão». Ou, como na própria formulação do autor: «tomar os desejos por realidade»/«confundir os desejos com a realidade».

 

[Texto 5244]

«E porque não «Putine»?

Aqui não seria uma mulher da vida

 

      «Como nos bons tempos
 de Estaline, Putin
 disse anteontem a
 uma assembleia de “historiadores” bem obedientes que não havia nada de errado no Pacto entre Hitler e a URSS. Ou, por outras palavras, Putin declarou guerra ao Ocidente no próprio dia em que se festejava em Berlim a queda do muro» («A História segundo Putin», Vasco Pulido Valente, Público, 9.11.2014, p. 64).

      Não, aqui não é nenhum erro de Vasco Pulido Valente (que, caramba!, até escreveu «História» com maiúscula... Ou não: o título não deve ser dele. No último parágrafo, escreveu: «Voltando a Putin, a inversão da história que ele fez perante
 a assembleia, etc.»). Trata-se antes de reflectir se se justifica aquela diferença na forma como escrevemos os dois nomes russos. No mundo francófono, como sabem, escrevem Poutine, o que nos levaria a escrever Putine. Claro que eles o fazem, provavelmente, para escapar ao Putin ⇢ Putain. Nós é que não temos esse problema, e por isso podíamos (devíamos?) adoptar a grafia «Putine».

 

[Texto 5243]

«Insígnia» por «condecoração»

Sinónimos, sim, mas...

 

      «A propósito da notícia publicada no PÚBLICO (1.11.2014), sob o título “Durão vai ter a mais alta insígnia de Portugal”, um leitor, esclarecido nesta matéria de condecorações, rectifica o seguinte:

      1 – A mais alta condecoração portuguesa é a Ordem da Torre Espada, do Valor, Lealdade e Mérito e não a Ordem do Infante Dom Henrique (consultar a pertinente legislação, sendo esta última a quinta Ordem, na pertinente precedência). 2 – As insígnias de Portugal constam da nossa Bandeira e não se conferem – pela sua própria natureza – a quem quer que seja (cf. erróneo título do artigo). 3 – O autor deveria querer mencionar “a mais alta condecoração de Portugal” em vez de “insígnia”. As insígnias são antes a mera materialização física – bandas de seda, colares, medalhas, placas – de específica condecoração» («Correio leitores/provedor», José Manuel Paquete de Oliveira, Público, 9.11.2014, p. 62).

      Na altura, reparei nisto, mas acabei por não dizer nada. Não podia, por isso, perder esta segunda oportunidade.

 

[Texto 5242]