02
Fev 15
02
Fev 15

Tradutores, precisam-se

É grego

 

      «Foi Cícero quem primeiro aconselhou o mundo a não fazer traduções literais, “palavra por palavra”. Quando
 isso acontece, o resultado pode ser catastrófico. No mínimo, gera confusão. O novo ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, mal começou as suas funções — e mal começou a falar — e já gerou controvérsia universal. O que disse exactamente quando caracterizou a troika em grego? […] Os estrangeiros que dominam o grego descrevem a língua como emotiva, visceral e apaixonada. Os gregos gostam de dizer que têm palavras intraduzíveis. O exemplo clássico é philotimo [φιλότιμο], que vem de filos (amigo) e timi (honra) e que quer dizer algo entre fazer o bem, mesmo quando colocamos [sic] a nossa vida em risco, decência, dignidade, respeito, verdade, sinceridade, sentido de dever, coragem, amor pela família, sacrifício pessoal, generosidade, honra. “Não tens philotimo?” ou “Quanto philotimo tens?” são perguntas que se fazem no dia-a-dia para motivar uma criança a fazer os TPC, numa situação de guerra ou simplesmente para alguém parar de fazer barulho» («Lost in Greek», editorial, Público, 2.02.2015, p. 43).

 

[Texto 5521]

Helder Guégués às 10:30 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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01
Fev 15

Entre dois acordos

A Syriza em cima do bolo

 

  «E a instantânea coligação governamental do Syriza com uma agremiação xenófoba e antissemita prova que a dissonância é afinal imaginária. […] Quanto ao secretário-geral do PS, que em matéria de convicções adoptara um voto de silêncio beneditino, abriu o coração para nos informar que a vitória do Syriza “dá força para seguir a mesma linha”» («O berço da demagogia», Alberto Gonçalves, Sábado, 29.01-5.02.2015, p. 90).

    Com acordo ou sem acordo? Já não nos podemos fiar de ninguém. Deixam a ortografia moribunda, entre cá e lá.

 

[Texto 5520]

Helder Guégués às 23:39 | comentar | favorito
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Sobre «azulejo»

É isso mesmo

 

   «Azulejo é palavra que entra no vocabulário de qualquer roteiro turístico do nosso país e é visto como uma das mais originais produções portuguesas. Está connosco há seis séculos e, apesar de breves períodos de aparente ausência, promete continuar. Embora a palavra “azulejo” pareça uma associação à pintura azul-cobalto, a origem do termo está no árabe, azzelij, que significa pequena pedra polida, usado para designar o mosaico bizantino. O azulejo é constituído por duas partes; pela sua massa de barro que lhe dá a forma, geralmente quadrada, e a superfície vidrada que lhe dá cor e brilho» («Portugal em quadradinhos», Isabel Gorjão Henriques, «2»/Público, 1.02.2015, p. 26).

     Apesar de os azulejos, em Portugal, nos séculos XVII e XVIII, serem de fundo branco com pinturas a azul, a etimologia nada tem que ver com cor, como já Orlando Neves lembra no seu Dicionário da Origem das Palavras. Estranho, estranho é ver muita gente, e sobretudo tradutores, a confundir azulejo com mosaico, tecto com telhado e o cu com as calças. Mil perdões.

 

[Texto 5519]

Helder Guégués às 23:07 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Como se escreve nos jornais

É como se vê

 

      «No dia 10 de Fevereiro, Manuel Baltazar, conhecido como “Palito”, começará a ser julgado pela morte da tia e mãe da sua ex-mulher, Angelina, e por ter disparado contra ela e contra 
a filha. Angelina vive no medo de que ele regresse. Só no ano passado morreram 40 mulheres vítimas de violência doméstica» («Crónica de um crime anunciado», João Bonifácio, «2»/Público, 1.02.2015, p. 16).

      Isto é inconcebível. Isto, estas relações, esta escrita... Com a opinião do professor na Universidade de Exeter, é capaz de nos estragar o domingo.

 

[Texto 5518]

Helder Guégués às 12:02 | comentar | favorito
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«Alcorão/Corão»

E pronto, é a opinião possível

 

      Um leitor do Público queixou-se ao provedor por o jornal grafar «Corão» em vez de «Alcorão». Vai daí, o «Comentário do provedor: Não me parece expressão de acto impensado ou “inculto”. Consultei o “alfabeto” do Livro de Estilo
do PÚBLICO e, aí, os dois termos são referidos: Corão - “Há quem considere esta grafia desnecessariamente ultracorrigida. Refira-se, no entanto, que há um autor de um dicionário, professor de Civilização Árabe e Islâmica na Universidade inglesa de Exeter, que cita a palavra árabe original sem o artigo (Qur’an e não al-Qur’an). Cf. Dicionário Islâmico, Religiões, pp. 259.”» («Alcorão/Corão», José Manuel Paquete de Oliveira, Público, 1.02.2015, p. 53).

 

[Texto 5517]

Helder Guégués às 11:51 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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01
Fev 15

Descontraia, homem

Isso passa

 

       «O dr. Ricardo Salgado resolveu envolver o Presidente da República, o primeiro-ministro e o vice-primeiro-ministro na suspeita e obscura falência do banco e do grupo Espírito Santo; e numa carta 
à comissão parlamentar de inquérito anunciou que tinha falado com os três muito antes do desastre se consumar» («Voto de não-confiança», Vasco Pulido Valente, Público, 1.02.2015, p. 56).

      Inspire, expire, conte até três, descontraia: «muito antes de o desastre se consumar». Bom domingo.

 

[Texto 5516]

Helder Guégués às 11:42 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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