02
Mar 15

Léxico: «bolo do caco»

Pão, pão, queijo, queijo

 

      «Já não são poucas as hamburguerias no Porto, mas ainda faltava um espaço que servisse os seus hambúrgueres no tradicional bolo do caco» («Hambúrgueres no caco», Luísa Marinho, «Tentações»/Sábado, 26.02.2015, p. 15).

      Agora já há: é a Tasquinha do Caco, no Passeio de São Lázaro. Mas quanto ao que nos interessa: bolo do caco não está em nenhum dos dicionários que aqui tenho, e porventura em nenhum outro. Bolo é só de nome, pois é um pão redondo e achatado, de farinha triga, por vezes com batata-doce, mal cozido e com pouco fermento, típico da Madeira. O nome vem de ser cozido num assador de barro, conhecido por caco, pois claro, mas também se pode cozer numa frigideira (seria então a nossa pancake, bolo de frigideira) directamente sobre a cinza ou sobre brasas, como Paulo Moreiras ensina no seu excelente Pão & Vinho (Dom Quixote, 2014). Agora marchava um com manteiga de alho.

 

[Texto 5623]

Helder Guégués às 23:43 | comentar | favorito | partilhar

Léxico: «benzoca»

Gente fina

 

      «Ele não tomava a iniciativa para nada – já lhe disse que sempre fui o homem de tudo. Ele era um menino muito benzoca, com olhos muito azuis e espadaúdo» (Graça Lobo, em entrevista a Raquel Lito. «“Ninguém se apaixona por mim, sou demasiado velha”», Sábado, 26.02.2015, p. 68).

      A última vez que a vira foi na obra Desejos de Chocolate, de Trisha Ashley, traduzido por Maria João Freire de Andrade (Quinta Essência, 2010), para verter «terribly grand people».

 

[Texto 5622]

Helder Guégués às 23:04 | comentar | favorito | partilhar
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Léxico: «subdotado»

Pode fazer falta

 

      «Acho que ninguém, nem sequer o dr. Noronha do Nascimento, me irrita tanto quanto Meryl Streep. Não sei se por ser sobrevalorizada enquanto actriz, ou subdotada enquanto pessoa» («Mamma Mia!», Alberto Gonçalves, Sábado, 26.02.2015, p. 90).

 

[Texto 5621]

Helder Guégués às 22:55 | comentar | favorito | partilhar
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Ortografia: «superjuiz»

Casos perdidos

 

   «Embora admitindo que alguns dos artigos publicados sobre a detenção do banqueiro indiciavam violação do segredo de justiça — não sendo o caso do trabalho do jornalista da Visão, que, naquela altura, nem sequer escreveu sobre este tema —, a procuradora encarregue [sic] deste inquérito acabou por arquivar o processo, até por o denunciante desconhecer o teor das respostas dadas por Ricardo Salgado durante o interrogatório. Este não será o único processo do super-juiz envolvendo violação do segredo de justiça» («Denúncia anónima acusou juiz Carlos Alexandre de violar segredo de justiça», Ana Henriques, Público, 2.03.2015, p. 6).

   Ana Henriques, então não é superjuiz que se escreve, tal como superjornalista? Claro que isto de «superjuiz» é parvoíce da comunicação social, mas ainda pior é escreverem com erros.

 

[Texto 5620]

Helder Guégués às 15:10 | comentar | favorito | partilhar
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02
Mar 15

Léxico: «refeiçoar»

Como Castilho

 

      «Tal como as restantes testemunhas, [Carlos Alexandre] foi obrigado a jurar que falaria verdade e advertido de que, caso o não fizesse, incorria em multa ou mesmo em prisão. Prescindindo do direito de se fazer acompanhar por um advogado, disse à magistrada que o interrogou que nunca tinha “refeiçoado” com os jornalistas em causa, à excepção do da Visão, com quem não viu nenhum inconveniente em almoçar» («Denúncia anónima acusou juiz Carlos Alexandre de violar segredo de justiça», Ana Henriques, Público, 2.03.2015, p. 6).

 

[Texto 5619]

Helder Guégués às 14:40 | comentar | ver comentários (6) | favorito | partilhar
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01
Mar 15

Que molhos são estes

Fica-lhe muito mal

 

      Senhora Eng.ª Daniela Rosa: não diga «mólhos» quando se refere aos preparados de consistência cremosa fabricados pela sua empresa, a Mendes Gonçalves. Diz-se /môlho/môlhos/. Homógrafa (isto é, palavra com a mesma forma gráfica — é tudo molho/molhos —, mas com forma fonética, acentuação e significado diferentes) desta é /mólho/mólhos/, isto é, punhado, feixe, braçado, paveia.

 

[Texto 5618]

Helder Guégués às 21:58 | comentar | favorito | partilhar
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«Grívnia»?

Quem fez isto?

 

   Vi ontem, pela primeira vez, o nome em português da unidade monetária da Ucrânia, grívnia. Foi, para maior espanto, numa legenda na televisão, na RTP1. É um aportuguesamento, claro, porque em cirílico é гривня, que habitualmente se vê transliterado hryvnia (e cujo símbolo é ₴). É como se vê, por exemplo, no Código de Redacção Interinstitucional e no sítio do Banco Nacional da Ucrânia. Ora, se aquela sequência inicial nos é totalmente desconhecida, o certo é que, quando ouvimos um natural da Ucrânia a pronunciar a palavra, não se percebe nada de parecido com «grívnia». Ou será que tenho de consultar um otorrino? Talvez precise, pois no dicionário da Real Academia Espanhola também está «grivna»: «grivna. ‘Unidad monetaria de Ucrania’: «Dobló las pensiones de 150 a 300 grivnas» (Mundo@ [Esp.] 30.10.04). Es voz femenina. Deben evitarse otras grafías, como jrivnia o hryvnia, ajenas al sistema gráfico español.»

 

[Texto 5617]

Helder Guégués às 13:26 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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Léxico: «abafar»

Conheciam esta acepção?

 

      «Já consegue falar sobre o assunto sem pestanejar. Passava pouco das 8 da manhã. O carro abafou em Ermesinde, na A4. “Saí. Dirigi-me à traseira para colocar o triângulo. Fui atropelada. Estive 18 dias em coma. Quando acordei, não tinha uma perna.”» («Amputados precisam de alguém que lhes diga que o mundo não acabou», Ana Cristina Pereira, Público, 1.03.2015, p. 12).

 

[Texto 5616] 

Helder Guégués às 10:37 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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01
Mar 15

«Excusatio non petita...»

...«accusatio manifesta»

 

      Tenho de passar a seguir as coisas do futebol com mais frequência, pois agora os treinadores até já usam adágios latinos — só um pouco errados: «“Eu não falei das arbitragens. Estão confundidos. Falei de azar, nada mais. E não me dirigi a nenhuma equipa, mas apenas uma respondeu”, disse Julen Lopetegui, antes de soltar a expressão latina “Excusatio non petita, culpabilita manifesta”, que pode traduzir-se como “quem se desculpa sem ter sido acusado, culpabiliza-se”.

      Só que a expressão não é a correcta, embora o seu sentido seja. O que Lopetegui deveria ter dito seria: “Excusatio non petita, accusatio manifesta”» (in Público).

      A emenda está certa. Estamos habituados a ver o latim estropiado, sobretudo por incompetência dos jornalistas, mas desta vez algum teve discernimento para ir comprovar.

 

[Texto 5615]

Helder Guégués às 10:11 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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