03
Mai 15
03
Mai 15

Léxico: «maioral»

Por favor, imitem-no

 

    «À volta de 5000 maiorais do nazismo também 
se mataram para escapar às mãos do exército aliado, que sabiam determinado a fazer alguma justiça. Os “notáveis” conseguiram escapar e uma 
dúzia acabou em Nuremberga, onde a julgaram e acabaram por enforcar. Entretanto, e para bem da humanidade inteira, desabava um mundo, que felizmente jamais será possível reconstituir» («A morte de Hitler», Vasco Pulido Valente, Público, 3.05.2015, p. 56).

    Em vez de líderes, essa praga (com seus cognatos) que se abateu sobre a língua, Vasco Pulido Valente encontrou um termo lidimamente português, maioral, para dizer o mesmo. E já na crónica do 1.º de Maio a usara: «Não percebe ele que a sua própria candidatura, fabricada por meia dúzia de maiorais do PS, à revelia dos portugueses (que nem o conhecem), é o mais grave e humilhante sinal da “degradação da nossa vida pública”?»

 

[Texto 5813]

Helder Guégués às 11:30 | comentar | ver comentários (10) | favorito
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02
Mai 15

«Avenca», «adianto»

Muitos nomes

 

      «“Vamos descer”, informa Andreia, enquanto distribui alguns guias de campo para os alunos poderem explorar melhor a natureza do local. No curto areal, e de costas voltadas para o mar, observam as escorrências de água doce nas arribas calcárias onde, nas fendas mais húmidas e sombrias, cresce uma planta que dá o nome à praia — a avenca (Adiantum capillus-veneris), uma espécie de feto» («Há um mundo de pequenos seres escondido na praia das Avencas», Sara Ferreira, Público, 2.05.2015, p. 14).

      Como em tantos outros vocábulos, lá está o a protético, porque em latim é vinca. Do nome científico, também temos adianto e avenca-cabelo-de-vénus. A tia Vitória, no Primo Basílio, «ia, vinha, cochichava, gesticulava, fazia tilintar dinheiro, tirando a cada momento da algibeira rebuçados de avenca para o catarro». Em Aquilino também há rebuçados de avenca, mas em Aquilino encontramos todas as palavras da língua portuguesa; o seu equivalente no Brasil é Pedro Nava, dono de um léxico ímpar.

 

[Texto 5812]

Helder Guégués às 14:56 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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02
Mai 15

«Elvar, elixir, eldorado»

Desconhecidas dos dicionários

 

      «O INIAV [Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária] de Elvas criou três variedades tradicionais específicas (elvar, elixir e eldorado) que se adaptam ao Mediterrâneo, região onde “chove quando não faz falta e quando a temperatura sobe, sobe muito”, detalha Benvindo Maçãs» («Franceses compram em Portugal variedade única de grão-de-bico», Ana Rute Silva, Público, 2.05.2015, p. 20).

      É pena é os dicionários não acolherem estes nomes, com o que se perdem conhecimentos. E lá está o «detalha», agora em grande voga, sobretudo na rádio.

 

[Texto 5811]

Helder Guégués às 09:12 | comentar | favorito
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01
Mai 15

«Subumano» e «subepático»?

Aqui, dormitaram

 

    O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras (ABL) regista sub-humano e... subumano, assim como sub-hepático e... subepático. Também o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, na grafia antes do AOLP90, regista as grafias sub-humano e subumano. É verdade que temos desumano e inumano, das quais o h desapareceu, mas, ainda assim, causa estranheza. Tendo em conta (e que outra coisa podíamos ter em conta?) a Base XVI, seria apenas sub-humano e sub-hepático. A ABL tem necessariamente de rever estes verbetes e quem usa estas grafias deve passar a usar a cabeça.

   Segundo o Acordo Ortográfico de 1945, emprega-se o hífen nos compostos formados com o prefixo sub (ou sob), «quando o segundo elemento começa por b, por h (salvo se não tem vida autónoma: subastar, em vez de sub-hastar)». Então, humano e hepático não têm vida autónoma?

 

[Texto 5810]

Helder Guégués às 20:51 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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«Iniciativas cidadãs»

Já lá está

 

      «Se logo após o final da guerra se decidiu que era preciso ter uma instituição que assinalasse o percurso nazi da capital bávara, o museu que agora abre teve um percurso demorado — após várias iniciativas cidadãs nos anos 1970, foi finalmente aberto um concurso em 1991» («Munique enfrenta o seu passado nazi com abertura de museu», Maria João Guimarães, Público, 1.05.2015, p. 23).

    Entrou em alguns dicionários, para já, ainda sub-repticiamente: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolhe a locução «jornalismo cidadão». É o princípio.

 

[Texto 5809]

Helder Guégués às 14:35 | comentar | ver comentários (1) | favorito
01
Mai 15

Em francês, mas disfarçado

Não é intocável

 

      «Agora, a ideia é fazer o mesmo com o país: a tradição ajuda. Soares como Sampaio estão ali para o trabalho sujo. Sampaio com o vácuo de uma cabeça onde nunca entrou nada; Soares com ar rusé, que de quem continua a puxar os fios da intriga. E Manuel Alegre com a sua insofrível jactância e pretensão moral» («Degradação», Vasco Pulido Valente, Público, 1.05.2015, p. 52).

      O cronista não encontrou nada de remotamente semelhante ao francês rusé. (E que mau hábito este jornal não grafar os termos estrangeiros em itálico!). Mas rusé é simplesmente astuto, manhoso, matreiro... Aquele «que de quem» demonstra que o autor não releu o texto. Aliás, que ninguém o fez.

 

[Texto 5808]

Helder Guégués às 14:11 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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