10
Jun 15

Ortografia: «mazagrã»

Vai alta a noite

 

      «Alguns pedem o café sem princípio, outros com gelo e limão – um mazagran» («O culto do café», Ricardo J. Rodrigues, Notícias Magazine, n.º 1201, 31.05.2015, p. 9).

     Até parece competição para estabelecer quem descaracteriza mais a nossa língua. Desde quando deixou de ser mazagrã? «Sentou-se no terraço e pediu ao velho Manuel, da libré surrada, que lhe trouxesse um mazagrã» (Vai Alta a Noite, Alexandre Pinheiro Torres. Lisboa: Editorial Caminho, 1997, p. 173).

 

[Texto 5962]

Helder Guégués às 19:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Ortografia: «estromboliano»

Estranho ou stranho?

 

   «Na década de 1960, grupos de exploradores da Associação “Os Montanheiros” desbravaram, com suor e aventuras arriscadas, esta estrutura testemunha de uma erupção stromboliana» («O algar do Carvão», Gonçalo Pereira, National Geographic, n.º 181, Junho de 2015, p. 16).

    Relativo ao vulcão Estrômboli, nas ilhas Líparas, Itália, o adjectivo é estromboliano. Afinal, a sequência inicial st é ou não é estranha à nossa língua?

 

[Texto 5961]

Helder Guégués às 18:09 | comentar | favorito
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«Súper à vontade»

Se tem mesmo de ser...

 

      Lá tinha de me calhar também esta. «Estavam os três na cama, super-à-vontade.» Super-à-vontade em Albergaria-a-Velha. E agora, que fazemos? Outra redacção. «Ah, ela falou dessa maneira; tenha paciência, mas não se pode alterar.» Como advérbio, é súper que os dicionários registam. Juntamente com a locução adverbial, dará súper à vontade.

 

[Texto 5960]

Helder Guégués às 12:47 | comentar | favorito
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«Colóide/quelóide»

Como se não houvesse dicionários

 

      Aqui não há ínguas, mas pior do que isso: cancro maligno na mama. Depois de várias operações, «cicatriza mal e cria colóides». Colóides são substâncias, como a maionese, a gelatina ou o leite, que têm no seu interior partículas dispersas de tamanho ultramicroscópico. Quem escreveu a frase pretendia dizer quelóides, que são hiperplasias de tecido fibroso cicatricial (ver aqui). É claro que só quem conhece mal as coisas é que confunde.

 

[Texto 5959]

Helder Guégués às 12:08 | comentar | favorito
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Ortografia: «verosímil»

Assim se educam as massas

 

   Foi ontem de manhã, num noticiário da Antena 1. Um desses advogados frequentemente chamados para darem opiniões sobre isto e aquilo proferiu, a propósito da pulseira electrónica e de Sócrates, um sonoro «verosímel». Não há aqui mel: diz-se verosímil ou, no Brasil, verossímil. (No Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras, também verosímile/verossímile, que vejo pela primeira vez.) Como é que um advogado fala assim? Deve ser com estes que as tais testemunhas aprendem a dizer que a vítima «já estava em certidão de óbito».

 

[Texto 5958]

Helder Guégués às 09:40 | comentar | favorito
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Cíbele

Corrente mas inexacta

 

    Esta, a última por agora, é dedicada ao espertalhão do Herudito: «De um lado havia os templos de Vénus e Cibele e mais adiante o de Júpiter, atualmente Baptistério de São João» («Split, a Pérola do Adriático», Eles & Elas, n.º 288, Junho/Julho de 2015, p. 78).

    Não é só escrever, temos de procurar, todos os dias, saber um pouco mais. É Cíbele, proparoxítona.

 

[Texto 5957]

Helder Guégués às 01:12 | comentar | favorito
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É-se da Parada ou não se é nada

Se há pior? Digam-me os leitores

 

      «Centro da vida social e desportiva das elites, o club [sic] situava-se nos terrenos da antiga Parada da Cidadela o que determinou a designação pela qual ficou conhecido: a Parada. Mas o seu verdadeiro nome era “Real Sporting Club de Cascaes” e surgiu por iniciativa do então Príncipe Carlos - Futuro Rei D. Carlos I - a 15 de outubro de 1879. Quem era alguém tinha obrigatoriamente que fazer parte e daí se dizer na altura: “É-se da Parada ou não se é nada”» («É-se da Parada ou não se é nada», Eles & Elas, n.º 288, Junho/Julho de 2015, p. 82).

      Só conhecia «É-se da Parada ou não se é da Parada», mas reconheço que aquela tem muito mais piada. Também neste artigo pontuação e ortografia não são deste mundo: «Foi este club berço da práctica de dois grandes desportos nacionais: o ténis e o futebol.» E, para rematar, que o serão vai longo (mas entretanto estive duas horas num espéctaculo de dança): «Terá Guilherme [Pinto Basto] trazido a primeira bola de futebol para Portugal e o primeiro jogo – com foto que o prove – toma lugar na Parada num Domingo solarengo de Outubro de 1888.» Um mimo. Eles e elas.

 

[Texto 5956]

Helder Guégués às 00:56 | comentar | favorito
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10
Jun 15

Ínfia, íngua, ínsua...

Quero ser indemnizado

 

  Se fosse só a ortografia, mas esta já é uma nódoa grande no artigo, com a «arquitectura», «exactamente», «Baptistério» e «arquitectónicas», além do «projecto». Alguma pontuação deixa-nos de cabelos em pé, assim como a colocação dos clíticos. Há frases que só com muito boa vontade (mas esta esgotou-se com tudo o que ficou para trás) podemos dizer que significam alguma coisa. E depois temos disparates como este: «Na ilha de Brac fica aquela que é considerada a mais bela praia da Croácia: uma íngua de areia branca com águas cristalinas dos dois lados» («Split, a Pérola do Adriático», Eles & Elas, n.º 288, Junho/Julho de 2015, p. 79).

   No Colégio Militar há o Pátio da Ínfia; íngua é um bubão nas virilhas, como na peste bubónica; o esforçado autor do artigo queria talvez escrever «ínsua», que é uma ilhota de areia na foz de um rio.

 

[Texto 5955]

Helder Guégués às 00:23 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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