25
Jun 15

«Per se/per si»

Fica para a 2.ª edição

 

      «“Per si” não existe no português», escreve Manuel Monteiro, autor do novíssimo Dicionário de Erros Frequentes da Língua (Soregra, 2015, p. 147). «Existe, sim», continua, «a expressão latina per se, que significa “por si”.» Permita-me, caro colega, discordar. Supõe-se que a locução primitiva, em português, foi per si, correspondente à latina per se, e com o significado de «por si», «só por si» e «de si», «já de si». No decurso do tempo, por contaminação sintáctica destas últimas locuções, passou a ler-se, aqui e ali, «de per si». É esta, e só esta, a incorrecta, e mesmo assim foi usada por escritores modelares como Herculano.

 

[Texto 5999]

Helder Guégués às 18:59 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Tradução: «charred wood-clad»

E não vai cair, essa torre-farol?

 

      «Na terça-feira soube-se como vai ser o futuro Museu Guggenheim projectado para a frente portuária daquela cidade báltica: um conjunto de módulos rectangulares e uma torre-farol em madeira carbonizada e vidro, da autoria da dupla franco-japonesa Nicolas Moreau e Hiroko Kusunoki, um casal que abriu o seu próprio atelier em Paris em 2011» («O novo Guggenheim vai ser assim, se Helsínquia deixar», Kathleen Gomes, Público, 25.06.2015, p. 36).

   «Madeira carbonizada»? E a torre-farol não se desmorona? Em inglês, está «charred wood-clad», e charred é, de facto, reduzir a carvão, carbonizar... mas também chamuscar. Silas Martí, repórter de artes plásticas e arquitectura da Folha de S. Paulo, escreve que é «madeira negra, um material típico da Finlândia». O que também é, convenhamos, equívoco. Já «enegrecida» ou «chamuscada» seria mais preciso. Veremos o que a imprensa diz nos próximos tempos.

 

[Texto 5998]

Helder Guégués às 15:22 | comentar | favorito
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25
Jun 15

O uso de «por quê» e «pelo quê»

Não pergunto assim

 

   «Quando se olha para o acordo proposto pelos gregos, a grande pergunta é: mas, afinal, tudo isto serviu para quê? A Grécia andou seis meses a lutar e a definhar pelo quê?» («Seis meses a lutar pelo quê?», João Miguel Tavares, Público, 25.06.2015, p. 56).

   Então é assim que se pergunta, João Miguel Tavares? Parece-me pouco natural. Deve ter-se esquecido de que além de porquê temos por quê. «Seis meses a lutar por quê?», equivalente destoutras: «Seis meses a lutar por que causa?»/«Seis meses a lutar por que coisa?»

 

[Texto 5997]

Helder Guégués às 15:18 | comentar | favorito
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24
Jun 15
24
Jun 15

Ortografia: «haurir»

Haustos de cultura

 

      «Vim em peregrinação a esta casa para aurir do espírito, etc.» Eu não estou sempre a recomendar que, quando se usam palavras que não são do dia-a-dia, se deve consultar um dicionário? Temos aurir, mas significa fugir alucinadamente; perder a razão, alucinar. Quanto a haurir, que devia estar ali naquela frase, poucas vezes lhe pus a vista em cima, e apenas na poesia. É verbo defectivo, conjuga-se apenas nas formas em que ao radical se segue e ou i. Significa retirar da profundeza, extrair, sorver. Mais comum é o substantivo «hausto».

      «Sorve-o ainda, num arranco, num hausto, num quase riso de triunfo, ao mesmo tempo que a derradeira azagaiada lhe trespassa, seca, o coração» (A Menina Elisa e Outros Contos, Guilherme de Melo. Lourenço Marques: Associação dos Naturais de Moçambique, 1960, p. 23).

 

[Texto 5996] 

Helder Guégués às 08:19 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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23
Jun 15
23
Jun 15

«Valeroso/valoroso» e «temeroso/temoroso»

Não se percebe

 

      Gostava de saber porque é que no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora a respeito de valeroso se diz que é «antiquado» e se remete para valoroso e quanto a temeroso e temoroso não se faz o mesmo, quando se trata exactamente do mesmo, formas dissimiladas.

 

[Texto 5995]

Helder Guégués às 11:24 | comentar | favorito
22
Jun 15
22
Jun 15

Léxico: «Antropoceno»

Adiantou-se?

 

   «Mas terá toda esta publicidade sobre 
o Antropoceno algum fundamento? No que diz respeito à ciência, teremos que esperar pelo veredicto final. A história do termo remonta a um artigo que o químico e vencedor do Prémio Nobel Paul Crutzen escreveu com Eugene Stoermer em 2000, defendendo que, devido às enormes transformações provocadas no planeta pelos seres humanos, a nossa era geológica deveria ser chamada “Antropoceno”, ou seja, a era dos humanos» («O Antropoceno veio para ficar?», Patrícia Vieira, Público, 22.06.2015, p. 46).

   Deveria? Alguns dicionários, como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, já regista o termo, e diz: «período mais recente na história da Terra, em que as actividades humanas começaram a ter um impacto global significativo no clima do planeta e no funcionamento dos seus ecossistemas».

 

[Texto 5994]

Helder Guégués às 14:53 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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21
Jun 15

Léxico: «hindi»

Uma visão do futuro

 

      «Na língua hindu», escreve o autor, não sei quê significa tal. E é assim, convicções de anos, décadas. Agora vai ficar a saber que o nome da língua indo-ariana falada por 70 % dos Indianos é o hindi (ou híndi). Língua actualmente, mas quando o sânscrito era a língua do escol indiano, não passava de dialecto do povo. Mas hindu... Bem, pode ser que exista no futuro: dada a semelhança entre o hindi e o urdu, vários linguistas já propuseram a fusão das duas línguas com o nome de... hindu. Há erros assim.

 

[Texto 5993]

Helder Guégués às 20:47 | comentar | favorito
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21
Jun 15

Parentes e afins

A sorte faz parentes

 

      «Parente por afinidade», lê-se por vezes nas palavras cruzadas do jornal Público e ouve-se nas conversas do dia-a-dia. Está errado, pois ou se é parente ou se é afim de alguém. A afinidade, como se sabe, mas convém recordar, é o vínculo que liga cada um dos cônjuges aos parentes do outro. Vejam este «calculador de parentesco (Portugal)»: lá está o primo em 2.º grau, designação que, para evitar equívocos, se deve substituir por primo segundo. E faz bem em acrescentar que é assim em Portugal, pois não é igual em todo o lado, ao que os tradutores têm de estar atentos. Por exemplo, os first-degree relatives na Grã-Bretanha coincidirão inteiramente com os nossos?

 

[Texto 5992]

Helder Guégués às 15:32 | comentar | favorito
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