19
Jul 15

Ortografia: «pudico»

Já é tempo

 

    «E porque é que eu deveria ser proibido de considerar que o horrendo e insultante libretto de Tchaikovsckii não é salvo por música cujas púdicas banalidades me perseguiram desde que era uma criança de caracóis num camarote de veludo?» (Opiniões Fortes, Vladimir Nabokov. Tradução de Carlos Leite. Lisboa: Relógio D’Água, 2015, p. 249).

     Não tem acento — porque não é proparoxítona, mas paroxítona, grave, como 70 % das palavras portuguesas. E eu que pensava que, por esta altura, pelo menos tradutores e revisores sabiam isto. Francisco Silveira Bueno tem uma explicação para o erro: «Em geral, o povo, quando encontra palavra desconhecida, dá-lhe sempre acentuação proparoxítona por parecer-lhe que assim será mais correto: púdico, metropólita, ávito, élite, Salâmina, etc. A acentuação correta, paroxítona, de tais vocábulos nunca lhe soaria aos ouvidos como urbana e, sim, rústica» (Estudos de Filologia Portuguêsa. São Paulo: Edição Saraiva, 6.ª ed., 1967, p. 57).

 

[Texto 6072]

Helder Guégués às 20:48 | comentar | ver comentários (22) | favorito
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«Senão», palavra exceptiva

Ah, o jornalismo!

 

   «A crise e o declínio dos jornais e do jornalismo foram já longamente diagnosticados. Neste campo devastado, não há se não precárias sobrevivências. É certo que se deu um certo triunfo do jornalismo para além da morte dos jornais e há hoje uma “jornalização” generalizada» («Ah, o jornalismo!», António Guerreiro, «Ípsilon»/Público, 16.07.2015, p. 27).

  Correcto: «Neste campo devastado, não há senão precárias sobrevivências.» Há quem chame a este senão palavra exceptiva, já se percebe porquê. Outros exemplos correctos: «Não fazes nada senão dormir.» «No meu emprego não há senão mulheres.» «Nada quero de ti, senão compreensão.»

 

[Texto 6071]

Helder Guégués às 19:44 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Sobre «sanduíche»

Outro Eça

 

    «Depois [Baptista] viajou com Carlos; enjoaram nos mesmos paquetes, partilharam dos mesmos sandwiches no buffete das gares; Tista tornou‐se um confidente.» Assim escreveu Eça. Na edição dos Livros do Brasil, porém, «sanduíche» já aparece do género feminino, o que não acho bem. No Brasil, é considerada do género masculino. «José Julio da Silva Ramos, que, no Internato do Colégio Pedro II, foi, por quatro anos, nosso professor de português, aconselhava, gracejando, que, para evitarmos a dúvida sôbre o gênero de certas palavras, como “sanduíche”, nunca pedíssemos “um” ou “uma” sanduíche, “dois” ou “duas” sanduíches, mas sempre “três” ou “quatro” sanduíches, porque assim, quer sanduíche fosse masculino, quer fosse feminino, estaria certo» (Roda e Asa, Moacir M. F. Silva. Rio de Janeiro: Alba, 1941, p. 177).

 

 

[Texto 6070]

Helder Guégués às 16:02 | comentar | favorito
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«Viseira calada»

Uma acepção desaparecida

 

  «Em redor, nos aparadores de carvalho lavrado, rebrilhavam suavemente, no seu luxo maciço e sóbrio, as baixelas antigas; pelas tapeçarias ovais dos muros apainelados corriam cenas de balada, caçadores medievais soltando o falcão, uma dama entre pajens alimentando os cisnes de um lago, um cavaleiro de viseira calada seguindo ao longo de um rio; e contrastando com o tecto escuro de castanho entalhado a mesa resplandecia com as flores entre os cristais.» Assim era o Ramalhete. Infelizmente, nem todos os dicionários registam aquela acepção do verbo «calar», que é «abaixar», «descer». Elmo calado, viseira calada.

 

[Texto 6069]

Helder Guégués às 09:01 | comentar | favorito
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Cores compostas

Ele sabia

 

      «Trazia a barba toda, muito fina, castanho-escura, rente na face, aguçada no queixo – o que lhe dava, com o bonito bigode arqueado aos cantos da boca, uma fisionomia de belo cavaleiro da Renascença.» Assim vinha Carlos da Maia da sua viagem pela Europa. Assim escrevia, e bem, Eça. Nas cores compostas, flexiona-se somente o último elemento, se for de natureza adjectival. Ora, a verdade é que se vê muito erro nestes compostos.

 

[Texto 6068]

Helder Guégués às 08:17 | comentar | favorito
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19
Jul 15

Tradução: «requirement»

Outra confusão

 

      «“Legalmente, a embaixada estará a operar a partir de amanhã. Não é um requerimento legal que a bandeira esteja hasteada na fachada do edifício”, garantiu um porta-voz do Departamento de Estado, citado pelo The Washington Post. A Administração ainda não nomeou o futuro embaixador, uma escolha que terá de ser votada pelo Senado — por enquanto, a representação de Havana continuará a ser dirigida por Jeffrey DeLaurentis, agora com o posto do encarregado de negócios» («Inauguração de embaixada cubana em Washington marca fim de isolacionismo», Rita Siza, Público, 19.07.2015, p. 26).

     «It is not a legal requirement to fly a flag...» Pois é, mas neste contexto não se traduz por «requerimento», mas por «requisito», «condição». É um falso amigo, e é uma pena que os jornalistas não o saibam ver.

 

[Texto 6067]

Helder Guégués às 07:47 | comentar | ver comentários (1) | favorito