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Linguagista

Ortografia: «talqualmente»

Apenasmente isto

 

      «E conhece-me tal-qualmente eu sou» (Dama de Espadas — Crónica dos Loucos Amantes, Mário Zambujal. Revisão: Henrique Tavares e Castro. Lisboa: Clube do Autor, 5.ª ed., 2013, p. 134).

      É advérbio que pouco se vê, motivo suficiente para o trazer para aqui. Mas não apenas por isso. Será mesmo aquela a grafia? A dúvida — «talqualmente» ou «tal-qualmente»? — já passou pelo Ciberdúvidas. Resposta do consultor Carlos Marinheiro: «A grafia corre{#c|}ta deste advérbio é tal-qualmente; significa «assim mesmo; sem nenhuma diferença; exa{#c|}tamente». [Fonte: Dicionário da Língua Portuguesa 2008, da Porto Editora].» Pois, para mim, correcto é talqualmente. Não vejo razão para ser grafado com hífen.

      Há quem se espante muito com tais advérbios. Não nos esqueçamos que a receita para formar um advérbio de modo é tomar a forma feminina do adjectivo e acrescentar-lhe o sufixo -mente: divina + mente; tola + mente; etc. Isto é o que as gramáticas explicam, esquecendo que há excepções absolutamente consensuais, como, por exemplo, acintemente, malmente (ainda que se possa explicar por um arcaico malamente), apenasmente, só usado no Brasil, etc., em que acinte, mal e apenas são advérbios e não adjectivos. E a locução conjuntiva tal qual também é usada adverbialmente: Fizeram tal qual.

 

[Texto 6102] 

«Assustar os mercados»

Os mercados antropomorfizados

 

      «Ega gritou sofregamente pela receita. Simplesmente isto: manter uma agitação revolucionária constante; nas vésperas de se lançarem os empréstimos haver duzentos maganões decididos que caíssem à pancada na municipal e quebrassem os candeeiros com vivas à República; telegrafar isto em letras bem gordas para os jornais de Paris, Londres e do Rio de Janeiro; assustar os mercados, assustar o brasileiro, e a bancarrota estalava. Somente, como ele disse, isto não convinha a ninguém» (Os Maias, VI).

      Como se pode ver, já no século XIX os mercados, que hoje dominam a nossa vida, estavam antropomorfizados. E já nessa altura os políticos empurravam com a barriga (como agora se diz, de forma horrível, deselegante, imprecisa, num linguajar popular, sobretudo a propósito da Grécia) os problemas.

 

[Texto 6101]