24
Ago 15
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Ago 15

Léxico: «duas-peças»

É uma solução

 

      «A voz de Luciana sussurra “Marcos, está acordado?”, ela inclina-se para beijá-lo, reclama a sua atenção para a toilette nova chegada de Lisboa: é um duas-peças de sablé azul-cinza, mais cinza do que azul, a saia muito ousada descobre totalmente os tornozelos revestidos de finíssima seda cinzenta, no mesmo tom dos sapatos e do chapéu, só um magnífico colar de granadas quebra a sábia harmonia do conjunto» (O Último Cais, Helena Marques. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 3.ª ed., 1994, p. 178).

     Tanto quanto me lembro, nunca antes tinha visto. Em vez do galicismo tailleur, duas-peças, porque aquele traje é composto de duas peças, saia e casaco. Não sei se Mário Zambujal não o aportuguesou já em «taiêr»... Não? Aqui fica a sugestão.

 

[Texto 6182]

Helder Guégués às 07:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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23
Ago 15
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Ago 15

O valor da repetição

Uma técnica eficaz

 

      «Bem difícil decerto, doutor, bem difícil» (O Último Cais, Helena Marques. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 3.ª ed., 1994, p. 15). Na oralidade, que a frase reproduz, são muito comuns estas repetições. Nesta obra, porém, encontra-se também muitas vezes no discurso indirecto. «Constança deu-se conta de quanto sentia, bem fundo, bem fundo, aquele finalmente no minuto em que o padre vigário de Santa Luzia se curvou para fechar os olhos da morta» (idem, ibidem, p. 39). «Nunca tinha sentido aquela urgência, aquela necessidade imperiosa de permanecer encostada ao sexo de Marcos, movendo-se, movendo-se, à espera de qualquer coisa que havia de vir e seria muito melhor e mais forte do que o perturbante prazer que já então sentia» (idem, ibidem, p. 53). «Mas ainda bem, ainda bem, segredos assim não se partilham» (idem, ibidem, p. 54). «A memória de Catarina Isabel reteria também, durante longos, longos anos, nítida, rutilante e imaterial, a lembrança de um duplo arco-íris que surgiu sobre o mar, do lado da ponta do Garajau, em curva perfeita e delicada» (idem, ibidem, p. 113). «Na outra mão, a doente segura o rosário de ametistas que o primo Antero trouxera do Brasil há tantos, tantos anos» (idem, ibidem, p. 142). «Mas por uma vez, uma só vez, vai quebrar as normas e correr o risco» (idem, ibidem, p. 155).

 

[Texto 6181]

Helder Guégués às 07:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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22
Ago 15
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Ago 15

Adeus, cultura clássica

Não rodeia a cinta

 

      Lido algures: «Na Ilha de Kos a situação é caótica e o governo grego enviou para o local um navio para acolher os migrantes prioritários.» É como, de repente, se vai lendo em todo o lado. Apesar de me parecerem indocíveis, cá vai: «Hipócrates — O grande médico da Antiguidade [1]. Nasceu na ilha de Cós (Grécia), cerca de 400 a. C., e foi contemporâneo de Péricles, Platão e Aristóteles. É considerado como [2] o fundador da Medicina ocidental, e o seu famoso “Juramento” — síntese dos deveres do médico e dos valores que deve defender, contém valores éticos que ainda hoje perduram» (Deuses, Mitos e Lendas, Jorge Campos Tavares. Lisboa: Lello & Irmão, 1992, p. 267).

 

[Texto 6180]

Helder Guégués às 08:10 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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21
Ago 15
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Ago 15

Homógrafo: «tolo»

Construção abobadada

 

      «Ana Catarina Sousa atribui este rigor ao facto de ambos serem absolutamente metódicos, associando a disciplina militar de Georg, um perfeccionista, à habilidade de Vera, uma “desenhadora exímia”, para o registo das estruturas — antas, tholos (monumentos de falsa cúpula), hipogeus (grutas escavadas na rocha) — e dos materiais que resultavam das escavações, que estão, na sua maioria, depositados no Museu Nacional de Arqueologia (MNA)» («Nas antas do Alentejo já se falou alemão», Lucinda Canelas, Público, 20.08.2015, p. 28).

      A jornalista, mas decerto que não apenas ela, teme que confundamos com tolos — preciso de exemplificar com alguém? —, mas engana-se, enganam-se todos. É como se para «besta», a arma, tivessémos de usar o étimo latino, ballestra, para não haver confusões com «besta», o animal irracional. Diz-se /bêsta/bésta/ como também se diz /tôlo/tólo/. São homógrafos. O resto é tolice.

 

[Texto 6179]

Helder Guégués às 08:42 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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20
Ago 15

Léxico: «pré-historiador»

Acho pois

 

      «O arquivo que [Georg e Vera Leisner] reuniram ao longo de décadas de trabalho — o que sobreviveu, é claro — é do Instituto Arqueológico Alemão, a cujo grupo de investigadores pertenciam, mas está hoje à guarda da Biblioteca de Arqueologia, que ajudaram a reunir, instalada no Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa. Uma equipa de arqueólogos e arquivistas, coordenada por Ana Catarina Sousa, pré-historiadora e professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, está a trabalhá-lo e a disponibilizá-lo online» («Nas antas do Alentejo já se falou alemão», Lucinda Canelas, Público, 20.08.2015, p. 28).

   Serei apenas eu que acho muito estranha esta designação, «pré-historiador»? Não pensamos — não penso eu — de imediato em Pré-História, antes ocorrem palavras como «pré-universitário», por exemplo. Seria, digamos, alguém que ainda não é, mas vai ser, historiador.

 

[Texto 6178]

Helder Guégués às 09:33 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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20
Ago 15

Ortografia: «malmandado»

É assim

 

      Já diz o refrão dos nossos vizinhos: Al mozo malmandado, ponerle la mesa y enviarle al recado. E pronto, está tudo dito, pelo menos no que respeita à ortografia (e à forma de tratar os interesseiros). É, cá e lá, malmandado que se escreve. Ouviste, moça?

 

[Texto 6177]

Helder Guégués às 08:50 | comentar | favorito
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19
Ago 15

Tradução: «Anglo-America»

Não é nosso

 

      Que é isso, na «Anglo-América»? Anglo-America, British America, English-speaking America, Anglophone America, British North America é deles, são eles que dizem assim. Nós diremos América anglófona, América Britânica (ou, menos correcto, mas que se vai lendo, América Inglesa). Estes tradutores...

 

[Texto 6176]

Helder Guégués às 14:27 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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19
Ago 15

Ortografia: «Aristeu»

Rpe

 

      Essa cultura clássica ortograficamente coxa... Eurídice, por quem Orfeu desceu aos infernos, não fugiu da perseguição de *Aristeo, mas sim de Aristeu. Récipe: leitura das Geórgicas, ainda que em edição moderna.

 

[Texto 6175]

Helder Guégués às 09:21 | comentar | favorito
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