26
Set 15

«Descuidar-se», uma acepção esquecida

Descuidaram-se

 

      «E certa vez que ia ter uma escritura, e todos se puseram de pé, um dos outorgantes, coitado, descuidou-se: um prolongado borborigmo, e logo uma ventosidade impudente manchou o silêncio branco, notarial e solene» (As Torrentes da Memória: Histórias e Inconfidências do Arco-da-Velha, Luís Cajão. Lisboa: Palas Editores, 1979, p. 74). Descuidar-se, nesta acepção de deixar escapar uma ventosidade, não aparece nos dicionários, o que só pode dever-se a esquecimento dos dicionaristas, porque, sendo forma eufemística, por pudicícia não é. Heinz Kröll, porém, não se esqueceu.

 

[Texto 6274]

Helder Guégués às 19:39 | comentar | favorito

As estações vão perder o encanto

Outono maiúsculo

 

      «Bem sei que o Acordo Ortográfico despromoveu as estações do ano,
que deixam de se escrever com uma maiúscula. O meu Outono resiste a tal despautério. Resistirá sempre, porque o meu Outono é mesmo maiúsculo. Porque — entre maiúsculas e minúsculas — a vida no Outono não se confunde com o outono da Vida» («Outono, sempre maiúsculo e generoso!», António Bagão Félix, Público, 26.09.2015 p. 55).

      Tenho de concordar com António Eça de Queiroz que o Acordo Ortográfico de 1990 veio trazer mais interesse e curiosidade sobre a língua em geral, e a ortografia em particular. Mas, se não houver recuo, e não vejo como, na aplicação da nova ortografia, é quase como ficarmos contentes por já não termos micoses nos pés — porque nos amputaram as pernas! A verdade é que, a favor ou contra, se trata de um interesse apaixonado (o que não raro traz obnubilação), desinformado e, em muitos casos, mero pretexto para escaramuças.

 

[Texto 6273]

Helder Guégués às 09:52 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Ortografia: «norte-alentejano»

Perder o norte e o hífen

 

   «Os automobilistas que circulem no concelho norte alentejano do Crato têm de o fazer com atenção redobrada, pois há alguma probabilidade de lhe aparecer no caminho um touro tresmalhado ou uma manada de vacas, sem que o dono esteja identificado. O caso mais recente, aconteceu na passada semana. Um bezerro atravessou-se na frente de uma viatura que ficou com danos apreciáveis, mas sem ferimentos para o condutor. O animal foi abatido» («Gado à solta no Crato lança pânico na estrada e assusta população», Carlos Dias, Público, 26.09.2015 p. 18).

   Se escrevemos norte-africano, norte-americano, norte-coreano, norte-irlandês, norte-rio-grandense, etc., e, semelhantemente, sul-africano, sul-americano, sul-asiático, sul-coreano, sul-europeu, etc., só pode escrever-se norte-alentejano. É só pensar.

 

[Texto 6272]

Helder Guégués às 09:42 | comentar | favorito
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26
Set 15

Não a qualquer preço

E por aí fora

 

      «Se ainda havia dúvidas de que o fosso entre as super-potências do râguebi e as selecções de segundo plano está cada vez menor, o confronto entre a Nova Zelândia e a Namíbia ajudou a mostrar que, ano após ano, as diferenças se reduzem» («Johan Deysel cometeu a proeza
de marcar um ensaio aos All Blacks», David Andrade, Público, 25.09.2015 p. 45). «As Jornadas Europeias do Património voltam a abrir o alçapão que conduz ao submundo da capital. Milhares acorrem à rua da Conceição (perto do n.º 77,) onde começa a visita pelos corredores escuros, húmidos e labirínticos construídos no tempo do imperador Augusto (século I) e só descobertos após o terramoto de 1755» («Baixa lisboeta de galerias romanas abertas», Público, 25.09.2015 p. 39). «Todos os anos, a tarefa dos agentes de segurança é o de gerir a gigantesca maré humana que durante três dias tem que fazer um percurso de várias dezenas de quilómetros para visitar uma série de lugares pré-estabelecidos [sic] desde a Kaaba [sic], no centro da Grande Mesquita de Al-Haram, até Mina e seguindo até ao monte Arafat, passando no regresso pelo local de oração em Muzdalifah antes de chegar a Jamarat, para acabar apedrejando simbolicamente o diabo» («Debandada de milhões de peregrinos em Meca faz mais de 700 mortos», Público, 25.09.2015 p. 30). «Já Costa viaja pelo país, também com a casa às costas, mas em versão mais amadora: meia-dúzia de carros entre os quais segue a sua secretária pessoal, Conceição Ribeiro» («O challenger
 e o resiliente 
à conquista
do país pela TV», São José Almeida, Público, 26.09.2015 p. 5).

      Dito isto, o mérito de ser-se contra a aplicação do Acordo Ortográfico de 1990 pode revelar-se seriamente comprometido, e os pergaminhos deslustrados, quando tanto se atenta contra a ortografia que se usa e defende.

 

[Texto 6271]

Helder Guégués às 09:16 | comentar | favorito
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