27
Set 15
27
Set 15

Pronúncia: «transesofágico»

Uma experiência ética

 

      Foi submetido a um exame ao coração por via transesofágica. Isso é mau. Mas como pronunciará a palavra a maioria dos falantes? Muitos deles — comprovei com alguns e infiro em relação a outros — pronunciarão o prefixo trans- como se fosse seguido de elemento iniciado por s, em cujo caso só se escreve um s, que, todavia, se profere como se fora dobrado — transecular (trans + secular), transubstanciação (trans + substanciação). Quem não viu já alguma vez, por exemplo, o erro «transsexual»? Contudo, em transesofágico, ao prefixo, que contém uma vogal nasalada, segue-se elemento começado por vogal, pelo que o s é intervocálico e se pronuncia z. Agora peguem aí no ser humano mais à mão e façam a experiência: escrevem a palavra «transesofágico» num papel e pedem a essa pessoa que a leia. Poderão ter alguma surpresa.

 

[Texto 6275]

Helder Guégués às 16:40 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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26
Set 15

«Descuidar-se», uma acepção esquecida

Descuidaram-se

 

      «E certa vez que ia ter uma escritura, e todos se puseram de pé, um dos outorgantes, coitado, descuidou-se: um prolongado borborigmo, e logo uma ventosidade impudente manchou o silêncio branco, notarial e solene» (As Torrentes da Memória: Histórias e Inconfidências do Arco-da-Velha, Luís Cajão. Lisboa: Palas Editores, 1979, p. 74). Descuidar-se, nesta acepção de deixar escapar uma ventosidade, não aparece nos dicionários, o que só pode dever-se a esquecimento dos dicionaristas, porque, sendo forma eufemística, por pudicícia não é. Heinz Kröll, porém, não se esqueceu.

 

[Texto 6274]

Helder Guégués às 19:39 | comentar | favorito

As estações vão perder o encanto

Outono maiúsculo

 

      «Bem sei que o Acordo Ortográfico despromoveu as estações do ano,
que deixam de se escrever com uma maiúscula. O meu Outono resiste a tal despautério. Resistirá sempre, porque o meu Outono é mesmo maiúsculo. Porque — entre maiúsculas e minúsculas — a vida no Outono não se confunde com o outono da Vida» («Outono, sempre maiúsculo e generoso!», António Bagão Félix, Público, 26.09.2015 p. 55).

      Tenho de concordar com António Eça de Queiroz que o Acordo Ortográfico de 1990 veio trazer mais interesse e curiosidade sobre a língua em geral, e a ortografia em particular. Mas, se não houver recuo, e não vejo como, na aplicação da nova ortografia, é quase como ficarmos contentes por já não termos micoses nos pés — porque nos amputaram as pernas! A verdade é que, a favor ou contra, se trata de um interesse apaixonado (o que não raro traz obnubilação), desinformado e, em muitos casos, mero pretexto para escaramuças.

 

[Texto 6273]

Helder Guégués às 09:52 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Ortografia: «norte-alentejano»

Perder o norte e o hífen

 

   «Os automobilistas que circulem no concelho norte alentejano do Crato têm de o fazer com atenção redobrada, pois há alguma probabilidade de lhe aparecer no caminho um touro tresmalhado ou uma manada de vacas, sem que o dono esteja identificado. O caso mais recente, aconteceu na passada semana. Um bezerro atravessou-se na frente de uma viatura que ficou com danos apreciáveis, mas sem ferimentos para o condutor. O animal foi abatido» («Gado à solta no Crato lança pânico na estrada e assusta população», Carlos Dias, Público, 26.09.2015 p. 18).

   Se escrevemos norte-africano, norte-americano, norte-coreano, norte-irlandês, norte-rio-grandense, etc., e, semelhantemente, sul-africano, sul-americano, sul-asiático, sul-coreano, sul-europeu, etc., só pode escrever-se norte-alentejano. É só pensar.

 

[Texto 6272]

Helder Guégués às 09:42 | comentar | favorito
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26
Set 15

Não a qualquer preço

E por aí fora

 

      «Se ainda havia dúvidas de que o fosso entre as super-potências do râguebi e as selecções de segundo plano está cada vez menor, o confronto entre a Nova Zelândia e a Namíbia ajudou a mostrar que, ano após ano, as diferenças se reduzem» («Johan Deysel cometeu a proeza
de marcar um ensaio aos All Blacks», David Andrade, Público, 25.09.2015 p. 45). «As Jornadas Europeias do Património voltam a abrir o alçapão que conduz ao submundo da capital. Milhares acorrem à rua da Conceição (perto do n.º 77,) onde começa a visita pelos corredores escuros, húmidos e labirínticos construídos no tempo do imperador Augusto (século I) e só descobertos após o terramoto de 1755» («Baixa lisboeta de galerias romanas abertas», Público, 25.09.2015 p. 39). «Todos os anos, a tarefa dos agentes de segurança é o de gerir a gigantesca maré humana que durante três dias tem que fazer um percurso de várias dezenas de quilómetros para visitar uma série de lugares pré-estabelecidos [sic] desde a Kaaba [sic], no centro da Grande Mesquita de Al-Haram, até Mina e seguindo até ao monte Arafat, passando no regresso pelo local de oração em Muzdalifah antes de chegar a Jamarat, para acabar apedrejando simbolicamente o diabo» («Debandada de milhões de peregrinos em Meca faz mais de 700 mortos», Público, 25.09.2015 p. 30). «Já Costa viaja pelo país, também com a casa às costas, mas em versão mais amadora: meia-dúzia de carros entre os quais segue a sua secretária pessoal, Conceição Ribeiro» («O challenger
 e o resiliente 
à conquista
do país pela TV», São José Almeida, Público, 26.09.2015 p. 5).

      Dito isto, o mérito de ser-se contra a aplicação do Acordo Ortográfico de 1990 pode revelar-se seriamente comprometido, e os pergaminhos deslustrados, quando tanto se atenta contra a ortografia que se usa e defende.

 

[Texto 6271]

Helder Guégués às 09:16 | comentar | favorito
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25
Set 15

Uma certa construção

Só para mentes iluminadas

 

      «É necessário a cada momento fazer um balanço correcto da força real que se tem e daquela que é necessária ter, nunca esquecendo que a apreciação da força duma organização revolucionária não deve ser feita tanto por aquilo que é, como por aquilo que seria necessário que fosse para cumprir as tarefas que lhe cabem numa situação histórica determinada.» Tentem lá esquecer-se ou não querer saber que é uma citação de Álvaro Cunhal (Discursos Políticos, vol. 11. Lisboa: Edições Avante!, 1980, p. 311). Aquela construção — «é necessária ter» — é correcta?

 

[Texto 6270]

Helder Guégués às 23:06 | comentar | ver comentários (1) | favorito

A Caaba ou não acaba?

Um agente duplo

 

    E o Público não terá infiltrados ou agentes duplos, quando escrevem Kaaba podendo escrever Caaba? «Todos os anos, a tarefa dos agentes de segurança é o de gerir a gigantesca maré humana que durante três dias tem que [sic] fazer um percurso de várias dezenas de quilómetros para visitar uma série de lugares pré-estabelecidos [sic] desde a Kaaba [sic], no centro da Grande Mesquita de Al-Haram, até Mina e seguindo até ao monte Arafat, passando no regresso pelo local de oração em Muzdalifah antes de chegar a Jamarat, para acabar apedrejando simbolicamente o diabo» («Debandada de milhões de peregrinos em Meca faz mais de 700 mortos», Público, 25.09.2015, p. 30).

 

[Texto 6269] 

Helder Guégués às 22:33 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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25
Set 15

Um Diabo maiúsculo

O Senhor Diabo

 

      «Ontem celebrava-se a cerimónia de encerramento dos cinco dias do hajj, quando os muçulmanos se deslocam a Jamarat, perto de Mina, para atirarem pedras a um pilar que simboliza Satanás. […] Todos os anos, a tarefa dos agentes de segurança é o de gerir a gigantesca maré humana que durante três dias tem que [sic] fazer um percurso de várias dezenas de quilómetros para visitar uma série de lugares pré-estabelecidos [sic] desde a Kaaba [sic], no centro da Grande Mesquita de Al-Haram, até Mina e seguindo até ao monte Arafat, passando no regresso pelo local de oração em Muzdalifah antes de chegar a Jamarat, para acabar apedrejando simbolicamente o diabo» («Debandada de milhões de peregrinos em Meca faz mais de 700 mortos», Público, 25.09.2015, p. 30).

      E será assim, Satanás, mas diabo? Ora, ora. Não se trata do nome, na tradição judaico-cristã, de um específico anjo rebelde a Deus? É Satanás, como é Diabo, Satã, etc. Eça de Queiroz — de quem tanto tenho falado e ouvido falar nos últimos tempos, e ainda bem — tem justamente um conto intitulado «O Senhor Diabo», e nele sempre aquela carismática figura (espero que se possa dizer isto...) aparece com o nome grafado com maiúscula.

 

[Texto 6268]

Helder Guégués às 22:12 | comentar | favorito
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