08
Out 15

Léxico: «iatrogénico»

Usado e explicado

 

   Eugénio Leite, médico oftalmologista, foi ontem explicar ao programa Bom Dia[,] Portugal a importância da descoberta, feita por investigadores brasileiros da Fundação Ezequiel Dias, de uma substância, a crotoxina, no veneno da cobra cascavel que pode ajudar a curar o estrabismo. «[...] isso implica depois eu ter que reoperar, para corrigir, digamos, uma situação iatrogénica, que eu provoco» (8h52). Está explicado: é o efeito clínico nefasto advindo de um tratamento médico. É termo que se ouve ou lê uma vez a cada dez anos.

 

[Texto 6301]

Helder Guégués às 09:19 | comentar | favorito
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08
Out 15

Pronúncia: «Guiana»

Gu-i-a-na

 

      Também a mim me escreveu um cidadão (não posso revelar se foi o mesmo) da Guiana Inglesa, ou, na sua designação oficial, República Cooperativa da Guiana. «How do I pronounce my country’s name in European Portuguese so that your countrymen know that I am from undoubtedly Guyana, and not Guiné and all the other places they ascribe to me; additionally, what is my nationality in European Portuguese?» Sobre a pronúncia sim, há divergências, e já veremos a que se devem. Quanto a identificar-se inequivocamente como natural daquele país usando apenas a palavra «Guiana», tal não é possível, pois nenhuma das três Guianas se pronuncia de forma diferente. Com «Guiné» nunca se confundirá.

   Quanto à pronúncia: temos ali um ditongo. Nos dicionários brasileiros, e nomeadamente no Dicionário Houaiss, ele está indicado, /ùi/. Como está indicado no portuguesíssimo Vocabulário da Língua Portuguesa (1966), de Rebelo Gonçalves, tanto para o topónimo (p. 514), como para os gentílicos (p. 515). Alguma coisa mudou desde então? Rigorosamente nada. Ou, como diz a Apple do novo iPhone, mudou apenas uma coisa: tudo. A realização fonética é a indicada, a grafia é a possível. De facto, pronunciar-se agora de forma diferente não pode senão dever-se a ignorância. Em 2007, no Ciberdúvidas, sobre esta mesma questão, Edite Prada e Carlos Rocha escreviam assim: «Aparentemente, poderia dizer-se que a pronúncia subjacente implica a não realização fonética do u, e é assim que acontece em Portugal» (ver aqui). Não pretendo que seja uma amostra representativa, mas, das quatro pessoas a quem perguntei (as que tinha à mão), duas leram o u e duas não o leram. Na Base XXV do Acordo Ortográfico de 1945 também é referido: «O topónimo Guiana e os seus derivados, como guianense e guianês, posto que o u seja foneticamente distinto do g anterior, formando ditongo com o i seguinte, dispensam, por simplificação ortográfica, o acento grave com que poderia assinalar-se tal distinção.»

   Como tantos outros estrangeirismos (se veio, como creio, do castelhano, é um amerigenismo, isto é, uma palavra originária de dialectos da América indígena e que foi adaptada ao castelhano), a sua adaptação à nossa língua não é fácil. No caso, nem sequer o recurso ao trema seria suficiente para indicar a pronúncia correcta, pois apenas indicaria que o u não é mudo.

 

[Texto 6300]

Helder Guégués às 00:33 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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