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Out 15

Léxico: «inscientífico»

Não é erro, é escolha

 

      Era previsível: Eça escreveu «tempos inscientíficos», e Aquela Que Já Sabem alterou arbitrariamente para «tempos incientíficos». Porque acham que José Pedro Machado registou a palavra? Eu sei de onde provém a crença de que é erro, mas pensem: não se escreve «inscícia», «insciência», «insciente», «ínscio»?

 

[Texto 6338]

Helder Guégués às 23:58 | comentar | favorito
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Léxico: «arrochear»

Corrijam os vivos

 

   «Jacinto arrocheava o nó da gravata branca», escreveu Eça de Queiroz. Passaram décadas e décadas, e vieram pessoas muito inteligentes, muito sabedoras, muito importantes — e decretaram que era «arrochar» e não «arrochear». Felizmente, ainda há autores que sabem que não têm de se cingir ao que os dicionários atestam: «Mesmo com a ajuda do pessoal da estação, o pôr das cordas, o carregar, equilibrar e arrochear de cinco bestas, os agradecimentos e os adeuses demoraram-nos ali um ror de tempo» (Ernestina, José Rentes de Carvalho. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 225).

 

[Texto 6337]

Helder Guégués às 22:35 | comentar | favorito

Léxico: «trepa»

MP leva sova

 

      João Araújo, advogado de José Sócrates: «O Ministério Público insiste em esconder que levou uma trepa, que levou uma trepa, e que não pôde continuar com os expedientes dilatórios com que se estava a entreter.» Repreensão; descompostura; crítica; sova. Ombreia com os melhores: «Vá preparando a pele para uma boleadela. Se o menino fosse filho do meu patrão do Terreiro, bem estava, que os filhos dele fazem o que querem. O menino, não. Leva uma trepa, que há-de saber a que freguesia pertence» (Três Meses de Inferno, João de Araújo Correia. Lisboa: Editorial Estampa, 1983, p. 96). 

 

[Texto 6336]

Helder Guégués às 13:43 | comentar | favorito
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Léxico: «amontoa»

Língua rústica

 

   Decorre na Lousã, vi ontem no Telejornal, a maior acção de reflorestação da Península Ibérica. Paulo Timóteo, da Floresta Unida: «Neste momento, estamos a proceder ao processo de sacha e montoa, que consiste em limpar todo o raio envolvente da árvore plantada, já plantada, já existente, que possa ter ganho ervas daninhas, plantas invasoras, que vão tirar a força a essa árvore.» Não é «montoa», mas «amontoa», que é precisamente a acção de amontoar a terra ao pé das plantas susceptíveis de raízes adventícias. Sacha e amontoa. (Hoeing and earthing-up, para a legião de anglófonos que nos segue.)

 

[Texto 6335]

Helder Guégués às 13:23 | comentar | favorito
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Mais estragos do AO90?

Saibam todos e todas

 

      E a Maria de Belém Roseira, candidata à Presidência da República, que podemos dizer? Além de desejarmos boa sorte e dinheiro para pagar a campanha, isto: não se diz «projêto», mas «projèto». Diz-se, mas não se escreve. Escreve-se «projecto» ou, segundo o AO90, «projeto». «É minha convicção que Portugal deve fazer tudo o que estiver ao seu alcance para manter, completar e aprofundar o projêto de integração europeia.» 

    Aprenda com Gonçalves Viana, um dos nossos maiores foneticistas, que, se fosse vivo, teria hoje 175 anos, demasiado velho para se candidatar fosse ao que fosse:

Projecto (1).png

 

[Texto 6334]

Helder Guégués às 12:13 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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18
Out 15

Erros e desmazelos nos jornais

Um pouco mais de cuidado e...

 

       «Billy ““The Kid”” jogava críquete. Ou pelo menos, jogou uma vez, a avaliar por uma rara fotografia agora revelada onde vemos o célebre criminoso não de espingarda na mão - um clássico - mas com um taco de críquete enquanto aponta para o jogo que acontece à sua frente. […] Mais de 130 anos passaram desde que Billy “The Kid” — ou Henry McCarty (nome de nascença), ou ainda, William H. Bonney (nome adoptado aos 18 anos) — morreu. […] Quando olhou para a foto, o norte-americano diz ter visto naquele homem ao centro “um rosto familiar”. “Chamou-me à atenção: aquele chapéu e aquela postura”, contou Guijarro à BBC» («O dia em que Billy “The Kid” jogou críquete com os seus parceiros de crime», Cláudia Lima Carvalho, Público, 18.10.2015, p. 36).

      Hum, não são aspas em excesso, Cláudia Lima Carvalho? Billy ““The Kid””... E lá está a troca trapalhona dos travessões por hífenes. E será que se diz «nome de nascença»? Claro que não é «chamou-me à atenção», mas sim «chamou-me a atenção». «It caught my eye: that hat and the stance.»

 

[Texto 6333]

Helder Guégués às 11:30 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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